De Mala Pronta

Três noites e dois dias e meio

Não deixo de salientar o poder que os portugueses têm de fazer tanto com tão pouco. E sempre com um sorriso. Pura magia. Não conheço um povo mais resiliente. Chapeau!


por Filipa Moreira da Cruz

Já aqui escrevi que, respeito (e muito!) o trabalho dos jornalistas. Aqueles que têm a lição bem estudada e não caem na tentação de lançar fake news. Os que não negociam com a esquerda caviar nem com a direita dos coitadinhos. Os que sentem orgulho na sua profissão e, sobretudo, os que não se deixam intimidar. Seguem em frente, custe o que custar.

Ser jornalista é cada vez mais ingrato e perigoso. Muitos são perseguidos e até assassinados porque se tornam incómodos, e não apenas por se encontrarem em zonas de conflito. Tem também vindo a aumentar o número de mulheres que são vítimas de assédio, apenas por serem... mulheres. Duas realidades alarmantes. O jornalismo é uma profissão de (alto) risco.

Nos dias de hoje quase ninguém lê as notícias até ao fim. Por falta de tempo ou de vontade. A sociedade está blasée. Procuramos o imediato, mas tudo é efémero. O que é verdade hoje deixa de ser amanhã. Há leitores que julgam ter toda a informação apenas com o título e depois alongam-se em comentários intermináveis. A internet democratizou a informação, mas deixou de haver filtros, para o bem e para o mal. Alguns seres humanos já não são capazes de ler nas entrelinhas nem de decifrar as mensagens. Acreditam em tudo o que leem e comentam sem conhecimento de causa.

Tenho a sorte do Nascer do Sol publicar as minhas reflexões (não passam disso porque não sou jornalista nem comentadora política). Manifesto abertamente a minha gratidão ao jornal. Não sou paga por nenhuma das publicações, como é natural. Mas não sofro qualquer tipo de censura por parte da direção e isso não tem preço!

Aqui vai a explicação do título para quem chegou até aqui. Os outros, já estarão a massacrar o teclado.

Há uns dias, fiz uma visita rápida, mas intensa, a Portugal. Ao fim de quase um ano, soube bem regressar a casa, mesmo que tenha sido por um motivo sério. Sofri um choque assim que saí do avião. O calor abrasador e o decadente aeroporto deram conta de mim. Não sei se deve ser no Montijo, em Alcochete, no Barreiro ou no Seixal, mas Lisboa merece estar mais bem servida. O aeroporto Humberto Delgado está coberto por uma fina camada de verniz, prestes a estalar. Só quem não viaja é que não se apercebe do óbvio. Naturalmente, não será uma prioridade para nenhum governo, mas então devemos assumir-nos como um pequeno país pobre, como admitiu António Guterres numa das assembleias das Nações Unidas.

Como costuma ocorrer, tive a sensação de que o tempo parou. Portugal avança a outro ritmo, vive-se sem pressa. E isso é reconfortante. O stress é altamente nefasto. Os portugueses são serenos. Desta vez, nem o trânsito da capital me fez mudar de opinião porque Lisboa estava deserta e triste.

Custou-me, ao fim de 48 horas, ter de fazer um novo teste covid e, sobretudo pagar 95 euros porque é gratuito (com ou sem receita médica) no país onde vivo. Será outra consequência do tal país pobre que não pode comparticipar os custos ou um novo lobby?

Não deixo de salientar, uma vez mais, o poder que os portugueses têm de fazer tanto com tão pouco. E sempre com um sorriso. Pura magia. Impressiona-me o profissionalismo, o altruísmo e a dedicação dos lusos. Não conheço um povo mais resiliente. Chapeau!

Bom Verão e até breve!