Internacional

Um beijo selou o destino de Hancock, o elo mais fraco do governo de Boris

A demissão do ministro da Saúde, acusado de negligência face à pandemia, parecia uma questão de tempo. Mas imagens do seu caso amoroso com uma conselheira, violando as suas próprias restrições contra a covid-19, foram a gota de água


Dentro e fora de Whitehall, era sabido que a posição de Matt Hancock no Governo de Boris Johnson estava por um fio. Mas as imagens de uma troca de beijos no seu escritório com uma das suas conselheiras, Gina Colangelo, convenientemente obtidas pelo tabloide Sun, a semana passada, foi o golpe de misericórdia. Permitiu ao primeiro-ministro livrar-se de um ministro visto como o elo mais fraco do Executivo, que ficou com as culpas pelos erros na gestão da pandemia. Aliás, Hancock já tinha de fazer ginástica para se manter no cargo sabendo que o seu chefe o considerava «sem remédio», escrevera Boris em março de 2020, numa séria de furiosas mensagens de WhatsApp, recheadas de palavrões, enviadas ao então conselheiro especial Dominic Cummings, que, após ser afastado do Governo, fez questão de divulgar essas mensagens durante o inquérito parlamentar à covid-19, no início do mês passado.

A troca de beijos entre Hancock e Colangelo tinha tudo para escandalizar toda a gente. Por um lado, muitos terão ficado escandalizados por Hancock ter um caso extraconjugal, com uma mulher casada e com três filhos, quando ele próprio também é casado e tem três filhos – não que isso tenha sido uma linha vermelha para os eleitores conservadores no que tocou a votar em Boris, que tem um extenso e bem documentado rol de casos extraconjugais. Por outro lado, há o facto de o caso ter ocorrido em maio, quando diretivas do próprio ministro da Saúde proibiam abraçar, quanto mais beijar, alguém fora do agregado doméstico. E, além disso, há o potencial conflito de interesses por Colangelo – milionária e acionista da empresa de lobby Luther Pendragon – ter sido nomeada em segredo para o Ministério da Saúde pelo próprio Hancock.

Provavelmente, Colangelo não precisaria particularmente das 15 mil libras (equivalente a quase 18 mil euros) que recebia por 15 a 20 dias de trabalho anual como diretora não-executiva do Ministério. Para a acionista da Luther Pendragon, que se gaba de oferecer aos clientes «uma compreensão profunda das mecânicas do Governo», bem mais valioso seriam as visitas a Downing Street ou o acesso a briefings confidenciais que vem com o trabalho – desde o começo da pandemia, clientes da empresa de Colangelo obtiveram contratos públicos lucrativos, incluindo a British Airways ou a consultora Accenture, que ajudou a montar a app de rastreio da covid-19 do Reino Unido, avançou o Sunday Times. 

De facto, já em novembro o jornal notava que o ministro da Saúde entregara um cargo essencial – supostamente, os diretores não-executivos servem para escrutinar os próprios ministros – nas mãos da sua «amiga lobista». É que a relação entre Hancock, de 42 anos, e Colangelo, de 43, vem bem de trás, quando colegas na rádio da Universidade de Oxford, mantendo-se bons amigos desde então. Não era a primeira vez que Hancock era acusado de conflito de interesses – a empresa da sua irmã, 20% da qual era propriedade de Hancock, ganhou um contrato com o Serviço Nacional de Saúde em 2019, sem que o ministro o declarasse de imediato. 

Conspiração palaciana?

Entretanto, continua a especulação sobre como é que o Sun – de Rupert Murdoch, um dos mais poderosos magnatas da comunicação no mundo anglo-saxónico, dono de títulos tão influentes como o The Times ou a Fox News – obteve o vídeo de Hancock aos beijos com Colangelo, tirado das próprias câmaras de vigilância do Ministério da Saúde. Tudo aponta para que se tenha tratado de algum tipo de golpe palaciano, no meio da acalorada disputa entre fações conservadoras. O facto da notícia ser assinada pelo editor de política do Sun, Harry Cole, ex-marido da atual mulher de Boris, Carrie Johnson, só adensou a especulação. Bem como a decisão do Governo de nem sequer investigar quem terá entregue o vídeo aos tabloides.

O certo é que, mais uma vez, os jornais de Murdoch, apoiante dos conservadores, voltaram a mostrar o seu poder e a transformar a realidade política britânica.l