Desporto

França. Quando era uma humilhação Portugal perder com os galos

Uma das seleções mais antigas do mundo (1904), a França demorou mais de trinta anos para começar a ser respeitada internacionalmente. Colecionava goleadas homéricas e, no dia em que veio ganhar a Lisboa, Cândido de Oliveira considerou que tínhamos assistido à maior vergonha de sempre da seleção nacional.


por Afonso de Melo, em Munique

MUNIQUE – Se o caminho-de-ferro fez muito pela evolução da Humanidade, fez bem mais pela propagação do futebol no mundo. Em França, como em muitos outros países, foram os trabalhadores encarregados de montar a linha que ligava Caen-Paris-Laon que trouxeram consigo umas bolas do lado de lá da Mancha e puseram os ‘froggies’, como eles gostam de chamar aos franceses, a correr atrás dela.

O futebol espalhou-se pelo Hexágono como fogo em milho seco numa tarde de Verão. Em Dezembro de 1867, o Le Monde Illustré, considerou digno de uma reportagem o encontro que se disputou em Chatou, na periferia oeste de Paris, um desafio organizado sob o auspícios do Collége International de Londres. O ‘foot-ball’ instalava-se. Até em França, admiravam-se muitos, sabedores do habitual repúdio com que os franceses recebem as novidades vindas da Grã-Bretanha. Na década de 1880, esse repúdio voltou à superfície e abriu uma brecha profunda na classe docente. Enquanto os professores de educação física insistiam para que os seu alunos se dedicassem à ginástica e às provas atléticas como corridas e saltos, os professores de inglês chegavam a oferecer bolas e livros de regras aos seus alunos. Uma espécie de colonização, convenhamos. E que não teria forma de ser detida.

Em 1885 já o futebol era profissional em Inglaterra. E o país da revolução industrial espalhava pelo mundo técnicos de todas as espécies, desde a tal construção do caminho-de-ferro, aos instaladores de redes elétricas e, mais tarde, linhas telefónicas. Foram eles os grandes cabouqueiros da disseminação de um jogo que  já era conhecido por «association» para que não se confundisse com o «rugby».

L’Union des Sociétés Françaises de Sports Athlétiques foi a primeira instituição francesa a querer banir o futebol dos hábitos dos jovens franceses. Curiosamente, nessa sua vertigem de boicotar o futebol, trataram de divulgar o râguebi um pouco por toda a parte, o que explica o motivo porque, ainda hoje, a França é o único país da Europa continental a bater-se de igual para igual com as seleções britânicas ou com as seleções das antigas colónias britânicas. Pelo seu lado, e bem à sua maneira, os ingleses estavam-se nas tintas para essa oposição. De cada vez que um barco britânico acostava num porto francês, a tripulação organizava um jogo de futebol entre eles, desprezando por completo as centenas de «frenchies» que se juntava excitada em redor do campo para seguir ao milímetro tudo o que ia acontecendo naquela rija disputa de onze contra onze. O fascínio pelo futebol introduziu-se lenta e inexoravelmente na sociedade francesa.

 

A nacionalização

Os dirigentes da Union des Sociétés Françaises de Sports Athlétiques (USFSA) podiam ser uns ‘têtus’, algo que faz parte da idiossincrasia desse povo, mas não tinham nada de estúpidos. Rapidamente perceberam que se não deitassem mão à organização do jogo em França, em breve surgiriam uma, ou mais, organizações dispostas a fazê-lo. A promessa tornou-se pública: iriam organizar um campeonato. E, em 1894, a prova estava lançada, embora em forma de taça, fazendo da França uma das mais precoces cultivadores do futebol de competição. Esse primeiro  Championnat de France de football USFSA foi disputado por seis clubes: o Club Français, os ingleses do Standard e do White Rovers, o International ACA 1, o CP Asnières e o CA Neuilly. A final colocou frente a frente, como seria de esperar, as duas equipas inglesas, e o primeiro campeão de França foi, desse modo, o muito britânico Standard. Era um clube de gente abonada. Comprou umas instalações à beira rio, conhecidas por Velodróme de La Seine, e ergueu bancadas para 15 mil espetadores. Entretanto, mais clubes vão surgindo em Paris e nas zonas de Le Havre, Valenciennes, Arras e Bordéus como se fossem cogumelos. Nomes como o FC Levallois, o Paris Star, o United Sport Club (formado por ingleses) ou o Stade Bordelais passam a ser conhecidos do grande  público e tratam de exigir a sua presença no campeonato, o que obrigou a um alargamento.

No dia 11 de Abril de 1895, perante uma euforia generalizada, é escolhida uma seleção dos melhores jogadores parisienses para fazer três jogos em Inglaterra. A seleção parisiense era formada por ingleses e apenas um dos seus jogadores era francês. Com toda a naturalidade, os três encontros terminaram com derrotas volumosas para os franco/britânicos: A primeira, face ao Folkstone, perante 5.000 espetadores, foi de 0-8; seguiram-se um 0-11 contra uma seleção londrina e uma terceira, mais suave, perante o Maidenhead por 0-3.

As viagens entram na moda. Os clubes franceses começam a deslocar-se a países vizinhos para alargarem os seus conhecimentos sobre o jogo. O United Sport vai a Bruxelas defrontar o Racing Club (0-1), e não deixa de ter a sua graça como ambos, franceses e belgas, estão de tal forma dependentes da capacidade dos jogadores britânicos que se fazem representar por clubes como nomes vindos do lado de lá da Mancha.

A influência é de tal forma acentuada que a forma de disputa do campeonato se altera logo em 1896, deixando o sistema de eliminatórias para entrar no sistema de “poule”, isto é, jogando todos contra todos, casa e fora, e estabelecendo uma classificação por pontos. Se pensarmos que em Portugal essa revolução fundamental para a evolução da capacidade competitiva dos clubes só entrou em vigor na época de 1934-35, podemos perceber o terrível atraso a que estivemos sujeitos durante anos a fio.

Nasce  a seleção francesa

A França adotara definitivamente o futebol como desporto nacional, a despeito da grande força popular do râguebi. As competições multiplicaram-se, qualquer particular ou empresa de mãos largas, inventava torneios e taças de forma a que todos os clubes que iam aparecendo entretanto pudessem disputar as suas partidas; a USFSA optou por atribuir ao campeonato três divisões e um sistema de subidas e descidas; outras cidades, como Marselha (Union Sportive Phocéenne) e Toulouse (Stade Olympique des Étudiants de Toulouse e SA Toulousains) veem os seus clubes abandonarem o râguebi como atividade única e passam a fazer parte do universo crescente do futebol francês.

A França não tardou a tornar-se o centro da organização do futebol internacional, sobretudo quando, em Paris, em 1904, surgiu a Fédération Internationale de Football Association (FIFA), exatamente com o objetivo de regular os confrontos entre países. A  Inglaterra e as federações britânicas não reconheceram a associação (recorde-se que os ingleses participaram pela primeira vez num Campeonato do Mundo em 1950) sob o princípio de que cada país só poderia albergar uma federação. A FIFA delegou na USFSA tudo o respeitava à organização do futebol em França. E a USFSA decidiu que, nesse mesmo ano, uma seleção francesa faria um jogos contra a Bélgica. Os galos, que são hoje campeões do mundo, não passavam na altura de pobres pintos sem força nem qualidade: o seu primeiro resultado pode ter sido animador, empate com a Bélgica (3-3), em Bruxelas, mas o pior estaria para vir muito em breve.

A França, adversária de Portugal nesta fase de grupos do Campeonato da Europa, é, portanto, uma das mais antigas seleções nacionais do mundo. Em 1905, Paris está em festa. Pela primeira vez a França joga em casa, recebendo a Suíça no Parque dos Príncipes (ainda faltavam 16 anos para que Portugal formasse uma seleção nacional), e obtendo a primeira vitória da sua história, por 1-0, golo apontado por Gaston Cyprés, um fulano de enorme corpanzil, gordo mesmo, de bigodes que fariam inveja ao kaiser Guilherme, natural da Cornualha Francesa, onde nasceu no dia 18 de Novembro de 1884, e que já fora o autor do terceiro golo no empate inaugural dos franceses face aos belgas.

A vitória primordial abriu fendas no sistema organizativo do futebol francês. Uma outra associação Le Comité François International surgiu na tentativa de pôr um ponto final na guerra aberta entre a USFSA e a FIFA sobre quem tinha a responsabilidade de gerir o calendário da seleção francesa e de selecionar os jogadores por ela representáveis. Em 1919, o CFI transformou-se na Federação Francesa de Futebol e absorveu de vez a Union des Sociétés Françaises de Sports Athlétiques.

Até ao início da I_Grande Guerra, a seleção francesa manteve-se em atividade da forma mais regular possível. Os dois jogos seguintes terminaram com derrotas violentas contra a Bélgica – 0-7 e 0-5. No dia 1 de Novembro de 1906, nova festa no Parque dos Príncipes. Era altura de receber os mestres ingleses, embora a Inglaterra tenha enviado somente um conjunto totalmente amador. Ainda assim os amadores ingleses chegaram e sobraram para humilharem os franceses perante o seu público que acordara pleno de entusiasmo e se deitaria profundamente deprimido: 0-11. Com o objetivo firme de enviar a equipa nacional ao torneio de futebol dos Jogos_Olímpicos de Londres, que nesse tempo correspondiam a uma espécie de Campeonato do Mundo de Futebol, a Federação Francesa insistiu em dar corpo e espírito à equipa do galo. Em 1907, apenas uma partida: vitória brilhante perante a Bélgica por 2-1. O_ano de 1908 foi preenchido como poucos: Suíça (2-1); Inglaterra/amadores (0-12);_Bélgica (1-2) e Holanda (1-4). Finalmente chegara a hora de participar na primeira competição oficial, e a equipa de França seguiu para Londres com as malas carregadas de esperança e espírito positivo. De pouco lhe serviu.

Com a desistência à última hora da Hungria e da Boémia, o torneio ficou reduzido a Grã Bretanha, França, Suécia, Dinamarca e Holanda. E tornou-se numa confusão total. Como não havia número certo para uma disputa igualitária por eliminatórias, estabeleceu-se que a França e a Dinamarca e Grã Bretanha e Suécia fariam uma pré-eliminatória. Cheios de prosápia, os franceses resolveram alinhar com a equipa de reservas e poupar os melhores para as meias-finais. Foram violentamente espancados por 0-9. Os britânicos derreteram os suecos: 12-1. Depois, vá lá perceber-se porquê, para compor as meias-finais, a França foi recuperada, voltando a ter a Dinamarca como adversário. Desta vez, deixaram-se de empáfia. Entrou em campo a melhor equipa que a França podia juntar e o terramoto foi asfixiante: 1-17!!! Era absolutamente demais para os franceses. Humilhados como nunca, atirados para uma vergonha internacional de inevitável exposição mediática, os dirigentes da Federação Francesa tomaram uma medida drástica e mandaram os jogadores e técnicos para casa imediatamente, desistindo de participar no encontro que decidiria a medalha de bronze.

A seleção francesa estava tão pouco preparada para se bater contra as suas homólogas, que as derrotas continuaram a chover em catadupa e a desacreditar por completo o futebol do país: Belgica (2-5);_Inglaterra/amadores (0-11); Bélgica (0-4);_Inglaterra/amadores(1-10); Itália (2-6); Hungria (0-3);_Inglaterra/amadores (0-3);_Itália (2-2);_Suíça_(2-5); Bélgica (1-7) e, finalmente, Luxemburgo (4-1). Demorou muito tempo até que a França entrasse para a lista das equipas europeias minimamente competitivas. De tal forma que, quando veio a Lisboa no dia 16 de Março de 1927, para defrontar Portugal pela primeira vez, não havia nenhum adepto de futebol em Portugal (nem sequer nenhum jornalista, já agora) que pusesse em causa a superioridade e a vitória fácil da_Equipa-de-Todos-Nós. A derrota lusitana por 2-4 foi um choque. Cândido de Oliveira chegou a escrever que tinha sido o resultado mais humilhante da história da seleção nacional e que a França estava para o futebol Europeu como a República de Andorra para a política internacional. Apesar da desforra no ano seguinte (4-0), a França transformar-se-ia num dos nossos mais negros fantasmas, condenando-nos a derrotas atrás de derrotas. De tal ordem que quando ganhámos a final de Paris de 2016, vínhamos de 10 delas consecutivas.