Tautologias

Saber e compreender para ser

O dilema para os chineses é, pois, encontrar um modelo político que permita conciliar o capitalismo de mercado, a continuidade do êxito de desenvolvimento e o progresso social das últimas quatro décadas, portanto, a escolha de governos competentes e isentos com uma representatividade política mais próxima da matriz ocidental.


Nas sociedades prósperas e florescentes, os pátios das escolas estão bem polidos e as escadas dos tribunais cheias de ervas».

 (Provérbio chinês milenar)

 

1. A política foi sempre preocupação central do pensamento chinês antigo. Marcou, por exemplo, o desenvolvimento da historiografia, pioneiro no mundo. «Os primeiros pensadores chineses preocuparam-se essencialmente com duas questões: a harmonia do universo e a harmonia da sociedade» (Simon Leys).

2. Na China, tudo está ligado a tudo. A política é uma extensão da ética, o instrumento da sua realização na sociedade. E o saber não é um saber ‘que se tem’ mas um saber ‘que se é’. Que deve transformar quem o adquire. Portanto, ética, política e educação estão ligadas.

Disto decorre o respeito pelos professores, que impressionou os portugueses que conhecem Macau. E o respeito pelos professores replica o respeito pela família. São duas das forças que, a par da escrita, unem aquele mosaico de povos. Por isso, Mao as tentou pulverizar. Colocou pais contra filhos, alunos contra professores. Quis virar a civilização chinesa do avesso, fazer dela uma página em branco onde inscreveria a brutalidade do comunismo que importou do Ocidente.

3. Durante milénios, só as pessoas de bem, de excelência moral, tinham competência para governar. Era o critério para ser atribuída a autoridade política. É esta a raiz do caráter meritocrático das escolhas na governação na China. Que fez cair imperadores e os impôs. Até à época moderna no Ocidente, escreveu ainda Simon Leys, «foi o sistema de governo mais aberto, justo, flexível e eficaz que a história da humanidade conheceu». Realidade que entusiasmaria os filósofos europeus do século XVIII.

4. A meritocracia voltou a perdurar depois do interregno maoísta, em que o poder estava ‘no cano da espingarda’. Na China não existe uma tradição de sufrágio universal. Tal não é uma reivindicação para 90% dos chineses. Mas é um problema para a afirmação internacional do país. Problema que, desde 1911, intelectuais e líderes políticos vêm a tentar resolver, procurando uma solução que evite as disfunções que se observam no nosso modelo de sufrágio universal. Modelo que, pensam (com razão), dividiria e devastaria o país, impedindo o prosseguimento do ‘milagre’ económico e de desenvolvimento social que realizaram.

É esta a explicação para a relutância chinesa em avançar para o sufrágio universal. Na ‘Primavera de Pequim’ foram ensaiadas liberdades políticas que a intervenção americana em Tiananmen acabaria por suspender. Mas o sufrágio universal existe há milénios nas pequenas circunscrições, continuando hoje a ser testado aí. O que os chineses exigem é um bom governo. «Nos últimos 40 anos a China nunca foi tão bem governada como é hoje» (segundo o liberal Le Point). Compare-se, por exemplo, o currículo de Xi Jinping com os dos nossos primeiros-ministros, independentemente do mérito de cada um.

O que as elites empresariais e a nova classe média exigem é o aprofundamento do estado de direito. Que os sucessivos Governos têm prometido avançar mais rapidamente.

5. O dilema para os chineses é, pois, encontrar um modelo político que permita conciliar o capitalismo de mercado, a continuidade do êxito de desenvolvimento e o progresso social das últimas quatro décadas, portanto, a escolha de governos competentes e isentos com uma representatividade política mais próxima da matriz ocidental.

«As reformas políticas só estarão terminadas quando chegarmos a um modelo político mais democrático do que o do Ocidente», proclamou Deng Xiaoping.