À Esquerda e à Direita

As defensoras das burcas

Acho execrável os movimentos extremistas que recorrem à violência, mas o direito a pensarmos e a dizermos o que achamos não pode ser determinado pelos novos inquisidores.


Seria normal escrever sobre Berardo e as ligações ‘socratianas’ e como se deu cabo de pelo menos um banco e se ajudou o país a caminhar para a bancarrota; do ministro que só quase três semanas depois de o carro onde se deslocava vitimou um homem que estava a trabalhar na A6; ou de como o Governo instituiu um recolher obrigatório que não é bem, mas até acaba por ser. Isto é, para os mais desfavorecidos, pois quem quiser e tiver argumentos pode enfrentar as polícias que os queiram mandar para casa.

Podia também falar de como as férias de muitos ficaram muito limitadas com recolheres obrigatórios e o encerramento de comércio e diversões – e de como isso vai afetar economicamente a já frágil economia nacional. Mas prefiro falar de dois assuntos que, apesar de caricatos, são bem o espelho do que vivemos e de para onde vamos se não fizermos nada contra estes novos inquisidores.

Começo por um caso relacionado com um músico fundador dos Mumford & Sons, banda de folk-rock britânico, acabou por ter de sair do grupo porque teve a ousadia de elogiar um livro de um jornalista conservador americano. Nazi, foi um dos mimos que recebeu por ter dado os parabéns a Andy Ngo e ao seu livro Unmasked: Inside Antifa’s Radical Plan to Destroy Democracy – até eu no meu inglês macarrónico percebo que o autor se refere a um movimento de extrema-esquerda que ele acha que quer destruir a democracia. Eu que já vi vídeos dessa rapaziada da Antifa em ação não encontro grandes diferenças com os Proud Boys, apesar destes não admitirem mulheres – um ponto seguramente contra eles. Digamos que são farinha do mesmo saco, podendo os de extrema-direita serem considerados ainda mais violentos – o que diz bem desta gente.

Independentemente dos adeptos de uns ou de outros, certo é que Winston Marshall, o tal músico, foi obrigado a retratar-se em público: «Nestes últimos dias compreendi melhor a dor que causei pelo livro que defendi. Não só ofendi pessoas que não conheço, como também os meus companheiros de banda e, por tal, peço imensa desculpa». Vai daí fez uma pausa nas cantorias. E estamos a falar de um homem que ficou sem 13 familiares nos campos de concentração do Holocausto. Depois disso, Marshall acabou mesmo por sair da banda, para ter direito à liberdade de expressão.

Acho execrável os movimentos extremistas que recorrem à violência, mas o direito a pensarmos e a dizermos o que achamos não pode ser determinado pelos novos inquisidores.

A outra história é bem mais divertida, apesar da violência verbal usada por algumas feministas cá do burgo e que odeiam, é esse mesmo o termo, tudo o que não se encaixa na sua visão de vida, seja a beleza a forma ou a atitude de quem está à sua frente. O popular e divertido Fernando Mendes, do Preço Certo, há muito que tem assistentes que o ajudam a animar o programa. Um dia destes, Lenka e outra colega, apareceram de vestido curto e decotado, o que foi o suficiente para escandalizar as mentes mais conservadoras que não conseguiram enxergar o que viam à frente do seu nariz. «É espantoso como a televisão pública continua a usar mulheres como adereços desta forma repugnante. Não há obrigações de cumprir os mínimos em termos de respeito pelos princípios constitucionais e pelos planos para a igualdade?», escrevia a ativista-mor do regime.

Surreal. Agora o dress code das apresentadoras não respeita os princípios constitucionais? Quererão estas inquisidoras obrigar as raparigas a aparecerem de burca? Acreditem, esta tralha dos costumes não vai descansar enquanto não correr com as assistentes de Fernando Mendes, a não ser que as mesmas sejam substituídas por duas amiguinhas. Esta rapaziada já se esqueceu do significado de todos diferentes, todos iguais.

vitor.rainho@sol.pt