Sociedade

Confinar aqui? Pandemia leva portugueses a querer mudar de casa

Na decisão de mudança de casa, o valor da habitação é o fator principal e depois do confinamento a sensibilidade ao preço aumenta, alerta estudo da Century 21.


“O período de confinamento trouxe uma mudança na perceção dos portugueses sobre a sua casa atual. O teletrabalho, as aulas virtuais e o facto de se passar muito mais tempo em casa, levaram à valorização de alguns aspetos, ao mesmo tempo que revelaram uma série de deficiências, na habitação”. Esta é uma das conclusões de um estudo realizado pela Century 21 Portugal para identificar as perceções e comportamentos dos portugueses relativamente à habitação, no âmbito do confinamento originado pela pandemia.

De acordo com este estudo, mais de seis em cada 10 entrevistados “sentiram falta de alguma coisa nas suas habitações durante o confinamento, sobretudo, que fosse uma casa unifamiliar com jardim. Os terraços, um local especial para teletrabalho ou um espaço onde as crianças pudessem brincar foram as principais necessidades não observadas em casa, durante o confinamento”. Uma conclusão que não deixou margem para dúvidas: “O aumento da utilização do domicílio evidenciou a necessidade de mais espaço, onde cada membro da família pudesse ter o seu próprio ambiente.

De acordo com a mediadora, são essas evidências e novas necessidades que estimularam 45% dos entrevistados a assumirem que pretendem mudar de casa. No entanto, admite que a realidade é que o perfil do comprador atual é o mesmo de antes da pandemia. “O poder de compra dos portugueses manteve-se, ou foi mesmo depreciado pela situação económica e laboral gerada pela pandemia. Por isso, a lacuna que já existia entre as expectativas e os desejos na hora de procurar uma casa, e o que a sua capacidade financeira realmente permite pagar, aumentou dramaticamente”.

E face a esse cenário, o estudo garante que há uma elevada percentagem de população que interessada em mudar de habitação, ainda assim, “o processo de procura revela uma oferta exígua e as soluções habitacionais que existem não correspondem às suas expectativas”.

De acordo com o CEO da Century 21, o mercado imobiliário continua a registar níveis elevados de procura, o que, no seu entender, confirma que as famílias têm vontade, e necessidade, de mudar de casa, como também se conclui neste estudo. “A nível nacional, a oferta de soluções habitacionais, de um modo geral, adequa-se à procura e está em linha com os rendimentos das famílias portuguesas. Contudo, a acessibilidade à habitação é condicionada pelas elevadas taxas de esforço registadas em Lisboa e noutras cidades da Área Metropolitana de Lisboa, no Algarve e Área Metropolitana do Porto”

Mas o responsável lembra que, nestas zonas, a oferta limitada continua a ser o maior desafio do mercado imobiliário, sobretudo nas soluções ajustadas às necessidades e ao poder de compra da classe média.

O que procuram os portugueses? A Quer antes, quer depois do confinamento, a Localização continua a ser a variável mais importante. E o objetivo passa por procurar uma localização numa área sossegada e silenciosa, em que é dado destaque à proximidade a supermercados, lojas, parques e zonas verdes, acessibilidade a transportes públicos e a vizinhança. “Depois do confinamento, a proximidade aos filhos ou família e a de zonas de restauração são os aspetos que ganharam mais importância”, refere o estudo. Ainda assim, mais de metade dos inquiridos (53%) assume manter a preferência por habitar na mesma zona em que vive atualmente.

Já em relação àqueles que pretendem mudar para outro local, é dado destaque a uma zona periférica do centro da cidade, em que esta é a localização preferida (35% antes e 31% depois do confinamento), seguida pelo centro da cidade (24% antes e depois). “Antes do confinamento, apenas 17% procuravam morar fora da cidade. Depois do confinamento, já 20% dos inquiridos indicaram que mudariam para fora das cidades”, salienta.

A moradia de um piso é o tipo de habitação mais desejado e esta opção é apontada por 39% dos inquiridos, quer antes, quer depois da pandemia. No entanto, depois do confinamento, a preferência por uma casa de 151 a 200 metros quadrados sobe na liderança da escolha dos portugueses, quando antes se fixava nos 146 metros quadrados e depois do confinamento cresce para os 149 metros quadrados.

Em relação às tipologias da habitação, o confinamento fez aumentar o interesse por casas de quatro quartos, e a preferência por habitações com quatro casas de banho. “O facto de ter espaço ou condições para teletrabalho (30%), ter espaço para as crianças brincarem (29%) e o edifício ter amplos espaços comuns (28%) são as principais características que os inquiridos procuram na sua nova casa”, diz o documento.

É certo que as novas necessidades de habitação assinaladas pelos inquiridos contrastam com a realidade da capacidade financeira das famílias portuguesas. “Embora a vontade de mudar exista e os principais recursos que pretendem na sua nova casa sejam ter áreas maiores e edifícios com amplos espaços comuns, o poder de compra dos consumidores não acompanha os valores da atual oferta de habitações existente no mercado imobiliário nacional”.

Os resultados do estudo demonstram que os montantes que mais pessoas estariam dispostas a pagar por uma hipoteca, ou arrendamento, situam-se entre os 301 a 400 euros (25%) e entre os 201 a 300 euros mensais (22%). Já 17% poderiam pagar até 500 euros mensais, enquanto apenas 11% dos inquiridos têm disponibilidade financeira para chegar aos 600 euros.

Entre os inquiridos que afirmaram ter o desejo de mudar de habitação, 46% ainda não começaram a procurar uma casa, 21% ainda estão à procura, enquanto 16% já encontraram a casa que procuravam. “O principal motivo apontado por quem não adquiriu, ou arrendou, casa é o facto da habitação pretendida estar além das suas possibilidades financeiras.

“A pandemia veio mudar a perspetiva que temos da casa e valorizar a importância que a habitação assume na nossa vida. Nesta nova realidade, o que se torna evidente é a necessidade de mais espaço para teletrabalhar – indicada por 30% dos inquiridos – e para as crianças passarem mais tempo em casa (29%). As famílias também pretendem que os edifícios tenham amplos espaços comuns (28%) e saiu reforçado o sentimento de propriedade, com 89% dos portugueses a afirmarem que querem ser proprietários. Surpreendente é também o facto da maioria dos inquiridos, 53%, afirmarem que querem viver na mesma zona e, os que afirmam que ponderam mudar de zona, 35% optam por uma zona periférica ao centro da cidade”.