Opiniao

Os calores de verão toldam raciocínios?

Se alguém falar da covid-19 depois de ouvir as declarações reproduzidas de Ferro Rodrigues ou nesse pequeno detalhe da AML estar com um cerco sanitário, no mínimo é antipatriota! 


Estou atónito! Segundo li, Ferro Rodrigues incita à invasão de Sevilha, pelas hostes da bola para apoiar a Seleção! Oh, felicidade! Que mais poderíamos desejar, em particular os jogadores da Seleção, do que ter a segunda figura da nação a apelar à movimentação em massa dos portugueses para invadir a Estremadura espanhola?

Se alguém falar da covid-19 depois de ouvir as declarações reproduzidas de Ferro Rodrigues ou nesse pequeno detalhe da AML estar com um cerco sanitário, no mínimo é antipatriota! Como eu, agora – só porque me lembrei dos festejos do Sporting e da invasão dos ingleses ao Porto para assistir à final da Champions. 

Mas Ferro Rodrigues tem razão: se fomos invadidos por britânicos por causa de um jogo de bola, toca mas é a invadir Espanha por causa de outro jogo! A seguir vingamo-nos e, certamente quando chegarmos à final do Euro em Londres, iremos devolver a visita amável que os ‘bifes’ nos fizeram, isto se Boris Johnson não se antecipar e cortar cerce quaisquer veleidades lusas…

Pergunto: o calor explica esta falta de bom senso?

2. Esta semana, foi confirmado pela CRESAP que Ana Paula Vitorino reunia os quesitos profissionais adequados para o lugar de Presidente da AMT – Autoridade da Mobilidade e dos Transportes, sucedendo a João Carvalho que, durante o seu mandato, foi um excelente exemplo do que deve ser um Regulador.

Como já outro dia referi, Ana Paula Vitorino tem um CV perfeitamente adequável para o lugar. No entanto, dadas as incumbências da AMT e sendo casada com um ministro, para além de amiga pessoal de diversos outros, entre os quais o primeiro-ministro, seria normal ter existido uma opção diferente, sobretudo por questões de governance. Lembrei-me disto por causa de uma recente notícia publicada no Expresso sobre a CRESAP. 

Relembremos que a CRESAP foi criada em 2011 por Passos Coelho com a missão de garantir maior transparência nos concursos para certos cargos na função pública e, como prova disso, até foi nomeado um PS (João Bilhim) para a liderar.

No entanto, algo se alterou a partir de 2015 e atualmente existe a perceção que muitos dos concursos visam apenas ratificar as pessoas que já se encontravam nesses lugares, de alguma forma pervertendo o objetivo da sua criação. 

A corroborar esta impressão generalizada, de acordo com o Expresso, dos 68 procedimentos concursais de 2019, 69,1% dos nomeados já ocupavam o cargo, em regime de substituição, dos quais 83% estiveram mais de um ano. Olha que coincidência! Até parece que em vez de se lançar concurso, se nomeia alguém em regime de substituição, quiçá, quem o PS/Governo deseja nomear. Quando já estiver na função há algum tempo, quem melhor do que ele/a para ficar classificado em 1.º lugar no concurso?

Quando assim é, mesmo com os calores do verão, alguém poderia esperar que a CRESAP pudesse obstaculizar Ana Paula Vitorino?

3. A TAP deu origem a mais um episódio da guerra com a Ryanair, novamente envolvendo Pedro Nuno Santos (PNS). O seu CEO, Michael O’Leary pode ter muitas razões de queixa do ministro PNS, mas desceu ao nível mais ‘rasca’ que me recordo, insultando PNS de «mentiroso», tomando como base certas afirmações, quiçá precipitadas ou menos felizes. 

Ao insultar como insultou, apenas demonstrou grande e desnecessária arrogância, perdendo qualquer razão que pudesse ter e os calores de Verão não são desculpa. Sinceramente, discutir quaisquer assuntos profissionais a partir daqui, não me parece possível nem sequer desejável e espero que PNS o deixe a falar sozinho. Quanto a mim, voar na Ryanair ficou fora de questão. 

4. O jogo com a França no Euro foi mais um turbilhão de emoções, mas Portugal ficou a sorrir com um merecido empate (2/2). Segue-se a Bélgica, uma das favoritas do Europeu, uma ‘máquina’ de jogar futebol e Portugal terá de ser muito mais criativo do que nos jogos anteriores, numa Sevilha a escaldar com os calores de Verão. 

Com a Hungria, Fernando Santos começou a fazer substituições apenas quase no final do jogo, quando se tornava por demais evidente que faltava criatividade no meio-campo e o 0-0 permanecia. Para minha estupefação, manteve a equipa com a Alemanha e, se estes não tivessem ‘levantado o pé’ e continuassem no ritmo desenfreado com que atacaram o jogo, estaríamos a carpir mágoas, vergados a uma derrota humilhante.

Mudou com a França e em boa hora o fez, ficando um travo ligeiramente amargo porque ficou a sensação de que se tivéssemos ousado, talvez alcançássemos o 1.º lugar do Grupo. Fica a dúvida: qual Fernando Santos teremos com a Bélgica? Apenas conservador e defensivo, com todas as ‘velinhas’ bem acesas e à espera de mais um milagre de CR7 ou arriscando com jogadores intrépidos e rápidos a ousar ganhar, para defrontar certamente a Itália ‘nos quartos’?

P.S. – A propósito de lideranças, já vimos que, na CML, neste fatídico caso da denúncia de ativistas que ousam manifestar-se, sobejam culpados. Mas, ouvindo Medina, uma única certeza podemos ter: na CML, Medina, é inocente! Pelo contrário, no final do jogo com a Alemanha, Fernando Santos ilibou todos os jogadores e assumiu-se como o único culpado! Serão apenas estilos de liderança?