Internacional

Viajar no espaço. Dos macacos contrariados ao foguete de luxo

Uma sensação de tranquilidade avassaladora que muda quem a experimenta. É disso que Jeff Bezos vai à procura. Desde os cinco anos que o fundador da Amazon sonha ir ao espaço. E vai fazê-lo em grande estilo.


“Orbitando a Terra na nave, vi quão belo o nosso planeta. Vamos preservar e aumentar esta beleza, não destruí-la”, recordou o cosmonauta Iuri Gagarin, o primeiro humano a viajar pelo espaço. Em 1961, a União Soviética e os Estados Unidos disputavam a Guerra Fria, já havia a sensação de que caminhávamos para o abismo, de que a humanidade criara a capacidade de se destruir – temia-se um apocalipse nuclear, não a lenta transformação do clima, mas o receio já era enorme. Talvez por isso, invariavelmente, quem volta do espaço vem com um discurso em tudo semelhante ao de Gagarin. A NASA até já tem um nome para isso, o chamado overview effect, descrito como uma sensação de tranquilidade e clareza avassaladora, uma mudança cognitiva irreversível que vem com a experiência de ver o nosso planeta de longe. Naturalmente, é algo que faz parte de qualquer promessa de turismo espacial – e que o fundador da Amazon, Jeff Bezos, quer ser o primeiro bilionário a experienciar, a bordo do New Shepard, um foguete reutilizável da Blue Origin, já a 20 de julho (ver págs. 16-17).

“Se vires a Terra do espaço, isso muda-te. Muda a tua relação com este planeta, com a humanidade”, escreveu Bezos no Instagram, ao anunciar a viagem que fará com o seu irmão, Mark. “Desde que tinha cinco anos de idade, sonhei em viajar para o espaço”, garantiu o bilionário, que se decidiu dedicar quase integralmente à exploração do espaço. Acompanhar os irmãos Bezos não é nada barato – um bilhete para o curto passeio pelo espaço foi comprado por 28 milhões de dólares (mais de 23 milhões de euros), num leilão que começou nos 4,8 milhões de dólares, e contou com mais de sete mil licitadores inscritos, com um vencedor rico e anónimo. Que terá, entre os seus parceiros de viagem, Wally Funk, de 82 anos, que treinou para astronauta no programa Mercurio da NASA, mas nunca teve a oportunidade de ir ao espaço – será a pessoa mais velha alguma vez a fazê-lo.

 

Macacos no espaço

O dia a dia de um astronauta não é nada fácil, roçando entre o aborrecimento e a dificuldade extrema. “O conceito de um “dia” a bordo de uma nave espacial em órbita é um pouco abstrato”, lê-se no site da Agência Espacial Europeia. “A cada 24 horas, os astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional experienciaram 15 nasceres do dia enquanto a estação acelera à volta do mundo. Mas os humanos foram condicionados por milhões de anos de evolução para um ciclo diário de 24h”. Ou seja, os astronautas têm de se forçar a dormir, a comer comida líquida – muitos queixam-se que é tudo menos apetitosa – e às variações de gravidade, que podem tornar excretar desafiante, enquanto se desdobram entre tarefas, manutenção, ou em experiências científicas.

Claro que, para os turistas do espaço, como Bezos, a situação é muito diferente. Para já, só estarão sem os pés na Terra uns meros 11 minutos. E mesmo esse período será num foguete de luxo, numa cabine espaçosa, que tem a maior janela espacial alguma vez construída, tudo para terem um pouco de overview effect.

“Subitamente, ocorreu-me que aquela pequena ervilha, bonita e azul, era a terra”, contou Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua, citado pelo Washington Post. “Levantei o meu polegar e fechei um olho, e o meu polegar escondia o planeta Terra. Não me senti como um gigante. Senti-me muito, muito, pequeno”.

Talvez seja uma experiência que faça bem a Bezos e aos seus companheiros. Mas há quem desconfie que não. É que o turismo espacial “representa um ponto peculiar na história evolutiva”, considerou Ed Cumming. colunista na Observer. “Os primeiros macacos no espaço foram muito contra a sua vontade. Agora os mais privilegiados e poderosos macacos de todos estão a batalhar por essa hipótese. No trabalho, estes homens insistem em substituir os seus empregados humanos por robôs. Depois, no seu tempo livre, insistem em fazer atividades que claramente deviam ser feitas por robôs”.