Sociedade

Segunda quinzena de julho sem alívio de restrições

Recolher obrigatório a partir 23 horas, alargado para 90 concelhos, passa a abranger 6,6 milhões de portugueses. Governo diz que não haverá alterações na estratégia até à próxima reunião do Infarmed, marcada para 27 de julho.


“Até dia 27 de julho não tomaremos nenhuma outra decisão, aguardando os resultados da reunião do Infarmed”. Foi o primeiro anúncio feito ontem por Mariana Vieira da Silva no final do Conselho de Ministros, afastando qualquer alívio de medidas na segunda quinzena de julho ou reabertura de bares e discotecas, colocada ontem em cima da mesa pelo secretário de Estado Duarte Cordeiro.

Apesar de sinais de abrandamento do aumento de casos, mais significativo em Lisboa, a incidência de novos casos continua a subir em todo o país e são agora 90 os concelhos considerados em risco elevado e muito elevado, onde a medida mais pesada é a limitação de circulação na via pública a partir das 23h e a obrigatoriedade de certificados para aceder a restaurantes ao fim de semana (exceto esplanadas).

O Governo mantém a regra e deixa em alerta mais 30 concelhos que, mantendo-se a atual trajetória, poderão passar também ao nível de risco na próxima semana. Alguns poderão sair, mas nos próximos 15 dias a maioria não deverá sair da lista – mesmo que a epidemia abrande, a incidência cumulativa a nível nacional supera os 370 casos por 100 mil habitantes, sendo superior a 880 mil casos por 100 mil habitantes no Algarve, pelo que os casos teriam de cair rapidamente – o que só aconteceu em períodos de confinamento – para os concelhos voltarem num curto espaço de tempo ao patamar dos 120 casos por 100 mil habitantes, que desbloquearia as restrições.

Com a avaliação desta semana, o recolher obrigatório, punível com coimas de 100 a 500 euros, passa a abranger 70% da população e no acesso a restaurantes a partir das 19h à sexta-feira e durante o fim de semana mantém-se assim a obrigatoriedade de apresentar o certificado digital ou teste negativo.

15 dias para conhecer novo calendário A esperança em torno de uma eventual reabertura do setor noturno tinha surgido numa entrevista ao Público do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares responsável pela coordenação da covid-19 na região.

Referindo-se a sinais positivos como o abrandamento na taxa de crescimento de casos em Lisboa, o que sugere que a região pode ser a primeira a atingir o pico de infeções nesta quarta vaga, Duarte Cordeiro admitiu que faz sentido pensar a reabertura de bares e discotecas, até como incentivo à vacinação dos mais jovens, colocando em cima da mesa como desbloqueador de restrições a meta de vacinação completa dos maiores de 60 anos, já atingida (71% das pessoas entre os 50 e os 64 anos têm as duas doses da vacina). “É uma meta muito importante – independentemente das outras como a imunidade de grupo – e que nos permite repensar as medidas restritivas face à introdução de medidas como as do certificado”, disse. “E a questão das discotecas, acho que já começa a ser altura de poderemos pensar abertamente nessa solução, tendo em conta que estamos já com este nível de vacinação”. Mariana Vieira da Silva disse que ainda não é o momento, mas antecipou que no final do mês, na reunião do Infarmed, será dado a conhecer o novo plano. “Esses novos instrumentos precisam de ser estabilizados e avaliados e no seio dessa reunião do próximo dia 27 teremos um novo calendário e conjunto de medidas para lidar com a pandemia”.

A atual estratégia, a segunda etapa do plano de desconfinamento, foi inicialmente apresentada pelo Governo com o horizonte de julho e agosto – na altura, com cenários-travão, que acabaram por ser agravados e aplicam-se agora num terço dos concelhos do país. Na semana passada, em entrevista ao Nascer do SOL, a ministra da Saúde admitiu que enquanto a incidência continuar a subir “é dificíl pensar em reaberturas”, indicando que um cenário de levantamento de restrições com base apenas na vacinação não estava fechado e mostrando apreensão com o levantamento de restrições no Reino Unido. Já a diretora-geral da Saúde admitiu o levantamento de restrições em função da vacinação, mas em setembro. Foi o Presidente da República a confirmar uma nova reunião no Infarmed, colocando agosto no centro da agenda.

Até ao final do mês e a essa reunião marcada para terça-feira, 27 de julho, há 15 dias em que os especialistas esperam começar a ver uma descida da incidência, não tendo sido entregue ao Governo uma previsão de quanto poderá ser atingido o pico de novos casos a nível nacional. “Ainda não sabemos quando o poderemos alcançar”, resumiu Mariana Vieira da Silva.

Os próximos dias serão decisivos para o perceber: o RT diminuiu, mas continua acima de 1 (1,15), sinal de que a epidemia mantém uma trajetória crescente, mas mais lenta. Também os doentes internados nos hospitais continuam a aumentar.

A região de Lisboa continua a representar a maioria dos internamentos, mas crescem noutros pontos do país, nomeadamente no Norte e no Algarve. Lisboa chegou a quinta-feira com 96 doentes internados em cuidados intensivos e, ao que o i apurou, já está a ser necessário transferir doentes críticos entre hospitais da região.

Questionada pelo i, a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo não esclareceu quantas transferências já tiveram lugar, sublinhando que os planos de contingência “são dinâmicos e ajustáveis às necessidades resultantes da realidade epidemiológica verificada” e que os hospitais da região continuam a dar resposta a doentes covid e não covid e a funcionar em rede.