Opiniao

Liberdade de expressão em perda – O fim de the Apple Daily

Já se percebeu que Xi, na Nova China procede pela via do exemplo, da lição aplicada a um caso concreto, e que depois impõe a regra e dissuade possíveis prevaricadores.


por M.T.T.

No dia 1 de Julho na simbólica praça de Tiananmen, onde tudo o que é importante da celebração à repressão, acontece, o presidente Xi Jinping acompanhado pelo seu antecessor Hu Jintao, pelo Primeiro-Ministro Li Keqiang e por toda a alta Nomenklatura do Governo e do Partido Comunista, presidiu às cerimónias do centésimo aniversário da fundação do PCC.

Estiveram também presentes os chefes dos Executivos governamentais de Macau Ho Iat-seng e de Hong Kong Carrie Lam.

O Presidente Xi, que geralmente aparece de fato e gravata, como se tornou costume entre os dirigentes do Partido, surgiu desta vez, com o fato de colarinho fechado, à Mao Tse Tung, na praça onde se concentravam além de tropas e organizações partidárias e da juventude uniformizadas, 70 mil pessoas.

O discurso do novo grande líder durou mais de uma hora, foi uma reafirmação da importância central do Partido Comunista Chinês na formação da Nova China, e nos seus progressos económicos. Fez também um sério aviso ao exterior, para não procurarem desestabilizar a China. E avisou também, por maioria de razão, os perturbadores ou subversivos internos.

Um destes perturbadores era, pelos vistos, o quotidiano Apple Daily, de Hong Kong que, fundado há 26 anos se tornara, nos últimos tempos, o mais activo e popular porta-voz da defesa dos direitos humanos e da democracia na ex-colónia inglesa. Desde que Pequim instituiu a Lei da Segurança Nacional no território as prisões de pessoas e o fecho de instituições ou empresas resistentes às autoridades têm sido a regra. As acções repressivas começaram em 2019 com a lei de extradição, que permitia que cidadãos de Hong Kong pudessem ser extraditados e julgados no Continente chinês. Um ano depois, em Junho de 2020 o regime de controlo de manifestações e da imprensa intensifica-se. Uma das vítimas é Jimmy Lai, um grande empresário da comunicação social, é detido e aparece algemado em público.

O cerco foi-se intensificando e segundo o Guardian, de Londres, o poder de Pequim queria encerrar o Apple Daily, antes dos festejos dos cem anos da Fundação do Partido Comunista Chinês.

E foi nesse sentido que as coisas se desenvolveram. Em 17 de Junho, cinco importantes quadros do jornal foram presos; entre estes estava o Editor-Chefe do jornal, Ryan Law. As acusações são de “conspiração com o estrangeiro” para levar a comunidade internacional a aplicar sanções a Hong Kong e à RPC.

Ao mesmo tempo, John Lee, responsável da Segurança do Território, comunicou ao pessoal do Apple Daily e a outros media de Hong Kong que deviam, para evitar sanções, cortar as ligações com os acusados.

O golpe final foi dado através da repressão e invasão policial e ameaça aos jornalistas e colaboradores de serem acusados de infringir a lei da segurança nacional. Ao mesmo tempo dava-se uma operação para congelar os meios financeiros do jornal.

No último dia do jornal, a última edição esgotou rapidamente. À noite milhares de pessoas juntaram-se junto à sede do Apple Daily, numa comovente manifestação de solidariedade.

Já se percebeu que Xi, na Nova China procede pela via do exemplo, da lição aplicada a um caso concreto, e que depois impõe a regra e dissuade possíveis prevaricadores.

É um método mais humano, quando comparado com as fomes e os massacres do maoísmo, mas não deixa de ser uma forma do Estado Policial não de acordo com os valores de liberdade e da democracia que Pequim proclama. A lição de Apple Daily é outra a acrescentar a anteriores.