Entrevista

"O problema é que se fazem restrições sem ter em conta os impactos que podem ter"

Vítor Costa, diretor-geral da Associação de Turismo de Lisboa  lamenta a comunicação que tem sido feita em torno da região de Lisboa e acredita que o turismo só deverá recuperar a partir de 2024. O responsável garante que não é ‘apologista de salvar o verão nem de estarmos dependentes do que é que o Boris Johnson decide’.


Alguma vez imaginou ver o turismo assim? Muitos criticavam o excesso de turistas no país. Esta quebra veio mostrar a importância do setor para Portugal?

Já vamos com 18 meses sem turismo, nunca pensei que fosse possível, mas também nunca pensámos que ia haver uma pandemia. A última com esta dimensão foi há cem anos. Mas nunca ouvi ninguém dizer que o turismo não era importante, mesmo aqueles que achavam que havia excesso de turismo ou que devia ser diminuído, sempre reconheceram que o turismo era importante pela relevância económica e social significativa. Agora penso, muitas vezes, que o debate sobre turistificação está quinado, sem ter um espírito construtivo. Há muitas motivações à volta dessas posições. Não estou a dizer que não há problemas. Como é evidente, qualquer atividade humana gera impactos, mas muitas dessas posições são motivadas por posturas elitistas, que fazem turismo, mas queriam só para eles e para os amigos. Mas nas últimas décadas houve uma evolução muito grande do acesso das pessoas ao lazer e ao turismo. E esse acesso não foi só em Portugal, foi no geral. Portanto é natural que cada vez mais pessoas queiram ver e usufruir daquilo que são os atrativos turísticos. E isso gera movimentos. Noutros casos são fenómenos pouco sustentados, em que as pessoas emitem opiniões sem serem sustentadas. Por exemplo, comparar Lisboa a Veneza não é honesto. Lisboa tem 10 vezes mais habitantes do que Veneza e 20 vezes menos turistas. São fenómenos de moda. Pensam que se Veneza, Barcelona ou Berlim têm problemas então acham que também vamos ter. São opiniões que não são sustentadas, o que não significa que não tenha de haver estratégias para que haja uma melhor utilização do território. 

E quais são essas estratégias?

Quando falamos, por exemplo, do destino turístico Lisboa, no nosso último plano estratégico já incluímos a Área Metropolitana de Lisboa. Ou seja, a Costa da Caparica ou Sesimbra ou Montijo ou Mafra que fazem parte do destino Lisboa, independentemente de algumas terem as suas marcas e de serem polos muito importantes. Se olharmos para esta escala falamos de uma região com três milhões de habitantes para uma média de 50 mil turistas por dia, que era o valor que tínhamos antes da pandemia. Infelizmente agora são muito menos. Podemos dizer é: se estiverem todos ao mesmo tempo na Torre de Belém fazem fila, mas é uma questão de gestão e de estratégia para que seja sustentável.

Esse plano estratégico chegou a ser aplicado?

Entrou em vigor no dia 1 de janeiro de 2020, dois meses e meio antes da pandemia. Quando se iniciou a pandemia decidimos suspender o plano por dois anos para depois voltarmos a reavaliar, para vermos o que tínhamos de alterar e de adaptar quando a pandemia estivesse na sua fase terminal. Só aí é que o plano pode ser retomado e para pôr os objetivos mais para a frente. Não é possível atingir os objetivos quantitativos, como o número de dormidas, valores e o retorno financeiro do turismo que tínhamos previstos para 2024. Provavelmente esses objetivos só serão atingidos em 2025 ou 2026. 

2020 foi um ano perdido e 2021 para lá caminha...

São dois anos perdidos. Não acredito e acho que já ninguém acredita que 2021 seja um ano de recuperação. É um ano em que existem alguns passos positivos, mas estamos muito longe dos níveis globais de 2019. 

Conhece muito bem Lisboa. Como vê a cidade quase sem turistas?

São imagens que nunca mais nos esqueceremos. Tenho trabalhado sempre na Baixa, antes de estar aqui trabalhei na câmara e antes disso, o meu primeiro escritório de advogados foi aberto na Rua do Carmo em 1979. Conheço bem o que é a Baixa, a Rua do Carmo antes do incêndio do Chiado, depois do incêndio, a degradação que a Baixa tinha antes do turístico ter contribuído para a sua reabilitação, o que foi essa transformação com o turismo e agora como está. Mas há experiências que são inesquecíveis. Lembro-me no primeiro confinamento, vinha ao escritório muitas vezes, e houve um dia em que estive na hora de almoço no Cais das Colunas e olhava para a Rua Augusta e não via ninguém, no Terreiro do Paço também não. Olhava para a esquerda e para a direita e não via ninguém. Foi uma experiência que nunca pensei que viesse a acontecer e que não se esquece. O centro da cidade esteve numa situação muito degradada, muito decadente e ganhou vida. Mesmo hoje está muito melhor do que estava há 20 anos, nem se compara, mesmo tendo menos turistas. Claro que estas transformações são sempre difíceis e quando temos uma determinada representação e depois desaparece ou muda-se se o tipo de comércio ou desaparecem determinado tipo de lojas são coisas marcantes e deixam-nos alguma nostalgia. A cidade é um organismo vivo, vai evoluindo. Houve uma transformação nos anos 60 quando a baixa de Lisboa se transformou num centro financeiro. Depois os bancos foram-se embora, antes disso tinham havido muitas intervenções na arquitetura pombalina por comerciantes que fizeram montras de arte nova, coisas que ofendiam a arquitetura original. Depois isso acabou por ser incorporado e quando algumas delas desapareceram ficamos com essa nostalgia. Penso que, apesar desta pandemia ter sido muito dura e de ter afetado o turismo estamos agora muito melhor. 

Ninguém queria vir para esta zona há 10 anos...

A partir das 19h fechava a Baixa e deixava de ser segura. Tínhamos um grande movimento ao final da tarde porque as pessoas que viviam na outra margem iam apanhar barco e, a partir daí, morria. O que não se pode negar é a grande reabilitação do edificado, em que o turismo deu um grande contributo. Mas não foi só. É evidente que foi o grande motor, mas também passamos a ser atrativos para as pessoas quererem morar cá, nomeadamente estrangeiros. Além dos hotéis que apareceram, etc.

E gerações que quiseram voltar...

Também. Mas é preciso ver que o nosso centro histórico não é uniforme. Uma coisa é a realidade da Baixa, outra coisa é a de Alfama ou do Bairro Alto. Cada uma tem a sua realidade e história. No caso da Baixa, não havia cá ninguém. Quando houve o incêndio do Chiado julgo que ficaram desalojadas duas famílias. Ninguém morava na Baixa e quando se diz que ‘o turismo veio tirar pessoas’ da Baixa, não é verdade porque não havia ninguém. Praticamente também ninguém morava na Avenida da Liberdade, nem nas laterais. E essas dinâmicas agora existem. Esta interrupção foi muito forte, foi brutal, mas não foi motivada pelo turismo. Às vezes diz-se: ‘somos muito dependentes do turismo’, mas houve poucas outras atividades que se desenvolveram e tiveram o sucesso que o turismo teve. O turismo teve sucesso, outras atividades infelizmente não tiveram, não trabalharam para isso ou não tiveram estratégias corretas. Mas esta crise não foi por causa do excesso de turismo, não foi por causa do peso do turismo ou dos efeitos secundários foi por fatores exógenos. Foi porque o turismo foi proibido por razões de saúde. E as viagens foram proibidas ou limitadas. Os estabelecimentos tiveram de ser encerrados. Os hotéis não foram obrigados a encerrar, mas deixaram de ter clientes. Acredito que o turismo tem condições para voltar a recuperar e o nosso plano já era subordinado à questão da sustentabilidade. Não estamos a dizer ‘agora é tudo turismo’. Não é essa a visão que temos. 

Pode haver atividades complementares...

Não são complementares, há atividades culturais que o turismo ajuda a estimular. 

É o caso do Palácio da Ajuda...

Até se pode dizer: ‘porque é que se gastou dinheiro ali e não se fez outra coisa?’. Mas a verdade é que, além de gerar retorno económico também contribui para a nossa autoestima e para a nossa identidade enquanto povo. Encontrou-se uma solução para aquela dimensão e fica com aquela configuração. Vamos ter orgulho do que ali está e esperar que gere retorno económico. Aliás, o projeto foi pago com as taxas turísticas.

Os dados do INE apontam para uma melhoria em abril com Lisboa a liderar as subidas...

Temos de ter muito cuidado e não sermos demasiado entusiastas em relação à retoma e à questão do ‘vamos salvar o verão’. As coisas são mais complexas, principalmente quando se compara números. Podemos ter subido 20% depois de termos caído 90%, no ano passado. 

Em abril de 2020 estávamos confinados....

Em abril e até dia 18 de maio e, mesmo os estabelecimentos como os hotéis que podiam estar abertos, estavam fechados por falta de clientes. Se compararmos o primeiro trimestre do ano passado estamos muito abaixo, porque no primeiro trimestre até meados de março esteve tudo a funcionar e estava a ser excelente. Sou prudente e acho que devemos ter confiança porque estamos perante uma crise que não é motivada pelo turismo. Poderia acontecer um determinado setor desenvolver-se a um ponto que depois saturava, implodia, já não era sustentável e desaparecia. Mas não foi por isso. Foi por uma questão de saúde pública. O turismo foi o primeiro afetado mas não por fatores próprios. Temos a confiança que desaparecendo a causa da crise – que é a questão da pandemia – o turismo progressivamente retoma com bastantes feridas para lamber, mas vai retomar. As pessoas continuam a querer viajar.

Há até uma grande ansiedade....

As pessoas querem viajar nos vários mercados. Lisboa continua a ser uma marca excelente e as pessoas querem vir para cá. Mas não podemos, ao primeiro sinal, dizer que está tudo ultrapassado. Tivemos agora essa prova. E já tivemos essa prova mais do que uma vez. Já no verão passado pensávamos que em maio começava o desconfinamento e ia ser tudo normal. No ano passado, tivemos essa ilusão, depois veio a segunda vaga, a terceira e agora estávamos novamente convencidos que estávamos a iniciar a retoma em grande. E verificamos que veio uma nova variante, que está a afetar sobretudo Lisboa, em que os números estão a crescer. Há aqui um percurso que é muito duro, longo e embandeirar em arco não acho que seja a melhor maneira de resolver. Temos de continuar a apoiar as empresas, temos de continuar a sustentar o tecido económico até que regressem os clientes. Estão a começar a vir, mas ainda de uma forma tímida porque continuamos a ter muitas limitações. Por exemplo, além da pandemia temos menos ligações aéreas do que tínhamos, a própria TAP está ainda numa indefinição e ainda não recuperou a sua capacidade, temos mercados importantíssimos que ainda estão fechados e vão continuar. Em 2019, o maior número de dormidas foram de brasileiros e não podemos esperar que o mercado brasileiro, num prazo muito curto, recupere. Temos outros mercados potenciais, como a Índia, por exemplo, em que continuam a existir muitas limitações externas. Enquanto a pandemia não estiver totalmente resolvida não podemos ter a esperança que voltamos ter os mesmos níveis anteriores, o que não significa que não se esteja melhor do que se estava há um ano. 

Em Lisboa as restrições voltaram... 

Não é igual, isso é evidente, mas as pessoas também estão habituadas a ter restrições durante este período e também as têm nos seus países. E não estranham isso, o problema é que temos de saber comunicar, umas medidas podem ser erradas e outras não, ou umas podem ser mais exageradas e outras menos porque nem todos pensamos da mesma maneira. O problema é a comunicação que se faz dessas restrições sem ter em conta os impactos que pode ter. Na semana passada voltou a acontecer isso. Por exemplo, na sequência da decisão do Governo relativamente à Área Metropolitana de Lisboa, em que o Governo justificou ‘fiquem lá vocês com a pandemia’ mas vamos impedir que isso passe para o resto do país. Não estou a dizer se esta ideia é pouco solidária para Lisboa ou não, o que aconteceu é que em jornais americanos, alemães, etc: surgiu a notícia que Lisboa estava outra vez em lockdown. Não está, pode-se vir a Lisboa em determinadas circunstâncias, pode-se ir para os hotéis, restaurantes com regras. O mais grave é que ao tentar dar-se uma comunicação para efeitos internos foi dizer ‘resolvam lá o vosso problema, mas não passem para os outros’. E depois olhamos para os números da vacinação e, nesta quarta vaga, as primeiras medidas que foram anunciadas era para reforçar a vacinação na AML. Ouvimos logo o presidente da câmara do Porto, numa atitude mesquinha, dizer que não podia ser e quando olhamos para os números vimos que no Porto há muito mais vacinados do que em Lisboa. E ainda bem que estão vacinados. Defendi, por exemplo, em conversas individuais que o Algarve –chegou a aparecer uma proposta da AHP – que toda a população algarvia fosse vacinada e até achei bem porque era uma questão de reputação para o turismo em geral. Se o Algarve é uma das regiões, onde o turismo tem mais importância, se todos estivessem vacinados – e estamos a falar de poucas pessoas em relação ao resto do país – seria positivo do ponto de vista reputacional e não tinha nada contra. Devemos ter uma visão mais global das coisas da pandemia e, aí, organizações internacionais têm chamado a atenção para isso, mas ainda com pouca eficácia. Quando olhamos a nível mundial só 6% está vacinado, podemos fazer uma fortaleza na Europa e nos EUA quando estiverem todos vacinados, mas depois o problema é que os outros não estão. Os países da América Latina e da Ásia também têm que estar. Este é um problema que só se resolve quando a pandemia tiver desaparecido em todo o lado.

Daí apontar para a recuperação plena só em 2023...

Não sou tão taxativo mas quando fiz esta afirmação foi antes desta vaga. Há várias organizações e peritos, nomeadamente internacionais, que são unânimes a dizer que a recuperação só se dará em 2023 ou em 2024. Perante esta última situação provavelmente chegamos a valores de 2019 só a partir de 2024. Ainda por cima, temos ainda outra componente, porque além da dependência do transporte aéreo – e isso é uma coisa que não podemos mudar que é a localização geográfica – temos uma estrutura de produtos que não é igual a outras regiões. Por exemplo: temos produtos turísticos muito urbanos mas também temos o turismo de congressos e de eventos. E este segmento exige coisas que são difíceis de garantir numa situação destas que é a planificar com uma certa antecedência. Não posso decidir fazer um congresso com uma semana de antecedência, enquanto posso decidir viajar um ou três dias antes. O mercado de eventos precisa de antecipação e como a situação está sempre a mudar nunca se sabe como é que daqui a três meses ou seis meses vamos estar. 

Foi o que aconteceu com a Web Summit...

No ano passado foi feita digitalmente. Este ano está previsto realizar-se em novembro e de forma presencial. Não acredito. Como é que é possível fazer um evento para 70 mil pessoas no dia 1 de novembro? Quando estamos quase em julho na situação em que estamos. É evidente que os eventos obrigam a juntar pessoas e como é que é possível na Web Summit andar toda a gente a ver stands e a manter regras de segurança, num espaço fechado com 70 mil pessoas? Lisboa sofre mais com isso do que outros destinos que sejam mais de férias. 

Tem ideia de quantos eventos foram cancelados?

Os eventos que se iam realizar em 2020 foram reagendados para 2021 porque se pensava que já não ia existir pandemia. Agora em 2021 à medida que se aproximam têm sido novamente cancelados ou adiados. Alguns ainda se poderão realizar.

Mais pequenos?

Sim, mas o grosso está parado à espera. Mas há muita procura para os anos seguintes: 2022, 2023, 2024 e 2025. E voltaremos de certeza a ter esse produto. Mas o que digo é que um congresso não se pode organizar em oito dias, precisa de meses e, às vezes, de anos de preparação. E depois é preciso saber se, naquela altura, as regras permitem que se possa fazer. 

E até lá o que Lisboa pode fazer? Por exemplo, investir no mercado interno?

Não desvalorizo o mercado interno, mas há um raciocínio que é simples: temos 10 milhões de pessoas e tivemos 17 ou 18 milhões de turistas estrangeiros. Portanto, a população portuguesa não é capaz de compensar na totalidade. Não faz sentido morar em Lisboa e passar férias no hotel ao lado da minha rua. Temos que descontar possíveis clientes portugueses porque um terço porque são locais. O mercado interno é mais importante para aqueles destinos do interior ou de férias, etc. Aí o mercado interno foi importante no ano passado e certamente este ano também o será. Um destino internacional, como é o caso de Lisboa vive dos clientes internacionais. 

E quantos espaços fecharam durante este período?

Ainda não conseguimos fazer esse balanço porque ainda não terminou a pandemia. A questão é quando chegarmos ao fim saber quem é que se aguentou até lá. Vai haver situações em que vamos perder projetos porque ou estavam no princípio ou porque estavam alavancados com créditos ou porque não tinha conseguido recuperar da última crise financeira. Felizmente, graças aos apoios públicos que existiram quer do Governo, quer da Câmara de Lisboa ou de outras câmaras foram-se aguentando. A nossa preocupação é mais global porque o turismo pressupõe a existência de múltiplas empresas, não só que prestam serviços essenciais, mas de boa qualidade porque isso também é importante para a experiência do turista. Se o turista vier para cá e não houver diferenciação também não acha piada. No caso dos congressos, precisamos de ter serviços de qualidade. No caso de Lisboa nunca tivemos um congresso ou um evento que tenha corrido mal, mesmo os grandes. E houve uma evolução. No princípio não tínhamos audiovisuais, serviços, etc., agora temos tudo. E tudo com qualidade e isso é reconhecido. Se essas empresas desaparecerem ou se forem significativamente afetadas teremos de começar do zero. E isso já se iria refletir na capacidade de resposta, na qualidade e na diferenciação. Este ecossistema tem de se manter. Se voltarmos à estaca zero aí é que perdemos. Querer começar um destino turístico do zero há muitos no mundo, o que é preciso é ter condições e uma delas é ter serviços de qualidade, em que as pessoas possam confiar e terem uma boa experiência no destino.

Os apoios têm sido suficientes?

O que tenho ouvido no geral é que, até ao momento, as respostas por vezes vêm um pouco mais tarde do que deviam, mas há uma apreciação positiva da resposta que tem sido dada, embora com estas críticas. Mas não são questões de ‘isto está mal’. Por exemplo, este plano do turismo é bastante positivo, mas a grande expectativa é como é aquele PowerPoint se torna realidade. E há aqui outra questão. Todo este plano tinha sido previsto porque supostamente iria começar agora a retoma. Com esta nova vaga estamos mais longe da retoma. É preciso rever questões como as moratórias, o layoff, programas que foram prolongados, mas que supostamente iriam acabar. Como demos agora um passo atrás é preciso garantir novamente que as empresas se aguentem.

As moratórias seriam para acabar em setembro...

Se não for com esse sistema tem de haver outro programa para o substituir. Há o Banco de Fomento, há o PRR, etc. Tem é de haver uma resposta porque não é possível pensar que tivemos um ano e meio a empurrar com a barriga e certas responsabilidades das empresas foram passadas para um momento em que se previa que começassem a chegar os clientes. Chegámos ao momento em que afinal não há clientes e não haver apoios seria a derrocada. O Governo e os responsáveis políticos sabem que não é assim e, por isso, têm de encontrar outras respostas. O plano de retoma do turismo tem várias hipóteses configuradas, nomeadamente do Banco de Fomento. Tem é que ser posto em prática. No fundo é: ou as empresas conseguem aguentar ou então há desemprego, custos sociais para o Estado, a economia não recupera e o turismo começa do zero. Isso seria desastroso para todos. O grande desafio é saber como é que este plano vai ser posto em prática e tem uma dificuldade adicional porque tem várias quintas. É a quinta das CCDR, do Turismo de Portugal, do PRR, do Banco de Fomento... Como é que estas quintas todas vão conseguir, como é que isto vai funcionar. Mas tenho esperança porque esse plano também criou algumas instâncias que facilitam ou que podem facilitar esta conjugação de esforços. É um plano de resgate de turismo que depois é completado com outras medidas locais. Por exemplo, em Lisboa, a Câmara já aprovou uma candidatura para a dinamização da procura a quatro anos para, assim que a pandemia o permitir, se possa intervir nos mercados internacionais para captar clientes. São 16 milhões de euros que vão ser aplicados para ajudar a trazer clientes, em complemento dos outros programas que já existem. Mas isso agora não é a atualidade porque a atualidade são os testes, as vacinas e acabar com a covid.

Com este ritmo de vacinação, o verão poderá ser melhor do que o de 2020?

Não sou apologista dessas ideias de salvar o verão, o Carnaval ou a Páscoa porque são perspetivas muito conjunturais e que podem levar a entusiasmos para alguns casos e desilusões para outros.

Foi o que aconteceu com o Natal?

Foi o Natal, já houve duas Páscoas para salvar, já houve dois Carnavais, dois verões... E o turismo não é o verão só. O nosso destino turístico não tem essa sazonalidade. Noutros casos posso compreender. No Algarve, por exemplo, penso que se pode dizer ‘salvámos o verão’. Aqui é diferente, temos uma continuidade. Os nossos meses de setembro, outubro, novembro são normalmente bons. Só janeiro e fevereiro é que são piores mas, mesmo assim, sem essas diferenças grandes, por causa da nossa estrutura de produtos turísticos, que são diferentes. Os congressos podem-se fazer a qualquer altura do ano. Pode ir visitar uma cidade durante dois ou três dias. É isso que fazem os europeus e a maioria dos outros clientes. Portanto, não sou apologista de salvar o verão nem de estarmos dependentes do que é que o Boris Johnson [primeiro-ministro britânico] decide hoje ou decide amanhã. Quem teve a ilusão de que o Governo inglês decidiu pôr-nos na lista verde e aos outros todos na lista vermelha e que íamos ganhar o verão ou o ano por causa disso está desiludido. Duas semanas depois decidiu o contrário. E já tinha acontecido antes. Não podemos ter essas ilusões. Temos que fazer um trabalho consistente e continuado. E se a nossa solução é só aguentarmos por causa de um mês, mais vale fechar já. É como uma empresa: se fizer um grande esforço aguento-me mais um mês. E isso adianta o quê? O melhor é fechar já. 

Houve alguma euforia com a final da Champions que trouxe muitos turistas...

Para o consumo na cidade do Porto, a chatice foi boa. As pessoas consumiram, trouxeram algumas receitas para os restaurantes, hotéis e isso foi bom. E, pelos vistos, até nem sequer deve ter tido grande impacto na pandemia porque não é no Porto que a situação está mais grave, é em Lisboa. Tivemos cá a final da Champions, no ano passado, e não tivemos problemas. E depois, um evento desse género tem uma outra vantagem para o destino – neste caso o Porto, que se tem afirmado e tem muito potencial para se poder desenvolver ainda mais. Um evento como esse dá uma enorme exposição mediática, mesmo que as pessoas não estejam no destino ficaram a conhecer ou ficaram com vontade de ir ao Porto e poderão ir noutra altura. A comunicação é que não correu bem: disseram que vinham todos numa bolha e depois não vieram. 

Mais uma vez o problema da comunicação...

No verão passado não aconteceu o mesmo? Dizia-se que íamos ter um verão como nos outros anos, menos para Lisboa. Em Lisboa e havia uma outra freguesia de Lisboa e Vale do Tejo que nem sequer eram freguesias turísticas tinham mais casos. Na altura, com a ânsia de salvar o verão noutros destinos houve comunicações do Governo a dizer que o problema era só em Lisboa e que as pessoas podiam ir para o resto do país. Isso aconteceu. Acho que isso não adiantou nada e agora faço a mesma crítica, embora não seja exatamente a mesma situação. Quando, na semana passada, se dá ideia para efeitos de opinião pública nacional que é em Lisboa que há o problema então vamos impedir que saiam de lá ou que vão para lá para não se contaminarem e salvarmos o resto. 

E quem estava a pensar em passar cá uns dias pode ter desistido...

Tive imediatamente telefonemas. Fizemos um comunicado nos mercados – em alguns deles temos agências de comunicação locais – a dizer que não havia nenhum lockdown, mas que havia situações que tinham de ser respeitadas, nomeadamente o distanciamento ou horários de funcionamento. Esta comunicação tem de ser cuidadosa, pois vai ser interpretada por outros. E não vale a pena pormos mais problemas em cima dos que já temos. Na sexta-feira a seguir a essa comunicação, vários hoteleiros disseram-me que tiveram vários cancelamentos. Ainda não sei qual foi o efeito que a nossa comunicação teve. 

Pelo menos para tentar atenuar...

Exato. Se andar na Baixa, vê mais portugueses a usarem máscara do que os estrangeiros. Estamos, neste momento, a fazer uma ação em conjunto com a Polícia Municipal para abordar todos estrangeiros que chegam ao aeroporto de Lisboa – já tínhamos feito há umas semanas – de uma forma pedagógica. Entregamos um folheto a explicar as regras e oferecemos duas máscaras para sensibilizar o seu uso. 

Essa ‘má’ comunicação do Governo é propositada?

Não acredito que seja propositado. Ouvi um especialista na televisão a explicar que, por acaso, apareceu em Lisboa, mas esta última vaga, a Delta, vai-se espalhar por todo o lado. É inevitável. Em Lisboa temos 60% dessa variante e no Porto se calhar são 15%. Depois pode ser ao contrário. Já ouvi pessoas do Algarve – não o presidente da região mas outras pessoas – a dizer que se o problema é Lisboa porque é que sofremos nós. Não diria que é propositado mas há muitas estratégias que podem ser seguidas para equilibrar e diminuir as diferenças regionais mas isso não é fazer com que os que estão mais atrasados cresçam mais. Acho que isso é uma estratégia Robin Hood que é tirar de uns para pôr nos outros. Não funciona. Na nossa região temos tido uma estratégia de puxar por aqueles que estão mais atrasados mas a ideia é pôr todos a crescer.

A ideia é diversificar?

Os turistas não são estúpidos e não é dizer ‘Para Lisboa não, vá antes para Freixo de Espada à Cinta ou para outro sítio qualquer’, que as coisas mudam. Não funciona assim mas essa estratégia de descentralização foi interpretada muitas vezes como desviar. ‘Quer ir para Lisboa? Não. Vá antes para não sei onde que damos mais coisas’. O Estado não deve fazer isso. Aqui também temos muitas bocas para alimentar. O que o Estado pode fazer é investir mais mas não é tirando de uns para pôr noutros. 

E depois é uma imagem que custa voltar a recuperar...

Sim, mas felizmente competimos com Barcelona, Amesterdão, Berlim... são os nossos principais concorrentes. Internamente, o Porto, mesmo com o desenvolvimento que tem tido – ainda bem – como destino urbano não concorre com Lisboa. Em termos nacionais isso não faz sentido e muito menos concorrermos com destinos de natureza diferente. Não faz sentido um destino urbano concorrer com um destino de praia ou de interior.

Com a pandemia, o novo aeroporto pode ficar para segundo plano? A prioridade agora não é tão grande…

A solução já foi adiada. Se tivesse sido resolvido com a opção que tinha sido tomada já estava a acabar de ser construído ou já tinha sido construído. Infelizmente isso não aconteceu . Não vamos ter nenhum aeroporto novo em 2023 ou 2024. Mesmo que a opção venha a ser o Montijo já será para mais tarde e se a opção for outra ainda será mais demorado em termos de concretização. Vamos ter que viver, nos próximos anos, com esta realidade.

Mas com a retoma em pleno do turismo regressam os problemas de constrangimento da Portela...

Sim, mas não vale a pena estar a dizer hoje, em junho de 2021, que queremos ter um aeroporto complementar ou novo em 2023. Não vai acontecer porque o tempo já se esgotou. Agora, quanto mais tarde se decidir, se iniciar, vai ser pior para as próximas gerações. É um problema que se adia e que nunca se resolve. A nossa ambição tem que estar limitada à infraestrutura aeroportuária, pelos condicionalismos que são cada vez maiores e que têm de ser respeitados. O crescimento e a recuperação não vão poder contar com esse elemento.

Na última entrevista disse que discutir os aeroportos é quase como um desporto nacional.

Sim, é um desporto nacional... agora também entra a Seleção Nacional e a pandemia. Agora temos vários especialistas em pandemia, os políticos, apresentam gráficos: Paulo Portas, Marques Mendes e todos os outros. Toda a gente é especialista em pandemia. Isto é uma caricatura mas é lamentável que uma questão estruturante como a do aeroporto seja permitido este adiamento. E aqui há culpas repartidas. O PSD quando se foi embora tinha a opção do Montijo decidida. Depois veio o Partido Socialista, demorou mais tempo, mas fez o que tinha que ser feito porque a decisão anterior não estava totalmente solidificada. Demoraram mais tempo e a solução era a mesma e depois o PSD inviabilizou a solução. E a decisão foi fazer um estudo estratégico que leva mais o seu tempo e vai outra vez pôr tudo em cima da mesa. Imaginemos a opção como ainda há uns dias o PCP avançou que é fazer em Alcochete. Se essa solução for posta em cima da mesa, os problemas vão aparecer na mesma porque deitar abaixo 2000 sobreiros, afetar o maior aquífero da península são questões que a construção do aeroporto vai trazer de novo. Vamos ter mais uma discussão infindável sobre os impactos que uma estrutura dessas sempre vai ter. Aqui foi uma questão de oportunidade histórica. E também não vejo vontade. O ministro Pedro Nuno Santos já disse que não é uma prioridade e a coisa vai andando.

E como vê a situação da TAP? 

Isto cruza-se um pouco com o tema anterior. O aeroporto da Portela só é insuficiente se quisermos manter o hub da TAP que é decisivo para a empresa. Significa que, pelo aeroporto de Lisboa, passam uns milhões de pessoas que só ficam uma hora. Essas pessoas, a maior parte, ficam só uma hora em Lisboa e a única coisa que deixam cá é a taxa aeroportuária. Agora há um desígnio nacional e não tenho dúvidas que a maioria das pessoas acham que se desaparecer a TAP desaparece o nosso país.

Falámos várias vezes que o turismo era usado como bode expiatório para o elevado preço das casas. Com esta quebra do turismo, os preços não baixaram... 

Provou que são coisas que não estão ligadas. O nosso problema não é o turismo. O turismo dá oportunidades, desenvolvimento, rendimento, emprego às pessoas. O problema são as  políticas de habitação. O que é que temos? Bairros, por exemplo, como Alfama ou Mouraria, as casas tinham áreas mínimas. 50 metros quadrados uma casa ou até menos. Claro que, em gerações anteriores viviam lá pessoas, famílias. Mas hoje essas casas não têm dimensão para uma família. Esses espaços foram adaptados ao alojamento local.