Politica

Notáveis do PS defendem vice-PM para proteger Costa

Depois de passar pelo banco, que é como quem diz garantida a bazuka e finda a presidência da UE, os socialistas estão à espera de uma remodelação... e ainda antes das autárquicas.


«O Governo tem uma orgânica pensada para a Presidência portuguesa do Conselho da União Europeia», disse Carlos César ao Nascer do SOL, e, concluído esse tempo, «o primeiro-ministro pode chegar à conclusão que deve rever alguns dos seus aspetos», acrescentou o presidente do PS, experimentado político e homem muito próximo de António Costa. 

A ideia de que Costa e o PS estão no poder para ficar, sem alternativa que se veja, dá uma relativa tranquilidade ao partido, tanta que permite que os incidentes autárquicos não passem disso mesmo, de incidentes, ou que a tensão entre Ana Catarina Mendes e Pedro Nunos Santos tenha sido debelada com relativo paternalismo, quase como zanga de miúdos, sendo que os sucessivos ataques de que o ministro das Infraestruturas tem vindo a ser alvo confirmam a sua relativa relevância ou exposição mas também apelam à solidariedade interna, e, por esta altura, a líder parlamentar já se deve ter arrependido de comentar publicamente as atitudes do ‘truculento’ ministro. 

E onde há incidentes está Costa, seja no partido, seja no Governo. O secretário-geral do PS, já reeleito com a esmagadora maioria de 94% de votos, tinha mesmo programado fazer-se à estrada para estar na apresentação das dezenas dos candidatos autárquicos do partido, com destaque para Lisboa, onde Fernando Medina já conheceu melhores dias à frente da Câmara Municipal da cidade, e para o Porto, onde Tiago Barbosa Ribeiro conheceu dias de alguma hesitação até se ver confirmado como um candidato de outras segundas escolhas. Mas cancelou tudo devido à pandemia. No programa de Costa, estava iniciar a volta de Norte a Sul neste sábado, dia 26 de junho, em Braga, Bragança e Viana do Castelo, Viseu, Guarda e Castelo Branco, Leiria, Coimbra e Aveiro, e, ainda, Setúbal, Lisboa e Santarém. No próximo sábado, dia 4 de julho, o rumo seria ainda mais a Sul, para estar com os candidatos de Faro, primeiro, e Évora depois. 

Com este périplo cancelado, as atenções voltam-se para o congresso dos socialistas, em que se prevê que tudo decorra de forma tranquila. Também devido às boas perspetivas para as eleições autárquicas. O PS venceu as eleições autárquicas em 2017, com 160 presidências de Câmara (em 308) e com 1302 presidências de freguesias (em 3085), em 2021, pedem-se mais juntas de freguesia. 

Avaliação & Remodelação 

‘Now, i can go to the bank?’, foi a piada do primeiro-ministro levada a sério pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que veio a Lisboa para o ato formal da assinatura do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) português, que lhe respondeu que sim senhor e ainda acrescentou: «O vosso sucesso, será o nosso sucesso. Um sucesso europeu». E é embalado por uma ideia de sucesso, num país que, disse também o primeiro-ministro, «tem um historial de bom aproveitamento dos fundos europeus» – uma ideia que tem sido seriamente contrariada até pelas campainhas que têm tocado no Palácio de Belém –, que António Costa vai ter de tomar decisões. 

Não sabemos se antes ou depois da autárquicas, mas percebe-se a inevitabilidade de uma remodelação governamental. Porque terminou a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia e é tempo para uma avaliação externa, do contributo português nestes seis meses para além da polémica neutralidade na questão LGTB húngara; e interna, de como é que anda o Governo, a reunir por zoom há meses, eliminando proximidade, diálogo e até algum debate discordante, ou seja, neste momento, e de acordo com uma outra fonte da área socialista, só a ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, é capaz de contrariar o primeiro-ministro, o que faz, e de forma sensata, não no contexto do Conselho de Ministros mas na relação one-on-one. Não conseguimos apurar se Graça Fonseca abdicou da sua capacidade crítica de figura bem-posta para um drink ao fim do dia. 

Pedro Adão e Silva, transformado em figura controversa com a sua nomeação para comissário executivo das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, dizia, num dos seus habituais espaços de comentário televisivo, na RTP, que a tensão entre o Presidente da República e o primeiro-ministro, sendo «uma encenação», se acentua pelo facto de o discurso político girar à volta destas duas figuras. A Presidência é coisa unipessoal e com Marcelo ainda mais, e o Governo, com Costa e a pandemia, transformou-se na mesma coisa. 

Ultrapassado algum exagero, é difícil identificar neste momento no espaço público outro ministro, para além de Pedro Nuno Santos, e muito confinado ao monotema TAP, com visibilidade e intervenção política digna de nota. 

Há uma outra pista no que disse Pedro Adão e Silva no programa O Outro Lado, da RTP3: «Quer o Presidente, quer o primeiro-ministro falam sozinhos, isto é, o primeiro-ministro está sempre a falar e sempre a pronunciar-se porque mais ninguém fala no Governo, é o Governo de um homem. Apesar de tudo, o Governo anterior tinha Mário Centeno, Vieira da Silva e Augusto Santos Silva». 

Costa quer Temido 

Esta opinião de Adão e Silva foi o ponto de partida para uma conversa com Carlos César, ou seja, a excessiva e expositiva presença do primeiro-ministro e a ausência de um número dois. Não estando nem Santos Silva, nem Siza Vieira a dar conta do recado, e Vieira da Silva, Mariana, a fazer o que pode, fazem falta Mário Centeno e Vieira da Silva, José António. Mais adiante ainda vamos falar do atual ministro de Estado e das Finanças, João Leão, que, ao que parece por vontade própria, de tão discreto é quase inexistente. 

Carlos César não vê qualquer problema em tudo isto, temos uma pandemia e «temos um Governo com uma liderança sólida». O presidente do PS admite que o primeiro-ministro poderá ter um excesso de protagonismo, «para o bem e para o mal», e quanto à sentida ausência de Mário Centeno ou Vieira da Silva só confirma que foram dois excelentes ministros. Sublinhando, o que faz por diversas vezes, que este tipo de liderança é mais fruto do contexto, da crise pandémica e económica e social em que vivemos, do que da natureza do líder do PS.

«Vivemos tempos excecionais e a tipologia da intervenção política é outra, e não é só em Portugal, acontece com diversos líderes em outros países», disse-nos Carlos César. Há divergências? Há, sim, e é bom que haja, mas nada que leve a fraturas e tudo se resolve internamente, com brandura e disciplina. Isto quando falamos do partido, mas e quanto ao Governo? César admite que há uns ministros que podem estar mais cansados do que outros, não avança nomes, mas não lhe parece que um desses casos seja o da ministra da Saúde, Marta Temido, que «tem tido um bom desempenho».

O Nascer do SOL apurou, entretanto, que António Costa conta com Marta Temido e tentará demover a própria de tomar a iniciativa de entregar a pasta da Saúde.

Orgânica para a presidência 

Carlos César, que já foi uma espécie de «ministro de todas as coisas», fez-nos notar que o atual Governo, empossado em outubro de 2019, tem uma orgânica pensada para a presidência portuguesa do Conselho Europeu que termina a 30 de Junho, isto é, na próxima semana: a partir daí abre-se espaço para uma necessária avaliação e eventual remodelação. Antes ou depois das autárquicas? Não sabemos. César tem uma opinião sobre o momento mais acertado, mas não a partilhou com o Nascer do SOL, deixando, no entanto, mais ou menos evidente que o assunto é tema das conversas que tem mantido com António Costa em horários informais. 

Entre vantagens e desvantagens, há outras evidências: no Governo há ministros que dão que falar e há ministros que não falam, e talvez seja mais avisado procurar os remodeláveis entre os ministros que não falam. 

Há ministros neste Governo que foram incapazes de se afirmar e há ministros que não se distinguem na função de um qualquer diretor-geral no que é um elogio aos segundos e nem tanto para os primeiros. E esses ministros são, de acordo com outra fonte ouvida pelo Nascer do SOL, os ministros da Educação e do Ensino Superior ou do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, a ministra da Coesão Territorial, a ministra da Agricultura ou o ministro do Mar. Enfim, metade do Governo é remodelável. 

E depois há ainda o ministro duplamente problema, Pedro Nuno Santos, em rotas de colisão quase permanentes com o primeiro-ministro e que tem nas mãos o dificílimo dossiê da TAP. Entre eliminar o ministro ou deixá-lo cozer em lume brando... Costa deve hesitar, pensando que basta um beijo para o sapo virar príncipe e Santos tem sido um ministro com sorte, à maneira dos generais napoleónicos: na dúvida, quem perdeu a guerra foi o imperador, não os seus generais, esses sacrificaram-se. 

Analogias à parte, ainda nos foi dito pelas mesmas fontes da área socialista que o problema do primeiro-ministro não é tanto quem remodelar, é mais como, no sentido de com quem, porque, e depois do mais recente exemplo de Adão e Silva, e mesmo que a indicação tenha vindo de Belém, vivemos tempos em que ao acentuado escrutínio público nem um seminarista escapa, o que pode dissuadir muito boa gente a ir para o Governo, mesmo que com 16,6 mil milhões de euros nos próximos anos de fundos europeus e com 13,9 mil milhões a fundo perdido. 

O que fará com isto o Governo, vamos sabendo, por António Costa, que tem falado do assunto todos os dias. O ministro João Leão também deve ter uma ideia, que, entre a altivez e a timidez, teima em não nos dizer qual é. 
Para remodelar antes das autárquicas, António Costa teria de o fazer nas próximas duas a três semanas, mas é pouco provável. A 21 de julho tem o discurso do Estado da Nação, depois entra agosto e a variante delta do novo coronavírus a alastrar, e sabe-se lá o que aí vem, porque turistas nem por isso. Mas, se for depois das autárquicas, há a questão do OE e impacto de uma renovação governamental diluído na leitura nacional dos resultados das autárquicas. 

Seja quando e como for, teremos sempre António Costa.