Entrevista

João Braga. "O fado tem tido muitos divãs mas diva só há uma"

Aos 76 anos, acredita que uns envelhecem e outros não: o segredo encontra-se na seriedade com a qual encaramos na vida. Apesar de não saber se nasceu com uma leveza em relação ao mundo ou se a foi adquirindo, considera que a doença e a morte de quem nos é querido pode transformar o nosso ponto de vista. Por isso, não nega que sente a falta da mulher, Ana Maria de Melo e Castro Nobre Guedes, com quem esteve casado durante 48 anos. Pai de dois filhos e avô de quatro netos, passa os dias dividido entre o fado, a leitura e a escrita, preparando o segundo livro, 15 anos após o lançamento de Ai Este Meu Coração. Criticando a falta de intervenção do Estado na vertente artística, o fadista João Braga sublinha que a cultura continua a ser encarada como o ‘parente pobre’.


Nasceu quatro meses antes do fim da II Guerra Mundial.

Exatamente, no dia 15 de abril de 1945, ao meio-dia. Friso a hora porque o meu pai estava aflito para ir ver o futebol, jogava o Sporting, e ele quis saber se estava tudo bem. O jogo era às 15h e ele perguntou à parteira se estava tudo a correr como deve ser e disse: “Se o Sporting ganhar, amanhã faço-o sócio”. E fez.

Tem dois irmãos.

Tinha. Existia um ano e quatro meses de diferença entre o Carlos e o Jorge e entre este e eu. 
Diz-se que é um privilegiado. Concorda? Completamente. A vida é assim: uns nascem com algum mimo, outros com pouco e alguns sem nenhum. Tive a sorte de nascer com bastante. Frequentava colégios privados e houve um que me marcou muito.

O São João de Brito, onde atuou pela primeira vez?

Os jesuítas são, de facto, pessoas com uma preparação extraordinária. Tive a sorte de os encontrar. Eu e os meus irmãos fomos batizados, tal como a nossa restante família, éramos católicos praticantes - na altura -, mas hoje em dia sou muito mais cristão. Ser-se católico é coisa de homens, mas cristão é coisa do divino. Só posso dar graças a Deus por ter passado por esta instituição. E, sim, atuei aos nove anos na inauguração da cripta da igreja. O padre Ferreira da Silva escolheu-me para ir cantar os salmos em latim, mas com grande fúria dos mais velhos, que me queriam bater. O que vale é que os meus irmãos podiam proteger-me. Gostei, sobretudo, de ouvir a minha voz naquele espaço empedrado, numa acústica tão boa. 

Foi a primeira vez que se apercebeu da sua voz?

Não. Foi a primeira vez que cantei com audiência. Ninguém foi lá para me ouvir, mas sim por causa da cerimónia. Era muito pequenino, nem tinha sequer ido à escola, quando dei conta disto. Havia um casal de italianos que estava refugiado cá por causa da guerra e a minha mãe, pessoa de piano, conheceu a senhora. Por eu ter problemas nos rins, a minha família passou 12 anos de férias no Luso e eles iam connosco. Uma vez, o senhor chegou ao pé do meu pai, no denominado Casino do Luso, quando me ouviu a pedir-lhe cinco tostões para jogar, e disse: ‘Este rapaz vai ser cantor’. Ele conseguiu que eu ouvisse cantores como a Maria Callas e Franco Corelli, entre muitos outros, mas depois comecei a gostar mais de jazz.

E bossa nova e rock.

Isso foi mais tarde. O meu pai assinava O Cruzeiro, uma revista brasileira que já não existe, e certo dia fizeram uma reportagem em casa do Tom Jobim. Passaram dias seguidos em casa dele e a descrição daqueles encontros era ‘onde se ouvia o tilintar do gelo no copo de whiskey’ juntamente com os versos do Vinicius de Moraes que lá vinham publicados. Tinha 12 anos, fiquei cheio de curiosidade e, quando um amigo do meu irmão mais velho, comissário da TAP, foi passar férias ao Brasil, parti o meu mealheiro e dei-lhe o conteúdo para ele me trazer discos de bossa nova. Eu disse-lhe ‘Quando chegares lá, vais perceber aquilo que te estou a dizer’. Ele trouxe-me uma série deles e fiquei encantado durante muito tempo. Depois, claro, vieram o Paul Anka, o Neil Sedaka e a Brenda Lee.

Tem muitos discos dos Beatles espalhados aqui pela sala.

Gostava muito deles, mas mais do duo Simon & Garfunkel, porque sempre apreciei mais poesia. 

«A minha primeira paixão, paixão mesmo, é a poesia». Disse isto numa entrevista, em 2006, ao Museu do Fado.

A poesia também é música. É sempre a música. Está tudo misturado. Detestava fado, exatamente por causa da ausência de poesia e pela maneira como era cantado.

Por ser melancólico?

Era mais chungoso do que outra coisa. E era coitadinho. Tenho discos com fados gravados nos anos 20 e 30 e era de fugir. Para mim e para a minha noção das coisas. Há gente que ainda gosta daquilo e tem direito a isso, mas eu tenho direito a não gostar. E digo porquê: colocavam a voz de modo a que as pessoas tivessem pena deles. E depois ouvi a Amália a cantar Povo Que Lavas no Rio e pensei: ‘Afinal o fado também pode ser uma coisa de combate. ‘Mas a tua vida não’, a forma como ela rematava cada estrofe’. E uma norte-americana fez o resto.

Em 2016, a revista Sábado escreveu que ‘namorou meia Lisboa e Cascais inteira’.

Não sabia que tinham escrito isso. Não sabia, quero dizer, se calhar não me lembro. Pode ter acontecido ler rapidamente, mas acho piada. 

Mencionaram que eram as filhas dos engenheiros que trabalhavam na construção da Ponte 25 de abril.

Eram sim!

Quando ingressou em Direito, fê-lo por influência dos seus pais?

Ninguém me pediu para estudar Direito, queriam apenas que estudasse. Eu não lhes fazia a vontade porque não precisava. Como sempre tive a memória muito desenvolvida e forte, bastava-me estar com muita atenção nas aulas. Bebia aquilo que os professores diziam. E, se tinha alguma dúvida, pedia licença para interromper. Quando tinham bom feitio, faziam-no. As únicas matérias que estudei um bocadinho mais foram História e Geografia, porque são indispensáveis a quem quer ter alguma cultura. Aliás, vim a saber mais tarde que são dois dos fatores que presidem à apreciação da cultura de uma pessoa.

E decidiu desistir do curso.

Em boa verdade, eu não desisti. Por exemplo, também não desisti da carta de condução, mas, como naquele tempo não havia aulas de instrução noturna, não tive outro remédio senão não ter aulas. Antes de vir para casa, passava pelo Cacau da Ribeira. Muitas vezes, com o Alfredo Marceneiro e deixava-o na Rua da Páscoa, onde ele vivia. Ia para casa dos meus pais e só queria dormir. Levantava-me pelas 16h ou 17h. Só me apetecia comer e começar a arranjar-me para sair novamente. Nada disto era conciliável, não só pelo cansaço, mas, sobretudo, pelo horário.

Esteve na faculdade até que ano?

Até à beira do terceiro. Tive uma conversa com o meu pai e disse-lhe: «Desculpe lá, mas gosto mais de cantar». Não me disse nada, apesar de ter ficado visivelmente aborrecido e dececionado.

Em julho de 1964, inaugurou o Estribo Club como casa de fados. Tinha somente 19 anos, foi vontade sua?

Foi uma consequência. A primeira vez que cantei fado, em público, foi na Tertúlia da Festa Brava na Praça da Alegria. O meu pai era tertuliano e levou-me lá mais os meus irmãos. Estava lá um guitarrista que trabalhava com ele na antecessora da EDP, o José Nunes, e eu adorava a guitarra portuguesa. Gostava imenso daquele som metálico, mas muito bonito. O meu pai tinha uma quintinha em Sintra e, aos domingos, dava lá umas almoçaradas para os amigos e o José Nunes costumava tocar. Ia para debaixo da mesa e ficava encantado a ouvi-lo. Nessa tal tertúlia, cantei de uma forma rudimentar, mas fui bem recebido. Quero dizer propriamente cantar fado com uma plateia que sabia aquilo que estava a ouvir, mas cantei, oficialmente, no Galito, no Estoril, porque a Diana, a minha namorada americana, levou-me lá. Tinha acabado de fazer 18 anos, ela queria ouvir fado e eu não queria. Então, fomos com o Francisco Stoffel e a namorada dele. Depois, cantámos umas quadras, uma espécie de desgarrada. Não sabia nenhum fado. Cantámos a mesma coisa indefinidamente. Um dia, a dona do Galito, uma senhora russa, casada com um americano, não gostou que tivesse dito ao senhor Ivo - chefe de mesa - para não servirem bebidas enquanto estivêssemos a cantar. Cortou-nos a entrada, a mim e ao Chico, e fomos beber um copo ao Estribo Club, onde estava o César Pereira, luso-americano, tenente do Exército que tinha combatido na Guerra da Coreia. Desconfio que fosse da CIA, mas só desconfio. Ele nunca me disse nada, portanto, só posso conjeturar. Aquilo estava às moscas, porque os americanos queriam coisas portuguesas. Falei com o João Soares Fernandes, que cantava bem e à antiga, e que me arranjou uma parelha de guitarristas. Eu e o Chico pusemo-nos à porta do Galito a entregar as indicações de como é que se ia para o Estribo, em pequenos panfletos. E foi uma enchente.

Recebeu o seu primeiro cachet, mil escudos, nas Festas de Nossa Senhora do Castelo, em Coruche. Que sensação teve?

Foi giro. Mil escudos, naquele tempo, era dinheiro. Fui cantar com a Teresa Tarouca. 

O que fez com esse dinheiro?

Esbanjei-o de certeza absoluta, pois é isso que faço sempre. Nunca tive uma relação duradoura com o dinheiro. Para mim, só serve para gastar.

Em 1967, cantou É Tão Bom Ser Pequenino.

Sim, o Alfredo Marceneiro ditou-me a letra à mesa da casa de Fados Tipóia. Senti uma ligação à letra porque tinha 22 anos e, com essa idade, a gente não sabe exatamente o que quer nem o que é a vida. Estava convencido de que, quando se chegava a uma certa idade, era uma coisa muito doce, uma vida muito boa regalada e tranquila... É tudo mentira, mas eu achava, porque senão nunca teria cantado uma letra que diz ‘A velhice traz revés / Mas depois da meninice / Há quem adore a velhice / Para ser menino outra vez’. Toda a gente envelhece por fora: há uns que têm mais sorte do que outros, mas todos envelhecem, é uma questão de tempo. Por dentro, é que já é diferente: se levamos a vida a sério, envelhecemos muito cedo. Caso contrário, dificilmente envelhecemos. O que interessa mais não é o nosso corpo - só para a satisfação dos sentidos e pouco mais -, porque para aquilo que conta, a eternidade, o mais importante é o espírito. E, se não envelhecemos no espírito, a tal letra pode começar a fazer sentido. Porque a vida custa-nos menos.

É isso que tenta fazer?

É difícil dizer se tento ou se já vim ao mundo assim. Nunca levei a vida a sério. Quando ralhavam comigo, começava a rir. Não era para provocar ninguém, mas achava piada quando via alguém encrespado. É claro que há situações na vida que nos fazem encarar a vida com mais seriedade - não falo de honestidade -, como a doença e/ou a morte de uma pessoa. Vemos que há indivíduos que perseguem o poder, vão para o poder, e sabem que há pessoas, no nosso país, a ganhar 600 e tal euros. Eles só sabem quanto é 600 e tal milhões de euros. Se tivesse ido para a política, ia com vontade de servir o povo a que eu pertenço.

É monárquico.

Exato. Queria melhorar a vida das pessoas: não chatearia quem tem, mas ia acudir a quem não tem. De vez em quando, ia assistir a aulas de Direito na Universidade de Coimbra porque estava lá o professor Antunes Varela. E ele disse uma coisa espantosa, mais ou menos isto: ‘Só vale a pena ir para política se tivermos o sentido de missão, de Estado, que nos permite perceber que temos de melhorar as condições de quem de facto precisa e deixar quem já tem em paz’. Lembro-me de que ele disse isto de forma mais erudita, mas a súmula era isto, e aquilo ficou-me para a vida. Recordo-me de que o Miguel Torga escreveu que nos falta ‘o romantismo cívico da agressão’. Ou seja, os portugueses refilam e não fazem nada. Então, não me martirizo a ver notícias, tento evitar, para não ser assim.

É politicamente interventivo no seu Facebook. Quando o filme Moonlight ganhou o Óscar de melhor filme, escreveu: ‘A distribuição dos Trumps – Agora basta ser-se preto ou gay para ganhar os Óscares’.

A SOS Racismo ficou muito indisposta comigo. Sempre tive amigos e amigas de todas as etnias e proveniências. Nunca digo, por exemplo, ‘os ciganos’, mas sim ‘há ciganos que x’. Nunca generalizo. Quem generaliza, geralmente, é descuidado. Por isso é que há certos neopolíticos que andam aí armados em líderes e dizem coisas disparatadas. Não se pode dizer ‘os pobres são isto’ ou ‘os pobres são aquilo’. Há ricos que se portam bem, pobres que se portam mal, há de tudo um pouco. 

Há pouco, no jardim, disse que não trata do mesmo desde a morte da sua mulher, em 2019. Sente muito a falta dela?

Não vou muito ao jardim. Aliás, quis sair desta casa... Tínhamos exatamente a mesma idade. Eu fazia anos a 15 de abril e ela a 23. Era uma pessoa especialíssima. Éramos muito amigos, desde miúdos, e também era a minha confidente. Em termos mais coloquiais, “topava-me a crónica toda”. Era a única pessoa a quem contava certas coisas. Uma vez, tive um problema com uma senhora mais velha do que eu e, duas semanas depois, ela disse-me ‘Por que raio andas a perder tempo com essas galdérias? A gente dá-se tão bem. E se casássemos?’. Estávamos a jantar no Nicola, no Rossio, e disse-lhe ‘Mas que bela ideia!’. Eu era daqueles que, no meio dos amigos, quando tínhamos essas conversas, dizia: Eu, casar? Nem pensar nisso!’. Desde cedo, tive namoro e de várias paragens: Porto, Alentejo, Algarve...

Não era só em Lisboa ou em Cascais.

Não! Gostava de conhecer pessoas e tinha medo do compromisso. Parecia ter mais idade e comecei a lidar com pessoas que já tinham uma família constituída. Fazia-me impressão quando era confrontado com essa ideia. 

E casou em 1971.

Sim, na sequência daquele episódio, e estivemos 48 anos juntos. Nunca fizemos perguntas da nossa intimidade um ao outro. As pessoas têm sempre outro lado, um escape, e ela nunca tocou em nada nem eu. Se eu entrasse em casa e visse a minha mulher ao telefone, não lhe perguntava com quem é que estava ao telefone. Se ela quisesse, dizia que estava a conversar com o irmão ou quem quer que fosse. A única coisa que ela me disse, na véspera do casamento, quando jantámos fora, foi que me pedia lealdade e franqueza. Nunca tive a mínima desconfiança dela e tenho a certeza de que ela não tinha a meu respeito. Ela de estúpida não tinha nada e conhecia-me bem. 

Em 1974, foi emitido um mandato de captura em seu nome.

Sim, foi assinado pelo Otelo Saraiva de Carvalho.
 

Qual foi a justificação?

O motivo estava em branco. Estragou-me a vida naquele período.

Esteve exilado em Madrid durante dois anos.

A minha mulher estava de esperanças do Miguel, o meu filho mais novo, de sete meses. Fomos a uma consulta, com a recomendação de um médico de cá, e ele esteve cinco minutos a ver a minha mulher. Passei pela receção para pagar a fatura e, quando saímos, disse à Ana ‘O melhor é ires ter a criança a Portugal porque senão nunca mais saio de Espanha a trabalhar para pagar o nascimento da criança. Se uma consulta custa isto, quanto será um parto?’. Então, ela veio com a mãe e teve o nosso filho. Se eu tivesse vindo para cá, sendo conhecido como sou, acabava em Caxias. Fiquei a conhecer, muito cedo, o que é que esperava ao povo português com aquele golpe militar sinistro. Na nossa longa História, tivemos episódios desagradáveis, mas como aquele não tivemos outro. Podia ter sido uma revolução para libertar Portugal da ditadura horrível do doutor Salazar, mas esquecem-se de que a ditadura de que falam, ao pé daquilo que acontece hoje, era uma democracia. 

Porquê?

Em primeiro lugar, e temos de recuar no tempo, assassinaram barbaramente o Rei e o príncipe herdeiro, em 1908. E o primeiro presidente eleito pelo povo, Sidónio Pais, foi morto. Até então, eram todos eleitos por um colégio eleitoral. Eu cresci com todas estas narrativas e se há coisa que eu detesto são sociedades secretas...

Refere-se à maçonaria?

Sim, a maçonaria à portuguesa, como o cozido, é uma coisa horrível porque é um jogo de interesses. Quando comecei a detestar francamente a maçonaria não foi pela ligação à Carbonária nem pelo regicídio, mas sim mais por causa do John Kennedy. Ele era uma persona non grata do regime do Estado Novo, porque apoiou os movimentos de libertação das antigas colónias, e fez um discurso, em 1961, cujo título era Secret Societies e disse ‘The very word ‘secrecy’ is repugnant in a free and open society’. Foi por causa disso que o mataram, porque, numa emissão televisiva, perguntaram-lhe que discurso ia proferir em Dallas e ele explicou que seria igual a este, de Nova Iorque. Fiquei elucidado para o resto da vida. Tudo quanto precisa de ser feito em segredo é desprezível. 

Não se justifica em casos como o da Revolução dos Cravos?

Aquilo que fizeram foi assaltar as instituições do poder. Contaram com a única força organizada, o Partido Comunista, que se instalou nas estruturas nevrálgicas do Estado como a saúde, a justiça, etc. E o país está assim, as coisas são como são. Basta olharmos para aquilo que aconteceu nos últimos cinco anos: e, se fosse um governo de direita, diria exatamente a mesma coisa, pois tem muita culpa nisto. Basicamente, aquilo que a União Europeia disse foi: ‘Lá, nos confins da Ibéria, há um povo que não se governa nem se deixa governar. Então vamos mandar a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI para fiscalizar aquilo que fazem’. E, depois, foram-se embora antes do tempo certo. 

Como encara a política internacional?

Sempre acompanhei com especial interesse a política norte-americana. Quando vi o Barack Obama, pensei:‘Até que enfim, apareceu alguém com qualidade! Intelectualmente forte e ágil’. Fiquei desiludido com ele porque permitiu que a Hillary Clinton fizesse a Primavera Árabe. Como é que ia conseguir converter os muçulmanos à democracia? Isto é de uma ignorância total. Basta ver a forma como tratam as mulheres. Lembro-me de ter ido jantar com a minha mulher à Vela Latina e encontrámos um casal amigo. No fim do jantar, bebemos um copo e ele voltou-se para mim e perguntou ‘Quem é que tu segues nas eleições americanas?’ e eu respondi ‘Aquele que eu acho que vai ganhar’ e ele, muito admirado:‘Um negro? Quem vai ganhar é o John McCain’. Agora, estou convencido de que vão ser os Estados Desunidos da América. 
Como encarou a presidência de Donald Trump? Ele é um oportunista como qualquer outro milionário americano. Ele era democrata, mas percebeu que não se ia safar e mudou para o Partido Republicano. De outra forma, não podia dizer ‘Make America Great Again’. Apesar de tudo, é um tipo hábil para negociar e foi a primeira vez, por exemplo, desde a Guerra da Coreia, que um Presidente dos EUA apertou a mão - e não o pescoço - ao Presidente da Coreia do Norte, tomou o partido de Israel abertamente, reconhecendo Jerusalém como a capital. No entanto, comportou-se como se comportou toda a vida nos negócios e o Presidente da maior potência do mundo não pode ser assim: tem de ser um Obama, um John Kennedy, um Franklin Roosevelt ou um Ronald Reagan.

Por que razão não tem dado quaisquer entrevistas?

Estou escondido. Não ponho os pés num estúdio de televisão porque não me pagam nem aos guitarristas. Portanto, não vou fazer caridade nem obrigá-los a isso. Lancei uma geração inteira de fadistas, é aquela que anda aí, e, por estranho que possa parecer, eu ainda estou ativo - a cantar na Mesa de Frades -, nunca mais pisei um estúdio. Nada, zero. Fui convidado para uma ‘homenagem’ à Amália, mas achei-a abominável, porque não é aquilo que deve ser feito. Curiosamente, gosto muito de fazer trocadilhos e, há poucos dias, a propósito da obra que vou publicar, escrevi que ‘O fado tem tido muitos divãs, mas diva só há uma’. No dia 6 de outubro de 2012, foi decretado, pelo Senado argentino, o dia do fado. E, em Toronto, há um dia dedicado a ela. E no Japão há escolas de fado com o nome dela e por aí adiante. Reuniram-se, no ano 2000, 250 críticos musicais de todo o mundo para escolherem as três melhores vozes do século XX. E, para além dela, foram escolhidos a Maria Callas e o Frank Sinatra. Ninguém quer saber disto.

Em novembro de 2011, a UNESCO reconheceu o fado como Património Imaterial da Humanidade.

Isso é um disparate. O fado começou a ser património material ou imaterial ou as duas coisas na primavera de 1957, quando a Amália o cantou no Olympia de Paris. E pisou quase todos os palcos do mundo. O objetivo da UNESCO era atribuir um acervo cultural a países que não o tinham, ou seja, explorar obras que não tinham suportes discográfico, fílmico, em livro, televisivo, etc. Portanto, em teoria, que não existissem. Ora, o fado não precisava de nada disto. 

Escreveu para inúmeras publicações como O Século Ilustrado, O Volante, O Independente, O Diário de Notícias ou A Capital. Em 1970, criou a revista Musicalíssimo, de que foi editor até 1974. Como surgiu a paixão pela escrita?

Sempre gostei de escrever. Por exemplo, agora acabei de escrever algumas páginas para um catálogo que vai acompanhar uma exposição sobre a Amália Rodrigues no Museu do Fado. Escrevi uma coisa que me saiu bem: não é para me gabar, não me é difícil escrever sobre ela. Tenho um livro pronto, que me foi pedido pela Esfera dos Livros, e eu primeiro disse que não. Foram muito simpáticos e lá escrevi aquilo, apesar de não me ter muito apetecido. Refleti acerca do meu enfarte, da minha intervenção cirúrgica...

No artigo de revista Sábado, de que falámos antes, mencionou que, aos 18 anos, fumava quatro maços de tabaco por dia, bebia 12 cafés e uma garrafa de whiskey. Mudou o seu estilo de vida?

Entre outros excessos! Mudei um bocadinho. Continuo a deitar-me às tantas, bebo vinho tinto às refeições e volta não volta bebo um whiskey escocês.

Tem quantos netos?

Uma fez 18 anos no início de junho e quer ser economista. Há amigos meus que a adotaram como neta, é uma miúda encantadora. Tem dois meios-irmãos de dois anos e um ano. E depois tenho outro neto, do meu filho mais novo, que faz 14 anos em agosto. 

Durante os confinamentos, sentiu falta deles?

Continuei a vê-los.

Não teve medo?

Ando constantemente a caminhar para o hospital e faço testes, exames, análises... Tenho tudo controlado ao máximo. Não vou para espaços fechados, a casa está desinfetada... Portanto, penso que não houve problema. Infelizmente, aquilo que mais me preocupa é que nenhum dos fadistas tem tido oportunidade de aparecer e cantar.

Acha que o Governo tem agido devidamente?

Sou contra subsídios estatais, porque acho que as pessoas devem ganhar de acordo com aquilo que produzem. Numa situação como esta, devia ter havido, da parte do Governo, aquilo que devia haver num país democrático. No fundo, apenas diz-se democrático. Por exemplo, desapareceram milhões de euros que deviam ter ido para as famílias das vítimas de Pedrógão Grande e ficou tudo calado. Nos outros países, quando os dirigentes não têm condições para continuar a desempenhar os seus cargos, demitem-se. Em primeiro lugar, alguém da Cultura devia ter arranjado soluções que passavam, imaginemos, pela organização de espectáculos ao ar livre assim que o tempo o permitisse. E, assim, quem quisesse matar saudades dos seus artistas, matava. E quem quisesse ganhar dinheiro, ganhava. Isto amenizaria este deserto. A cultura é muito maltratada neste país e, por isso, é designada como ‘o parente pobre’. Se não fosse a política, Portugal seria uma espécie de paraíso. É uma pena.