À Esquerda e à Direita

Um certificado digital que pode valer ouro

A medida posta em prática neste fim de semana não é uma originalidade lusitana, pois já foi testada noutras latitudes, mas não é por isso que não deixa de ser altamente questionável.


Aos poucos, vamos caminhando para uma sociedade securitária, onde o Estado está em todo o lado e cada vez mais envolve a população nesse papel policial. A obrigatoriedade de se mostrar o certificado digital para se poder almoçar ou jantar em restaurantes fechados vai fazer com que os donos dos espaços de restauração se transformem em polícias. E aqui coloca-se logo uma questão pertinente: não podendo exigir o cartão de cidadão a ninguém, como é que saberão se o certificado é da pessoa que o apresenta? Digamos que o Certificado Digital vai ser um objeto de culto que se emprestará aos amigos que não o tenham. Um certificado que vai valer ouro.

A medida dividirá também famílias e amigos, pois num restaurante que não tenha esplanada, quem não tem o famoso papel ficará na parte de fora como se de um mendigo se tratasse. Dir-se-á que quem não o tem, pode sempre apresentar testes negativos, ou os restaurantes podem efetuar os testes rápidos aos clientes mais incautos. Além de polícias, os donos dos restaurantes terão também agora de ser enfermeiros. Percebe-se que o Governo queira que os restaurantes estejam abertos aos fins de semana, além das 15h30, nos concelhos de risco elevado e muito elevado. Mas esta medida só irá ser cumprida pelos espaços que estejam mais visíveis, os outros não querem saber disso para nada. Está-se mesmo a ver a Polícia começar a entrar em hotéis, por exemplo,  e ir aos rooftops para saber quem está devidamente ‘legalizado’. Mas esta medida tem ainda duas vantagens para o estado policial: as multas para os empresários podem chegar aos 10 mil euros e como os restaurantes estarão mais tempo abertos o Estado terá de desembolsar menos apoios para o setor – esta é totalmente legítima.

Por outro lado, qual a razão para esta medida não ser alargada às escolas ou aos transportes públicos? Ou será que aí todos têm os certificados e testes em dia? Não acredito em teorias da conspiração, mas é óbvio que alguém vai ganhar muito dinheiro com a história dos testes rápidos.

P.S. 1 – Este estado policial contagia muito boa gente que à boleia do poder socialista quer também impor a sua lei. E, como tal, fazem uma espécie de lista negra de assuntos e pessoas e ai de quem os contrariar. Os novos inquisidores consideram o racista Mamadou Ba um democrata exemplar e uma personagem como Suzana Garcia uma nazi. Digamos que quem apoia ou se dá com essas pessoas da lista negra devia acabar no pelourinho para ser chicoteado em público. Estes patetas têm mesmo aversão à democracia. É normal num país em que o deputado ex-estalinista José Magalhães é um dos guardiões da verdade jornalística. Os tais inquisidores sonham com o dia em que todos só possamos ler, ver, ouvir ou vestir ou comer o género que eles nos querem impor.

P.S. 2 – A detenção de Luís Filipe Vieira, depois de Berardo é uma notícia que, teoricamente, engrandece a Justiça, que revela que desta forma não há intocáveis. Uma boa notícia no sentido de que a partir de agora ninguém poderá sentir-se seguro ao fazer, supostamente, vigarices. Veremos o que dizem os tribunais. Ah, a cobertura mediática da detenção e da ida de Luís Filipe Vieira para o tribunal ou para o calabouço revela bem como somos um país terceiro-mundista. Para quê tantos agentes envolvidos no transporte de quatro arguidos, que, ao que se saiba, não vão fugir nem matar ninguém. E assim se desperdiçam os recursos do Estado.

vitor.rainho@sol.pt