Internacional

Talibãs querem mostrar outra cara

Talibãs mantêm serviços públicos e prometem paz ao Kremlin. Mas os afegãos ‘ainda recordam o que se passou antes de 2001’, sublinha Thomas Ruttig.


Os talibãs querem mostrar um novo rosto aos afegãos e ao mundo, como quem se prepara para governar um país, com a coligação liderada pelos Estados Unidos de saída e as forças afegãs a recuar. Nas redes sociais, circulam vídeos de talibãs a abraçar soldados rendidos, a dar-lhes uns trocos para a viagem para casa, entre gritos de alegria. Nas povoações que tomam, as ordens são de não massacrar gente, manter as lojas abertas, a rede elétrica a funcionar e as ruas limpas, escreveu o New York Times. Já as mulheres ficam proibidas de trabalhar ou sair de casa sem autorização e as raparigas com mais de dez anos impedidas de ir às aulas, enquanto a música é proibida, substituída pela recitação do Corão, e os homens obrigados a deixar crescer a barba. Mas não seria de esperar outra coisa dos talibãs, que agora dizem controlar mais de dois terços do Afeganistão - as estimativas dos especialistas são um pouco mais baixas - e mantêm várias capitais provinciais sob cerco.

«Eles querem mesmo mostrar-se como o futuro Governo, a trabalhar a favor do povo», considera Thomas Ruttig, fundador e co-diretor da Afghanistan Analysts Network, ao Nascer do SOL. Se isso funcionará ou não é outra questão. Os afegãos «ainda se recordam do que se passou antes de 2001. Essas memórias ainda estão lá», salienta Ruttig, que viveu mais de uma década no Afeganistão. «Os talibãs podem dizer ou fazer o que quer que seja, as pessoas não confiam neles. Não sabem se este comportamento relativamente moderado durará», diz o analista. «Mesmo um regime talibã moderado pode ser insuportável para muita gente».

O problema é que, a cada dia que passa, esse cenário parece cada vez mais provável. No oeste, os talibãs tomaram as principais passagens fronteiriças com o Turquemenistão e o Irão, na província de Herat, esta sexta-feira – uns 15% das importações do Afeganistão passam pelo Irão, segundo dado do Banco Mundial.

Mais uma vez, os talibãs mostraram-se razoáveis. «Levamos preocupações com o comércio muito a sério», prometeu Shahabudding Delawar, porta-voz do grupo, citado pela CNN. «Todas as importações e exportações serão levadas a cabo de acordo com as leis existentes». Com o dinheiro a ir parar aos cofres dos talibãs, claro, que capturaram também território na fronteira com a China e o Paquistão.

Mesmo no norte, tão distante dos tradicionais redutos talibãs no sul, nas regiões pachtuns, as forças afegãs têm sido varridas. Os talibãs, que têm recrutado cada vez mais entre grupos étnicos não-pashtun na última década, tomaram vários distritos do norte na última semana, muitas vezes sem sequer ter de combater. Mais de mil polícias e militares fugiram das províncias de Takhar e Badakhshan, através da fronteira com o Tajiquistão, e muitos outros renderam-se.

O Kremlin, que vê neste país um tampão no seu flanco sul, tendo aqui a sua maior base militar no estrangeiro, sugeriu até enviar forças russas para a fronteira do Tajiquistão. Mas foi tranquilizado pela diplomacia talibã. «Queremos que o mundo saiba, especialmente os países vizinhos, que traremos segurança e estabilidade às fronteiras do Afeganistão», garantiu o seu porta-voz, Delawar, numa conferência de imprensa em Moscovo, onde prometeu que os hospitais manter-se-ão a funcionar e a ajuda humanitária a chegar à população.

Os talibãs «querem reconhecimento internacional, para governar o país precisarão desse apoio», realça Ruttig. «Não podem repetir os aspetos os aspetos mais grosseiros da sua ditadura, que acabou em 2001. Creio que aprenderam com isso. Mas claro que isso não significa ter um regime democrático sob os talibãs».

 

Milícias e desespero

O Governo afegão de Ashraf Ghani está tão desesperado que depende cada vez mais de milícias, lideradas por senhores da guerra, mujahidines veteranos da resistência aos soviéticos ou chefes tribais – muitos dos quais se odeiam tanto uns aos outros quanto aos talibãs, sendo conhecidos por brutalizar e extorquir as populações. O receio é que tudo degenere em mais uma guerra civil, semelhante à anarquia que se viveu no Afeganistão nos anos 90. Foi nesse caldo de sangue e caos que medraram os talibãs.

«O Governo e as milícias não se coordenam nada bem. As milícias são sobretudo controladas por homens fortes locais, que estiveram ou estão no Governo, mas têm interesses diferentes, não confiam uns nos outros», avisa Ruttig.

E, entre os soldados, não é de espantar que haja tantas deserções. «Francamente, muitas vezes o Governo não é capaz de providenciar munições, rações, água aos seus combatentes, que frequentemente estão cercados e com baixa moral», relata o analista. «A escolha é ser morto, ou morrer de fome ou render-se aos talibãs. Por vezes as negociações de rendição são por iniciativa deles, outras de anciões tribais que fazem a mediação».

«Houve incidentes em que os talibãs de facto escoltaram guarnições de postos de polícia ou bases militares até à capital provincial mais próxima», exemplifica Ruttig. «Desse modo os soldados sentem que não serão mortos, é mais fácil para eles renderem-se».

Entre vários analistas, o receio é que esta ofensiva talibã seja preambulo de outra, para tomar as capitais provinciais que cercaram. A população vive num estado de medo constante, sobretudo a afegã, que teme perder as suas poucas liberdades. Outras não sentirão grande diferença, mesmo em território sem talibãs, sob controlo de aliados do Governo, «há algumas áreas onde as mulheres nem nunca puderam sair à rua, sobretudo no sul e sudeste», refere Ruttig. «Varia de área para área, mas não acontece só em áreas controladas pelos talibãs».

«De momento, não creio que os talibãs vão tomar Cabul de assalto, mas sim exercer pressão e estender as suas posições em redor da capital, de maneira a poder ditar as condições das negociações», avalia o analista. «Mas o objetivo último dos talibãs é chegar ao poder no Afeganistão, o que significa que têm de chegar a Cabul. Seja militar ou politicamente».