Cultura

"Salazar era demasiado bom político para ser fascista"

Não vê Salazar como ‘uma figura autoritária nata’ e elogia-lhe a ‘serenidade interior’ para lidar com o turbilhão de uma Europa em guerra. Numa biografia onde tentou concentrar-se na dimensão pessoal do ditador, Tom Gallagher não receou, como explica, enfrentar vacas ‘sagradas’.


Nascido em Glasgow, Escócia, em 1954, Thomas Gallagher doutorou-se pela Universidade de Manchester em 1978 com uma tese sobre Portugal. O seu primeiro livro foi também uma interpretação do nosso país no século XX. Depois afastou-se. Durante três décadas dedicou-se a outros assuntos, em especial à transição para a democracia na Europa Central e de Leste. Mas continuou a passar temporadas em Monchique. «É um sítio fantástico para trabalhar, descontrair, caminhar, arrumar as ideias», diz-nos.

O historiador britânico acaba agora de publicar Salazar – O ditador que se recusa a morrer (ed. D. Quixote), onde reavalia o papel do estadista e os acontecimentos-chave do período sem ter receio de ser controverso. «Sendo uma pessoa independente, não tenho medo nenhum de atacar lugares-comuns, de esquartejar vacas sagradas a que muita da intelligentsia de hoje ainda presta culto».

Sabia que J.K. Rowling chamou ‘Salazar’ a um dos vilões de Harry Potter?

Slytherin Salazar…

Então já sabia! [risos] Isso é revelador da forma como Salazar é hoje visto no Reino Unido? Como um vilão?

Salazar morreu há 51 anos. Os britânicos que se interessam por política e relações internacionais estão muito voltados para o presente. E no ambiente atual o liberalismo progressista tem uma grande força. Salazar é visto como uma figura muito questionável, alguém que se agarrou ao império em África por demasiado tempo. Penso que o seu papel na II Guerra Mundial é a única faceta em que pode ser apresentado a uma luz favorável. Os britânicos – talvez perversamente – ainda vivem muito obcecados com a II Guerra Mundial, talvez por a verem como um triunfo.

Como um momento de glória…

Aí, julgo que Salazar, através da sua diplomacia, tenacidade e capacidade de negociação, desempenhou um papel decisivo ao impedir que a Península Ibérica fosse engolida pela guerra.

Mas essencialmente é uma figura esquecida?

Muito poucos líderes do século XX, além de De Gaulle, são lembrados pela positiva. Do outro lado, obviamente temos Hitler e Mussolini. Salazar nunca seria visto como uma figura com uma reputação tão perversa. Seria visto mais como uma curiosidade, um enigma. Alguém que claramente era esperto e implacável, mas introspetivo na forma como exerceu o poder.

Há milhares e milhares de páginas, quase me atreveria a dizer milhares de livros ou estudos sobre Salazar e o salazarismo. Como escolheu o que ler e o que deixar de fora? Teve alguém para o aconselhar?

Não, estive sozinho nesta iniciativa. Queria concentrar-me na dimensão pessoal de Salazar. A construção da sua figura, as experiências que o moldaram, o facto de ter vindo de um contexto completamente diferente do da maioria dos homens que tinham exercido o poder em Portugal, como reagia sob pressão... No fundo, queria tentar apresentar as suas qualidades como governante sem esquecer os seus defeitos, as coisas negativas por que foi responsável. Tem razão, o número de livros sobre este período é prodigioso, mas há muito poucos que tenham como tema o caráter do indivíduo. Salazar está tão identificado com os valores daquele período que é difícil para os académicos e outros escritores decifrar o que fez dele o governante que viria a ser.

Falemos então desse caráter. Muitos que o conheceram referiram-se à sua modéstia. Acha que essa modéstia era genuína ou calculada?

Acho que era de facto um homem austero, não tinha qualquer tendência para se glorificar. E auto-suficiente. Este tipo de serenidade interior foi crucial para lidar com a adversidade. Muitos políticos são pessoas muito frágeis e neuróticas, rapidamente sofrem burnout ou mesmo paranoia. É notável que Salazar tenha conseguido manter-se calmo através deste turbilhão. Que sofresse de insónia, em particular durante a II Guerra, não é de modo algum surpreendente face à gigantesca tarefa que tinha em mãos – geria três ministérios [Guerra, Negócios Estrangeiros e Finanças] ao mesmo tempo que era presidente do Conselho. E mesmo mais tarde, quando foi atingido pela doença grave que o derrubou, as pessoas ainda tinham respeito suficiente por ele para, mesmo não lhe restando qualquer poder, não o confrontarem com o facto de ele já não mandar.

Recentemente, Marco Ferrari, que assinou uma biografia de Salazar, descreveu-o como um ‘camponês que governava o maior império colonial do planeta’. Esta imagem parece-lhe corresponder à realidade?

Penso que o facto de ter nascido no Portugal rural profundo obviamente o marcou. Tornou-o muito cioso da propriedade, da terra – levando-o a ver Goa e o império africano como a sua propriedade. Penso que as suas qualidades enquanto negociador vieram daí, da sua educação rural, pois via a sua mãe e o seu pai, que eram pessoas muito diligentes, tentarem melhorar as condições em que viviam. Penso que provavelmente também o seu patriotismo veio desse amor pela terra. Ele tinha um enorme apego à sua aldeia, Vimieiro, e muitos dos seus amigos eram também pessoas com raízes no campo.

Mas Salazar era também um estudioso, alguém que gostava de ler os clássicos. Parece um pouco contraditório estas duas características – o camponês e o académico – juntarem-se no mesmo homem.

Talvez para nós. Quando Salazar nasce, a Europa é eminentemente rural. Não seria invulgar uma pessoa daquele meio ir para Coimbra, embora o fosse para alguém pobre como Salazar. Mas não me parece que o seu ‘período escolástico’ fosse decisivo na sua formação. Foi professor universitário durante um período relativamente curto, uma dúzia de anos. Era uma pessoa vincadamente conservadora e isso vinha das suas origens. Via os pecados do homem como intrínsecos. Podiam ser vigiados por algum mecanismo de controlo, mas nunca erradicados. A sua experiência da República convenceu-o de que era preciso uma estrutura muito rigorosa e especial para garantir a racionalidade das pessoas. E via os portugueses como tendo mais do que a sua dose de irracionalidade.

Será por isso que a palavra ‘paternalismo’ aparece tantas vezes no seu livro? Porque Salazar via os portugueses quase como crianças de que tinha de cuidar?

Sim. Mas os relatórios diplomáticos britânicos também falam da imaturidade dos portugueses. Dizem como eram incapazes de ver o quadro geral, tudo era pessoal e havia constantes rivalidades e atritos. Salazar não estava sozinho quando ocasionalmente dizia que os portugueses agiam como crianças. Acho que inicialmente ele tinha grandes expectativas de que os portugueses desenvolveriam um forte sentido cívico, mas tornou-se claro, logo na segunda metade dos anos 40, com o comunismo a ganhar força entre a classe trabalhadora, que tinha abandonado quaisquer ilusões de que Portugal poderia ter um sistema de governo mais representativo.

Acha que foi aí que ele se tornou mais pessimista ou esse já era um traço do seu caráter?

Penso que o rumo dos acontecimentos na Península Ibérica e no resto do mundo era de molde a torná-lo pessimista. Para mim, o que é espantoso é que o seu ânimo e o seu interesse pelo poder se tenham mantido depois do colapso do conservadorismo na Europa e da emergência da América como o grande árbitro das questões internacionais. É bem conhecido o que ele achava dos americanos. E, acima de tudo, havia a Rússia ateísta, uma força preponderante, que conseguiu manter Portugal de fora das Nações Unidas durante a sua primeira década de vida, apesar dos serviços que Portugal tinha prestado à causa aliada.

Como era o país quando Salazar assumiu o poder?

A Primeira República era um regime radical que tinha chegado a um beco sem saída. Vimos vários desses regimes ao longo dos últimos 200 anos, e talvez mesmo hoje, o mesmo tipo de ordem burguesa radical, incompetente e marcada pela intolerância sectária. Poderíamos até dizer que a república parlamentar era idêntica à esquerda que hoje está no poder: preocupada com questões culturais de vanguarda, assuntos de nicho, cheia de carreiristas desejosos de usar o Estado em benefício próprio. O país estava de rastos. A missão de Salazar, como muitos hoje lembram, foi endireitar as finanças, e devolver o bom nome ao país, no contexto de uma Europa que estava a tornar-se muito perigosa. Julgo que se esquece com frequência que ele não teve muito tempo para ser um Pombal.

Porque entretanto veio a guerra?

Depois de quatro anos como presidente [do Conselho] teve de se dedicar aos assuntos externos, devido à Guerra Civil espanhola [1936-39] e depois à II Guerra Mundial. E quando finalmente tinha espaço de manobra para olhar para o desenvolvimento económico, já estava demasiado velho.

Não pôde pôr os seus planos em prática?

Digamos que era alguém que estava a nadar contra a corrente nas questões internacionais. Era essencialmente um homem de paz, e embora o seu regime por vezes seja posto no mesmo saco que o fascismo, não tinha a obsessão com a raça, a conquista ou o militarismo que os líderes autoritários mais conhecidos tinham. E quando a política europeia se tornou claramente liberal – tirando na Península Ibérica – ele era de novo um inadaptado...

Uma espécie de anomalia?

Sim. Os relatórios diplomáticos americanos falam de um regime exótico comandado por uma figura oitocentista. Mas ele tinha construído um regime duradouro, tinha recrutado pessoas
talentosas e inteligentes para enfrentar os desafios internos e, claro, não hesitou em criar uma polícia secreta muito dura. Queria que o seu regime durasse, mas era cada vez mais um regime pessoal. Suspeito que se tivesse havido espaço para ele transformar o país de forma mais sistemática teria emergido um sistema mais colegial e teriam surgido outras figuras fortes.

Como Marcello Caetano?

Sim. Ou Theotónio Pereira, ou Duarte Pacheco – se não tivesse morrido tão cedo. Pessoas com quem Salazar pudesse partilhar o poder. Embora tivesse sempre a última palavra, Salazar não estava rodeado de bajuladores – nem o regime teria durado 40 anos se estivesse. Não penso que fosse uma figura autoritária nata. Se assim fosse, uma figura como Caetano, que o contrariava, não teria durado muito. Mas estava basicamente bloqueado por circunstâncias geopolíticas, e achou que devia continuar a ser fiel a si próprio, gradualmente desenvolver o país, mostrar firmeza nas relações internacionais e esperar que as coisas corressem bem.

Referiu que o regime não tinha algumas características do fascismo [italiano] mas em Portugal ‘salazarismo’ e ‘fascismo’ são usados indistintamente como sinónimos. Parece-lhe rigoroso ver este período como uma variante do fascismo?

Não, não me parece. E não sou o único. A maioria dos cientistas sociais que escreveram sobre isso evitaram caracterizar o Estado Novo e Salazar como fascistas. Essencialmente era um regime tradicional, um híbrido entre a democracia e um regime 100% autoritário. Salazar tinha uma visão da sociedade demasiado estável… Houve líderes fascistas em Portugal, como Rolão Preto. Salazar tinha convicções sólidas sobre a nação, em torno de princípios cristãos. Era um homem convencional que trabalhava muito mas também tinha amigos e uma vida social. Acho que Salazar era demasiado bom político para ser fascista.

Embora ele dissesse que detestava a política… ou pelo menos a política parlamentar.

Sim. Via o seu regime como um regime eficiente e apolítico. Fascista era a última coisa que era. Um fascista tem de saber sair e agitar a multidão. Salazar nunca fez isso, era um péssimo orador.

Aliás, penso que foi Franco que o rotulou, depreciativamente, como um ‘tímido’.

Franco e Salazar eram muito diferentes. Salazar era demasiado subtil e cuidadoso para revelar alguma antipatia que pudesse ter por Franco. Não me parece que Salazar estivesse muito à vontade com figuras militares e um dos seus maiores erros provavelmente foi a forma como geriu a longo prazo as Forças Armadas. Deu-lhes demasiado poder, o que depois impediu que o regime assumisse uma feição mais civil.

Aristides Sousa Mendes é considerado em Portugal uma espécie de «santo laico». Porém, você prefere chamar-lhe uma «personagem picaresca». Quis tirá-lo do pedestal?

Acho que Sousa Mendes foi um bom homem que fez muito pelos refugiados numa época terrível para a Europa, em 1940. Mas o seu papel tem sido exagerado de forma espantosa.

Não é uma espécie de Schindler português?

Houve outros diplomatas que arriscaram muito mais e que tinham a missão específica de salvar judeus. Estou a pensar em Carlos Sampaio Garrido, embaixador na Hungria, ou Carlos Teixeira Branquinho, encarregado de negócios em Budapeste, que têm sido esquecidos pelos promotores da causa de Sousa Mendes. Acho bem que o exemplo de Sousa Mendes seja recordado, mas o que se escreveu sobre ele a maior parte das vezes foi hagiografia.

Também refere que as pessoas esquecem o que Portugal fez de bom em relação a outros países europeus neutrais. Estava a pensar na Suíça, por exemplo?

Estava a pensar em cada um dos três países neutrais: Irlanda, Suíça e Suécia. Comparado com eles, Portugal fez um grande esforço para aliviar a agonia dos judeus e ajudar as pessoas a atravessar os Pirenéus. Acho que o papel de Theotónio Pereira não pode ser esquecido. Salazar teria podido fazer mais, mas para isso precisava de mais tempo e de estar mais bem informado sobre o destino que Hitler tinha traçado para os judeus da Europa.

Em Portugal, quando se fala sobre este período, fala-se sobretudo da PIDE, a polícia política, da pobreza e fome, do analfabetismo e das injustiças do colonialismo em África. Mas o seu livro parece sobretudo dedicar-se a outros aspetos. Essa escolha deve-se ao facto de achar que já outros escreveram muito sobre os ‘pecados’ do salazarismo?

Eu faço referência aos excessos da PIDE, às pessoas que foram perseguidas e mortas, tento não ignorar ou desculpar o homicídio de Humberto Delgado, e também descrevo as condições terríveis em que viviam os africanos negros. Quanto ao analfabetismo, acho que poderia ter dado ainda mais ênfase no meu livro como ele caiu mais e mais depressa nesta altura do que em qualquer outro período da época moderna. Em finais dos anos 50 havia muito poucas crianças em idade escolar que não soubessem ler ou escrever. E penso que o mesmo se passou em relação à mortalidade infantil – uma queda consistente. As condições de vida de muitos portugueses no final dos anos 20 eram absolutamente deploráveis.

Mas Salazar é muitas vezes acusado de querer manter os portugueses ignorantes.

Se há provas de que o caráter reacionário de Salazar o tornou relutante em educar o povo não as encontrei. Foi acusado, tanto quanto sei, de limitar o ensino obrigatório a um número relativamente curto de anos. O seu argumento era de que os portugueses não tolerariam ter os filhos muito tempo longe dos campos, e ele queria que o melhoramento fosse exequível, não uma coisa apenas teórica. A esquerda em geral preocupa-se bastante com a educação e assuntos culturais, por isso é inevitável que as pessoas associem o Estado Novo a um obscurantismo do ensino, mas não creio que a argumentação seja convincente.

Como disse há pouco, em Portugal falamos sobretudo dos aspetos negativos do salazarismo. Ainda temos alguma dificuldade em ver os aspetos positivos. Olhando a partir de fora, quais lhe parecem ser as principais realizações deste período?

Em primeiro lugar, a capacidade de Salazar para fazer frente a várias potências. Acho que nenhum outro líder de um pequeno país conseguiu fazer isso com sucesso, em momentos tão diferentes, e em nome do interesse nacional. Nem toda a gente, obviamente, gostou disso. Quando ele disse que Portugal não ia abandonar África em 1961, que quase toda a oposição concordou. Delgado, no seu manifesto de 1958, disse ‘as colónias são nossas, não vamos sair’. Em relação ao desenvolvimento socio-económico, o regime apresentou níveis constantes, mas moderados. Também conseguiu engenhosamente evitar tornar-se um foco de irritação ou de ódio generalizado. Mantinha-se discreto, retirado, em segundo plano, não ofereceu exemplos de arrogância que a oposição pudesse facilmente explorar.

Falou em desenvolvimento moderado. Essa foi uma forma de o presidente do Conselho não deixar que as coisas escapassem ao seu controlo? Porque ao mesmo tempo que continuava um país pobre, Portugal tinha os cofres cheios de ouro.

Critico-o no livro por não ter acelerado o desenvolvimento. Isto não serve de desculpa, mas penso que ele estava pessimista, não esperava que à guerra se seguisse um tão longo período de crescimento no Ocidente. Não queria gastar todo esse ouro em iniciativas que em breve poderiam estar obsoletas.

Também era muito desconfiado do mundo moderno. Alguém notou que não tinha telefone na secretária, por exemplo.

É verdade. Também não sentia necessidade de viajar, achava que bastava informar-se com os seus conselheiros. Não ia a eventos internacionais. Acho que considerava essas manifestações de modernidade uma coisa superficial. Mas obviamente havia muitos portugueses furiosos por sentirem que o país estar a perder o comboio. Permitiu que a televisão entrasse, mas nunca quis aparecer. [risos]

É quase unânime que Salazar se manteve no poder por demasiado tempo. Havia algum momento ideal para se retirar?

Essa é uma pergunta surpreendentemente difícil de responder.

Em 1958, por exemplo, quando Marcello Caetano lhe sugeriu que assumisse a Presidência?

Muitos também sugeriram isso no último ano de Carmona [1951]. Talvez fosse essa a altura certa, porque o regime ainda era sólido, o mito de Salazar permanecia vivo, o regime provavelmente teria evoluído de forma diferente. Em que sentido, não lhe sei dizer.

Um dos aspetos decisivos, e até traumáticos, do final do salazarismo – e do regime – é a guerra do Ultramar. Havia alguma saída possível?

Quão destrutiva foi a Guerra Colonial para Portugal? Quantos militares foram mortos? Na Ucrânia, desde a invasão de Putin, foram mortos pelo menos 15 mil soldados ucranianos. Em África morreram menos de dez mil portugueses. E muitos deles foi em acidentes. Inversamente, esses foram anos de um crescimento muito rápido da economia. Sou um pouco céptico em relação a isto. Acho que se Caetano fosse outro tipo de líder, se tivesse alguma da autoconfiança de Salazar, talvez as coisas acabassem melhor. Portugal teria retirado de África talvez sem deixar esse legado cruel.

O seu livro não retrata o 25 de Abril como um momento libertador e heroico, mas como o início de um período tumultuoso. Queria desmistificar a revolução?

Nem por isso. O 25 de Abril foi o principal acontecimento dos últimos 50 anos em Portugal. Não o podia ignorar. Mas sinto que, tal como no caso de Sousa Mendes, as avaliações deste importante momento são hagiográficas. Há uma ausência de sentido crítico. Tal como parece obrigatório criticar o Estado Novo, também parece obrigatório branquear quaisquer defeitos do 25 de Abril. É fácil esquecer que a jovem democracia portuguesa quase foi destruída pelas falhas e filistinismo dos revolucionários e foram as pessoas da província que, no Verão Quente de 75, impediram o tipo de tomada do poder comunista que se deu na Checoslováquia no final da II Guerra Mundial. E estas pessoas são frequentemente rotuladas como fascistas, nostálgicos, saudosistas. Só queriam retomar a sua vida normal. Mas a minha principal crítica do 25 de Abril é relativa ao que permitiu que acontecesse em África, os custos humanos da saída desastrosa de África. Para a população branca – havia mais europeus no Ultramar do que em qualquer outro império –, mas sobretudo para a população negra. A começar pelos soldados negros, que lutaram com Spínola na Guiné Bissau. A maioria deles foram massacrados. Isto não é assumido. A descolonização foi feita em função da raça. Porque é que Cabo Verde não teve o mesmo tratamento que os Açores e a Madeira? Faziam parte de Portugal desde a mesma altura. A única explicação parece ser a raça. Mário Soares foi ministro dos Negócios Estrangeiros durante grande parte da revolução. Nunca foi responsabilizado pelas decisões que tomou. Esse é um legado que os seus admiradores e os meios de comunicação nunca quiseram discutir.

Conhece o Museu do Aljube?

Não conheço.

É dedicado à memória dos resistentes, do combate à ditadura e das vítimas da PIDE. E no forte de Peniche há outro museu dedicado à resistência e à liberdade. Mas houve uma grande polémica relativa à criação de um museu dedicado a Salazar em Santa Comba. E a única estátua que existia de Salazar foi destruída por uma bomba. Acha que se justifica esta assimetria?

Acho que mostra a insegurança da classe política atual. Não sabem como lidar com um museu interpretativo em Santa Comba Dão – que eu não tenho dúvidas de que seria muito crítico do legado de Salazar. Se enterramos a memória de alguém que desempenhou um papel tão fulcral na história do país só aumentamos o fascínio pela sua figura. Por que não permitem simplesmente que Salazar se desvaneça tranquilamente na história? Não me parece que haja qualquer hipótese de um museu sobre Salazar desencadear algum tipo de corrente política indesejável. Tanto quanto consigo ver, ninguém quer criar um salazarismo do século XXI.