Economia

"O turismo é a alma do país. Foi o setor que nos tirou da última crise"

João Fernandes ‘censura’ as medidas anunciadas de restrição anunciadas pelo Governo porque considerar que são tardias para a sua aplicação. Responsável defende que as mesmas deveriam ser anunciadas à terça-feira para dar tempo de serem implementadas. Mas prefere que sejam anunciadas em cima da hora do que fechar sector.


por Daniela Soares Ferreira e Sónia Peres Pinto

 

Alguma vez imaginou ver o Algarve assim?

Não, a expectativa que todos tínhamos até fevereiro – até porque o Algarve estava a crescer mais de 15% na época baixa – era atenuar a sazonalidade fora da época alta. As perspetivas eram que iríamos ter mais um ano recorde de procura nacional e internacional. Fomos apanhados completamente desprevenidos, nunca imaginei viver uma circunstância destas. Tomei posse no final de julho de 2018 e desafios não me faltaram. Passados oito dias tinha os incêndios de Monchique com o Reino Unido a dizer que o Algarve estava a arder e felizmente conseguimos ultrapassar essa adversidade. Tive o Brexit à porta com falências de três companhias aéreas que valiam 10% dos passageiros no aeroporto de Faro. Era o caso da Monarch, da Air Berlin e da Niki. Tive a greve dos motoristas de matérias perigosas com especial impacto no Algarve porque foi na Páscoa e a 15 de agosto, mas tudo isso a região conseguiu ultrapassar.

Foi o início de um mandato atribulado...

Ainda não tive outra realidade. Mas os resultados seja por via do impacto do referendo do Brexit, seja por via destas circunstâncias que referi foram sendo sempre ultrapassados. Recuperámos a procura britânica, a capacidade aérea e vemos projetos turísticos a aparecerem. Isso também é um sinal de esperança.

A Associação de Hotelaria de Portugal já veio admitir que a retoma ‘abortou’...

Há dois meses, a expectativa era de termos uma procura privilegiada, nomeadamente por parte do mercado britânico, já que a 17 de maio decidiu colocar-nos na lista verde e o Algarve é o principal destino em Portugal para os britânicos. Também nesse mesmo dia, a Alemanha tinha retirado Portugal da lista vermelha, logo o Algarve iria beneficiar. Ou seja, nas duas semanas seguintes, tivemos uma procura interessante que indiciava que iríamos ter um bom verão, a que se juntava a procura nacional que, o ano passado até foi superior ao ano recorde de 2019 nos meses de agosto, setembro e outubro. O Algarve teve mais dormidas de portugueses nesses meses face ao que tinha tido no período homólogo do ano anterior, sem pandemia. É claro que ao longo do ano teve um decréscimo, mas pensámos que íamos repetir essa realidade. Duas semanas depois assistimos a uma realidade completamente distinta, apareceu uma nova estirpe a evoluir muito rapidamente em Portugal e no Reino Unido. E vemos agora que se está a espalhar em toda a Europa.

Acha que essas decisões foram políticas?

Quando chegámos a meados de junho já com a realidade do fecho do corredor aéreo – porque nos retiraram da lista verde no caso britânico e com a Alemanha a reavaliar a situação de Portugal dias depois – percebemos que não iríamos ter o resultado que esperávamos. Com o avanço da vacinação e com a entrada do certificado digital, a esperança era que houvesse um verão diferente com a tal procura externa e interna. Mas fomos vendo que, independentemente desse consenso que foi estabelecido no Conselho Europeu, por exemplo, a Alemanha no dia 23 apresentou um relatório publicado do Instituto Robert Koch sobre a estirpe Delta, em que os principais países da entrada desta estripe na Alemanha eram o Afeganistão, Itália e Rússia. Mas passado dois dias veda o acesso a Portugal, não é muito lógico. O que parece à distância de quem não está envolvido nestas discussões é que houve uma penalização sobre a posição portuguesa de ter antecipado a possibilidade dos britânicos viajarem para Portugal.

E que coincidiu com a Champions...

O que já percebemos é que a Champions, pelos dados que são públicos, não foi o foco para a proliferação da estirpe Delta, até porque tem um foco mais expressivo em Lisboa. Parece-me que o Governo britânico já tinha premeditado esta medida, no sentido que durante o período de férias intermédios permitiam às famílias com miúdos em idades escolares viajarem para fora, terem algum desafogo até à data que tinham previsto acabar com essa liberdade. Parece-me que é mais lógico entender isto à luz de uma medida de política interna, mais do que uma questão diplomática entre países. Agora apanhou toda a gente de surpresa porque os gregos estavam à espera de ver as suas ilhas a migrarem para o corredor verde, os espanhóis com as Canárias e as Baleares com essa expectativa e nós de permanecermos. E a verdade é que nem Malta que tinha, na altura, nove casos por cem mil habitantes foi incluída na lista verde. Houve uma opção claramente política, o que criticamos é que foi mascarada de um problema que supostamente existia em Portugal e que ainda hoje está por descobrir depois de rastreios epidemiológicos, em que não identificaram nenhum grande foco de uma estirpe do Nepal. Identificam-se sim a estirpe Delta.

Ao mesmo tempo, Portugal tem cada vez mais restrições. Não desincentiva a procura?

Há uma coisa que foi menos conseguida por parte do Governo que é anunciar à quinta-feira uma medida que é nova, que implica esclarecimento, tempo de adaptação, à sexta publicar as regras e os esclarecimentos e entrar em vigor no sábado, como aconteceu na semana passada. Esse tempo de resposta como o ministro da Economia já veio reconhecer é desadequado. Ainda assim, o caminho que o Governo português tem vindo a trilhar, assim como muitos outros Governos, não é apenas de restringir e de confinar. Apresenta uma medida que permite casar com os instrumentos que hoje temos para manter a atividade económica e não fechá-la, mas garantindo saúde. Isso são boas medidas, acho é que foram apresentadas muito em cima da hora. Tenho falado com inúmeros restaurantes e alojamentos turísticos que, numa primeira fase, estranharam as medidas, tiveram dificuldades em perceber como é que as iam implementar e agora são os seus principais defensores porque perceberam que a contraproposta a essa situação era fechar.

Mas assistiu-se a cancelamentos?

O Conselho de Ministros deveria passar para terça-feira porque daria tempo para que no fim de semana, que é o período de maior atividade económica no setor, se entendesse melhor as medidas instituídas. Mas também percebo que se as medidas instituídas entrassem em vigor na segunda-feira teríamos perdido o fim de semana porque toda a atividade turística referente à restauração teria de fechar da parte da tarde, os jantares não se poderiam ter realizado, em boa parte dos municípios no Algarve e, aí, muita gente não se deslocaria ao Algarve porque como já dizia Miguel Torga é ‘um dia de férias na pátria’. Teríamos provavelmente sido mais penalizados se as medidas não tivessem entrado em vigor no sábado.

Qual foi o feedback dos empresários?

Mal saíram as medidas o feedback foi um e depois de ter passado o fim de semana foi outro. Ou seja, é preciso ter um tempo de adaptação, de transposição para a operação para se encontrar as reais dificuldades e perceber se conseguimos ou não. Aquilo que a maioria de pequenos restaurantes ou grandes restaurantes, de alojamento local ou hotelaria classificada me reporta é que o início foi atribulado, mas passado algum tempo preferem isso do que terem restrições para fecharem mais cedo. Encontrámos soluções em que foi possível pôr em prática estas medidas e não fecharem. Foi encontrado um instrumento, aliás já nos conselhos europeus tinha sido discutido isso como instrumento para viajar para outros países, para desconfinar. Este também deve ser o instrumento para alargar os horários de funcionamento na restauração e até é uma medida de segurança porque não concentra toda a gente a jantar no mesmo período. Utilizando este instrumento de certificado digital e dos testes rápidos é possível com segurança alargar mais o horário. É possível provavelmente abrir discotecas e bares, numa fase posterior e isso é obviamente muito importante.

Os clientes reagiram bem as essas obrigações?

Fiz questão de ir almoçar a um pequeno restaurante no sábado, antes de a medida entrar em vigor (entrou às 15h30) para perceber como é que as pessoas se estavam a preparar, se estavam ansiosas com a situação e fui a outro restaurante no domingo, na praia, e não encontrei qualquer dificuldade. Não posso tirar a parte pelo todo, mas pelo que me foi reportado, alguns optaram por uma solução intermédia: tenho esplanada, aí posso funcionar normalmente e tenho de ter apenas em conta o horário de funcionamento, já no interior deixo entrar apenas as pessoas que tenham o certificado digital ou o comprovativo de teste. Quando se fala da ideia de que os profissionais da hotelaria e da restauração passaram a ser forças de segurança ou profissionais de saúde é bom lembrar que o que estamos a dizer é que passámos esse papel ao funcionário do restaurante para ver o auto teste se tem um ou dois riscos. O teste é feito pelo próprio, a questão que se coloca é se o teste é feito no momento, se é do próprio e daí ser pedido ao empregado para fazer essa verificação.

Fala-se em violação de dados pessoais...

Por isso é que digo que o tempo ajuda a esclarecer as coisas. Por exemplo, no fim de semana passado, fiz o teste, a minha esposa também. O teste foi verificado pelo responsável do restaurante, mas não ficou com o meu registo. Se não tivesse levado o teste, a responsabilidade também era minha porque me era imputado uma multa caso não conseguisse provar que estava em conformidade, o que não concordo é com a aplicação de multas ao responsável do hotel ou do restaurante. E porquê? Quer no tempo que foi dado para a adaptação, quer na medida de aplicar multas ao hotel e ao restaurante, acho incorreto porque a responsabilidade de fazer o teste não é do restaurante, é individual. Todos temos de ter consciência que o nosso comportamento individual é o que dita o resultado coletivo. Não podemos culpar terceiros por aquilo que é da nossa responsabilidade. E o cliente que é responsável por fazer o teste se não o fizer apanha uma multa substancialmente inferior ao do responsável do restaurante. É bom percebemos que os estrangeiros que nos procuram também vão olhar para nós para ver se implementamos ou não as medidas que estão espalhadas um pouco por toda a Europa. E os próprios portugueses: têm mais ou não confiança em ir para o Algarve, sabendo que se está a aplicar protocolos sanitários, regras que garantem mais segurança e mais confiança a todos.

Mas também uma região penalizada por ter uma fiscalização mais apertada, principalmente em alguns concelhos...

As regras são conhecidas quanto à impossibilidade de nos concelhos de incidência elevada e muito elevada não se poder circular na via pública a partir das 23h. Obviamente tem de haver um equilíbrio e a fadiga que todos já temos ao fim de quase um ano e meio não gera sempre as melhores soluções ou as melhores respostas no momento. Todos temos de ter alguma parcimónia na avaliação de pequenos casos. De grosso modo não tem havido, no Algarve, situações críticas em relação ao cumprimento de regras, quer por parte de quem nos visita, quer por parte de quem oferece o serviço. Pontualmente acontecem problemas como em todo o lado do mundo.

Como está a situação do modelo de avaliação de risco? O Algarve continua a ser prejudicado?

Continua na mesma. É óbvio para qualquer pessoa que a população flutuante distorce a forma de avaliar o risco. Se tenho um caso positivo, por exemplo, em Albufeira com uma população de 40 mil habitantes, o meu rácio final é uma coisa. Se tenho dois casos positivos para uma população de 40 mil habitantes, mais 150 mil habitantes flutuantes o impacto é outro. E quanto mais visitantes mais casos positivos existem e o que acontece no território é que o denominador desse rácio triplica, quadruplica, etc., ou seja, os casos de visitantes são considerados nos sítios onde foi detetado e onde estava alojado nos últimos dois dias, o que distorce completamente a realidade de risco do Algarve. No ano passado tínhamos bastante visitantes, mas como não tínhamos uma estirpe que se propagava tão rapidamente não houve tanto esse problema.

Há zonas mais prejudicadas do que outras...

O problema não é da propagação, o problema é a distorção do número de rácio. Chamei a atenção para duas coisas: uma foi corrigida pelo Governo: quando temos um caso, por exemplo, em Alcoutim que tem dois mil habitantes, o impacto numa lógica de x por cem mil habitantes é enorme e com três casos estávamos acima dos 120 mil por cem mil habitantes. Isso não era lógico porque eram agregados familiares. É muito mais fácil isolar pessoas numa população de duas mil porque todos se conhecem. O Governo atendeu e corrigiu a forma de aplicar as medidas restritivas, com bons resultados. No Algarve, os concelhos agora com menor incidência são Aljezur e Alcoutim. O que gostaríamos de ver e que já foi afirmado pelo primeiro-ministro que iria corrigir essa realidade diz respeito aos concelhos com uma população flutuante muito elevada. Como é muito difícil estimar em tempo real a população flutuante, o que proponho porque já vi que é possível do ponto de vista da sua própria operacionalização, é que os casos positivos sejam considerados na origem. No casos dos portugueses é mais fácil de verificar, nos estrangeiros teria que haver autorização por parte de uma entidade internacional. Mas não vejo essa medida a ser aplicada.

A imagem do Algarve enquanto destino turístico pode ser afetada?

Tem impacto no momento. Portugal não deixará de ser considerado o terceiro país mais seguro do mundo, até porque, as provas dadas são muitas. O Algarve que tem pouco mais de 4% da população portuguesa tem cerca de 2% dos óbitos, 3% dos casos desde o início da pandemia. É claramente uma região que soube prevenir e controlar a doença melhor que a média. Quando olhamos para a capacidade instalada do ponto de vista de cuidados de saúde, em janeiro tínhamos 200 pessoas internadas, 50 em UCI, agora temos 50 internados e 16 em UCI. Todos os países mais desenvolvidos já passaram pela situação de serem os piores do mundo e depois melhoram. Obviamente que, quando olhamos para a condição de um país num determinado momento, e vimos que está em alerta, eventualmente retira-nos a confiança para visitar esse território numa primeira instância, mas não nos impede de voltar a ter uma perceção diferente quando a situação melhorar. Isso aconteceu claramente em Portugal. Entre janeiro e fevereiro éramos notícia por sermos o país com piores indicadores na pandemia, a seguir passámos a ser o melhor da Europa. Por isso, estivemos na lista verde britânica até de forma isolada, sem concorrência e com todos a quererem vir para cá. Isso é uma boa demonstração de que os turistas estão esclarecidos sobre essa realidade. Quando tudo isto passar não retirará a segurança que cada destino já conquistou. Não somos um destino com criminalidade violenta, não há intempéries que provocam situações graves em relação à segurança das pessoas. Somos um destino, em que até a própria população, ajuda a transmitir confiança a quem cá está ou quem nos visita. Isso não vamos perder e até vai sair reforçado porque as pessoas vão procurar cada vez mais destinos que lhes ofereçam essa condição de segurança. Isso estava a acontecer antes da pandemia. Portugal estava a ser o reduto para muitos reformados europeus até com base no estatuto de residente não habitual, de muitos investidores que vinham com visto gold, mas também estava a ser alvo de procura de muitos casais jovens que optavam por vir viver para Portugal. No Algarve havia muitos casais vindos do Brasil, dos EUA, de Itália, etc.

Julho já será melhor? Como estão as reservas?

Apesar de não termos os dados do INE e faço essa crítica porque poderiam ser disponibilizados de forma diferente – têm dois meses de desfasamento – até maio, o que podemos retratar não é nada simpático: até maio de 2019 (num ano normal) tivemos mais de seis milhões de dormidas, até maio de 2020 tivemos 1,9 milhões de dormidas e até maio de 2021 tivemos 907 mil dormidas. Isso dá bem o sinal do que foi o arranque do ano, mesmo quando comparado com o ano anterior. Junho foi um mês bipolar, tivemos uma primeira semana marcada por forte afluência britânica e por um ou outro fim de semana com maior procura, mas depois a segunda quinzena já foi marcada por uma realidade diferente. No ano passado tivemos – sobretudo a partir de agosto e não tanto na última quinzena de julho como era habitual – uma forte procura nacional que suplantou o ano recorde de 2019, tanto em agosto, como em setembro e até em outubro. Os portugueses que não viajaram para fora e muitos deles se calhar nem tinham previsto fazer grandes férias estavam a sair do confinamento e optaram pelo Algarve. Obviamente que, ao longo do ano, perdemos dormidas. Este ano, o que vemos? Junho acabou por ser relativamente fraco. Aliás, os dados da AHETA retratam uma taxa de ocupação em hotel de cerca de 43%. E quando falamos de hotelaria é porque é o indicador que está disponível. Porque se formos falar de golfe, esteve praticamente fechado desde o início da pandemia. Se formos falar de bares e discotecas estão fechados desde o início da pandemia. Se formos falar de parques aquáticos têm estado intermitentemente fechados ou abertos em função de regras ou da procura externa porque são muito centrados na procura externa. Os congressos e eventos tiveram um longo inverno desde o início da pandemia. Este impacto não é igual em todos os segmentos da atividade. Todos os segmentos que dependem de procura externa ou que se realizam em grupos – o caso, por exemplo, das guias intérpretes, do transporte de turistas em autocarro – foi claramente penalizado, ainda mais que hotelaria e restauração.

O setor satélite...

Claro. Agora, qual é a nossa expectativa? É que em agosto haja uma procura interessante portuguesa. Já há bons níveis de reserva para o mercado nacional que, eventualmente, com esta mais recente decisão britânica de permitir a viagem de vacinados e dos acompanhantes menores para os países da lista âmbar, pode aumentar. Temos uma oportunidade, a partir de 19 de julho, de podermos receber novamente este grande mercado emissor. Mas já não nos atrevemos a fazer prognósticos. Todos os dias há novas notícias e novos contextos. Mas à partida tudo aquilo que temos como presente é que agosto não será a oportunidade que estávamos à espera. Julho não foi um mês com um desempenho nem sequer próximo do que é habitual. Habitualmente temos 78%, 80% de ocupação e agosto normalmente temos muita procura. Não me parece que agosto vá ter o mesmo desempenho que teve no ano passado. Vamos aguardar porque a vinda de britânicos até pode melhorar significativamente, mas o verão não vai ter um desempenho, no seu todo, expressivo. Isso é claro porque já passou junho, já passou praticamente julho e só agosto não chega. De setembro em diante há bons indicadores de reservas também no golfe. A esperança que temos é que o processo de vacinação nessa altura no espaço europeu já esteja bastante mais avançado. Prevê-se que no espaço europeu se chegue aos 70% de vacinação completa da população adulta no espaço europeu, que é já mais interessante.

A AHP, a AHRESP e outras associações defenderam a vacinação junto dos profissionais do setor. Daria mais confiança?

Acompanhei essa proposta e até disse que essa discriminação positiva devia seguir a mesma lógica que seguiu na educação, saúde ou forças de segurança. O turismo é uma atividade de pessoas para pessoas e aqueles que estão na linha da frente do turismo e que contactam com muita gente deveriam ter tido essa oportunidade. Todos sabemos que as vacinas não dão para tudo mas temos que nos lembrar que, no espaço europeu, somos o país que tem melhor desempenho na vacinação. São é poucas. O que percebemos em relação ao Algarve é que foi feito um esforço sobretudo, nestas últimas duas semanas, para recuperar caminho que faltava percorrer. A vacinação é claramente o instrumento mais forte para o efeito tampão das situações graves da pandemia.

Fala da importância dos turistas nacionais, mas os portugueses não têm sido ‘maltratados’ no Algarve?

Há dois preconceitos que às vezes são repetidos e com os quais não concordo. Um é esse e o outro é de que o Algarve é muito caro para os portugueses. O Algarve tem oferta para todos os gostos e para todas as bolsas. Se olharmos para os números antes da pandemia e até para os números da pandemia há uma expressão clara da vontade dos portugueses de conhecerem o Algarve, de irem para o Algarve e até de conhecerem o Algarve com outras motivações de visita e fora da época alta, o que é uma coisa que não acontecia nos últimos anos.

Há quem tenha a experiência de ser servido em restaurantes onde ninguém fala português...

É verdade que há áreas de atividade que são mais direcionadas para os estrangeiros porque são eles que as procuram. Se num rent-a-car, 99% da procura é estrangeira, a tendência da resposta é estar na língua de quem procura esse serviço. Mas, por exemplo, o que acontecia há uns anos de só haver um menu na língua inglesa, hoje já não existe. Temos muitos empresários que são estrangeiros. Temos 92 mil estrangeiros residentes – a maior comunidade é de britânicos – numa população de 440 mil habitantes. Temos realmente muitos estrangeiros que às vezes se sentem tão confortáveis na região que não aprendem a língua. Temos feito um esforço grande na sensibilização não só de quem nos visita mas também de quem recebe que tem direito a ser tratado com respeito. Ir de férias não é sinónimo de tratar mal os outros e, por outro lado, quem recebe, a primeira coisa que deve oferecer é um sorriso. E aí, os portugueses em geral são muito acolhedores. É bom lembrar que muitos que viajam de férias para o Algarve não são atendidos por algarvios, mas por pessoas que, naquele momento estão a trabalhar naquele território e que são muitíssimo bem-vindos, são muito necessários para desenvolver os picos da atividade. No entanto, não têm, obviamente, o mesmo amor à terra e, às vezes, a mesma paciência para situações menos simpáticas.

Apesar de o Algarve ter ofertas para todos os gostos, o mercado de luxo tem uma grande expressão...

Sim, principalmente, no período em que tivemos o corredor aéreo britânico aberto. Essa realidade de os hotéis cinco estrelas terem tido uma procura mais predominante do que outros segmentos de oferta de alojamento tinha a ver com o facto de que um britânico para viajar para Portugal tinha que fazer três testes. Se considerarmos o custo de testes para uma família, podíamos estar a falar de 1.000 a 1.500 euros para quatro pessoas para aquele período de férias, adicional àquilo que iria gastar na viagem, no alojamento e no próprio destino. Portanto, o segmento de procura que mais teve possibilidade de viajar era um segmento alto e, por isso, procurou mais o cinco estrelas, é um facto.

Alguns destinos também foram bloqueados.

Sim, no verão passado também se notou muito isso. Até por uma realidade empírica. Vimos muitos carros de alta cilindrada e de alto valor a circular no Algarve, mais até que o normal. E percebia-se que eram muitas vezes portugueses que não tiveram oportunidade de viajar para fora do país e que habitualmente o fazem e que optaram – e muito bem – por redescobrir o Algarve. São pessoas que muitas vezes vão ao Algarve durante o período de menor procura porque têm casa secundária ou porque têm essa possibilidade mas que durante o verão, também pelas circunstâncias que conhecemos, foram mais para sul que é mais convidativo.

Os apoios do Governo foram suficientes para este setor?

O setor é unânime em reconhecer que há apoios que foram estruturantes. O caso do layoff, do Apoiar, da linha de apoio às microempresas para a tesouraria... Em todas as situações houve sempre um delay entre a publicação das medidas e o efeito das próprias medidas, mas que tem vindo a ser corrigido, no entanto, houve esse desfasamento temporal de resposta. As medidas têm sido bem desenhadas, a própria Confederação do Turismo reconhece isso. Toda a gente no setor reclama por medidas com maior componente não reembolsável e é natural que reclame porque os empresários, com o acumular de perdas e com poucas perspetivas de uma retoma rápida, já não têm capacidade de contrair empréstimos. Há agora um novo pacote de medidas que são fundamentais e foram no sentido do que o setor reclamava: medidas de capitalização, de reestruturação da dívida que permitem ultrapassar a dificuldade de, em termos europeus, não ser possível prolongar as moratórias.

Há um plano de recuperação só para o turismo. Em que patamar está?

Estas medidas estão no Plano Reativar Turismo, que está muitíssimo bem desenhado. Mas, mais uma vez, o que é preciso é que as medidas cheguem ao terreno. As medidas estão bem desenhadas, são boas apostas, nomeadamente a confirmação de que é preciso um apoio específico para uma região tão afetada como o Algarve – tão afetada porque depende em grande parte do turismo – e tem um pacote de medidas chamado Mais Algarve que é exatamente para responder às principais questões do turismo na região. Isso obviamente que me agrada.

Como sobrevive o Algarve sem turismo? É a alma da região...

O turismo é a alma do país. Foi o setor que nos tirou da última crise, que reabilitou cidades. Lisboa é um bom exemplo disso. Cidades que estavam ao abandono em muitas zonas históricas. É um setor que, nos últimos oito anos, antes da pandemia cresceu sempre muito acima do PIB nacional. É um setor que nos permite equilibrar a balança comercial externa. O que precisamos não é de menos turismo, é mais de outros setores. Às vezes fico um pouco reticente quando queremos nivelar por baixo. Em vez de olhar para outros setores e ver que nesses há a ambição de serem tão bons como se é no turismo, a ideia é ‘se calhar temos que reduzir turismo para estarmos ao mesmo nível’.

Há várias vozes críticas, não tanto no Algarve, mas em Lisboa e no Porto, que diziam que há turistas a mais...

Há aqui duas questões diferentes. Não há ninguém no turismo que não concorde com a necessidade de diversificar a base económica. Isso até é uma vantagem para o próprio turismo. Se tivermos um setor da saúde mais desenvolvido, isso é mau para o turismo ou é mais uma oportunidade? O turismo, por cada euro de valor acrescentado bruto que cria, gera 0,54 euros noutros setores. Tem até o efeito de arrastamento de outros setores. E pode ganhar com outros setores se as tecnologias da informação e comunicação proliferarem. Precisamos é de ter esses setores a olharem para o turismo como um exemplo a seguir e a desenvolverem-se com exigência e com competitividade internacional que é isso que o setor do turismo faz. Mas o próprio setor do turismo precisa que haja outros setores. Outra situação diferente é esta coisa da turistificação. Hoje, se calhar, muitas das pessoas que colocaram essas questões estão a refletir sobre o impacto da falta do turismo. Reparem, o turismo, quando muita gente falava sobretudo de fenómenos mais populistas, de novos muros entre países, vimos todos com muito receio essa evolução. E o que é que o turismo faz? Aproxima a diferença. O turismo promove o encontro entre pessoas que são de origens diferentes, de etnias diferentes, de regiões diferentes, de orientações sexuais diferentes, culturais, o que for, diferente e promove um clima de hospitalidade. Atenua preconceitos. Como tem turismo, como está habituado a receber a diferença, é mais cosmopolita, é mais humano também.

Acaba por atenuar as diferenças.

Percebe que a diferença é uma vantagem, não é uma desvantagem. É um prazer conhecer alguém que tem alguma coisa para nos contar de novo, que nos pode ensinar alguma coisa e contarmos nós também coisas. O turismo tem esse papel importantíssimo e nós não devemos olhar para quem nos visita como um invasor. Devemos abrir os braços e recebê-lo bem. Devemos sim, nesse processo, também gerir impactos. O turismo não deixa de ter impactos. Não há nenhuma atividade económica desenvolvida pelo homem que não tenha impactos.

Tem que haver um equilíbrio.

Tem que haver um equilíbrio e tem que haver também um trabalho que todos fazemos de diversificar motivações de visita. Por exemplo, no Algarve, aquilo que estava a dizer de atenuar sazonalidade gerando procura para o turismo para o interior, procura fora de época...

Aplicar as taxas turísticas.... Aplicam-se em Lisboa, no Porto, há zonas do Algarve que aplicam..

Já vários municípios aplicam.

Isso não atenua as tais diferenças? Em Lisboa usam isso para as taxas de saneamento, recuperação do Palácio da Ajuda, pilar da ponte...

A taxa não é um imposto e, por isso, tem que ter regras muito específicas quanto às contrapartidas mas isso são questões mais locais. Lisboa – e bem – aproveita essa receita para beneficiar a cidade. No Algarve a aplicação de taxas não tem o mesmo impacto que tem numa cidade como Lisboa. É importante lembrar isso. Num destino que visito, como Lisboa, numa cidade em que vou eu e a minha namorada ou vou eu em trabalho e passo um fim de semana, são dois dias, duas pessoas. A taxa tem um impacto sobre o custo total. Outra coisa é ir eu, a minha mulher e os meus dois filhos durante sete, 15 dias para um destino. A taxa tem um impacto muito diferente no peso total do meu alojamento. Depois, se virmos isto no verão ou no inverno, os preços do alojamento oscilam muito mais no Algarve do que oscilam numa cidade como Lisboa. Posso, em algumas situações, pagar uma percentagem do meu custo total em taxa muito superior no inverno, por exemplo, no Algarve, do que pago no verão no Algarve. Estas questões foram atendidas e, felizmente, a maioria dos municípios ajustou as suas taxas a esta realidade. Também é verdade que a maioria delas não entraram praticamente em funcionamento porque foram suspensas durante o período da pandemia e ainda não estão na maioria dos casos a vigorar. Mas só o IVA turístico gerado já é uma receita que cobre largamente muitos dos gastos.

Tem ideia de quantos estabelecimentos não vão voltar a abrir portas ou ainda estão em stand by a ver se conseguem reabrir?

Até agora temos tentado monitorizar essa situação embora ela não esteja tão disponível como gostaríamos em relação às insolvências e falências que no Algarve acontecem e tê-las desagregadas por atividade económica (CAE). Obtivemos sim foi informação no seu todo da atividade do Algarve. O que nos foi reportado é que não há um aumento significativo de insolvências e falências até agora no Algarve. Isso não quer dizer que o risco não esteja aí à porta. Por isso é que estou a dizer que estas medidas que o Governo prevê desta recapitalização e reestruturação da dívida, com moratórias a terminar em setembro, são muito importantes porque o acumulado de prejuízos teve um efeito tampão grande com cerca de 320 milhões de euros de apoios estatais para o Algarve até agora para empresas e emprego. É um volume bastante robusto mas isso não quer dizer que a seguir a setembro não venha um inverso que é especialmente penoso para o Algarve.

Isso depois acaba por ter impacto no desemprego. Dados do IEFP e do INE dizem que o Algarve é das regiões mais afetadas neste aspeto mas depois medidas como o layoff acabam por mascarar um pouco estes números...

Menos no Algarve. Aliás, um dos problemas no Algarve foi que, como há a sazonalidade, o início da contratação para a operação da época alta acontece normalmente ali em março. Ora, a pandemia chegou ao Algarve em março do ano passado. Se formos ver os números do desemprego, eles chegaram, apesar de tudo, a níveis muito elevados. Em janeiro, deste ano tínhamos cerca de 33 mil desempregados. Para uma população ativa de pouco mais de 200 mil habitantes, é um número muito elevado. Mas podemos comparar ciclos: ainda assim, ficou bastante abaixo daquilo que aconteceu nos anos pós-troika. De facto, os mais de 320 milhões que foram utilizados para garantir a capacidade produtiva das empresas e o emprego, apesar de no Algarve não terem tido o mesmo efeito que na média nacional enquanto tampão ao desemprego – tanto que foi a região mais penalizada pelo desemprego por essa curva sazonal – quando a pandemia chega era o início da contratação, portanto, boa parte dessas pessoas não chegaram a ser contratadas. Houve esse efeito, depois no verão foram contratados de forma muito temporal, com um prazo muito reduzido e depois voltámos ao inverno e chegámos ao pico do número de desempregados em janeiro deste ano com 33 mil desempregados que é um número muito alto. Esse tem sido um dos principais impactos visíveis tangíveis no Algarve. O número de desempregados foi reduzindo substancialmente até maio. Em maio até tivemos uma grande procura e oferta de emprego por causa do corredor aéreo com o Reino Unido.

Alguma vez imaginou ver o Algarve assim?

Não, a expectativa que todos tínhamos até fevereiro – até porque o Algarve estava a crescer mais de 15% na época baixa – era atenuar a sazonalidade fora da época alta. As perspetivas eram que iríamos ter mais um ano recorde de procura nacional e internacional. Fomos apanhados completamente desprevenidos, nunca imaginei viver uma circunstância destas. Tomei posse no final de julho de 2018 e desafios não me faltaram. Passados oito dias tinha os incêndios de Monchique com o Reino Unido a dizer que o Algarve estava a arder e felizmente conseguimos ultrapassar essa adversidade. Tive o Brexit à porta com falências de três companhias aéreas que valiam 10% dos passageiros no aeroporto de Faro. Era o caso da Monarch, da Air Berlin e da Niki. Tive a greve dos motoristas de matérias perigosas com especial impacto no Algarve porque foi na Páscoa e a 15 de agosto, mas tudo isso a região conseguiu ultrapassar.

Foi o início de um mandato atribulado...

Ainda não tive outra realidade. Mas os resultados seja por via do impacto do referendo do Brexit, seja por via destas circunstâncias que referi foram sendo sempre ultrapassados. Recuperámos a procura britânica, a capacidade aérea e vemos projetos turísticos a aparecerem. Isso também é um sinal de esperança.

A Associação de Hotelaria de Portugal já veio admitir que a retoma ‘abortou’...

Há dois meses, a expectativa era de termos uma procura privilegiada, nomeadamente por parte do mercado britânico, já que a 17 de maio decidiu colocar-nos na lista verde e o Algarve é o principal destino em Portugal para os britânicos. Também nesse mesmo dia, a Alemanha tinha retirado Portugal da lista vermelha, logo o Algarve iria beneficiar. Ou seja, nas duas semanas seguintes, tivemos uma procura interessante que indiciava que iríamos ter um bom verão, a que se juntava a procura nacional que, o ano passado até foi superior ao ano recorde de 2019 nos meses de agosto, setembro e outubro. O Algarve teve mais dormidas de portugueses nesses meses face ao que tinha tido no período homólogo do ano anterior, sem pandemia. É claro que ao longo do ano teve um decréscimo, mas pensámos que íamos repetir essa realidade. Duas semanas depois assistimos a uma realidade completamente distinta, apareceu uma nova estirpe a evoluir muito rapidamente em Portugal e no Reino Unido. E vemos agora que se está a espalhar em toda a Europa.

Acha que essas decisões foram políticas?

Quando chegámos a meados de junho já com a realidade do fecho do corredor aéreo – porque nos retiraram da lista verde no caso britânico e com a Alemanha a reavaliar a situação de Portugal dias depois – percebemos que não iríamos ter o resultado que esperávamos. Com o avanço da vacinação e com a entrada do certificado digital, a esperança era que houvesse um verão diferente com a tal procura externa e interna. Mas fomos vendo que, independentemente desse consenso que foi estabelecido no Conselho Europeu, por exemplo, a Alemanha no dia 23 apresentou um relatório publicado do Instituto Robert Koch sobre a estirpe Delta, em que os principais países da entrada desta estripe na Alemanha eram o Afeganistão, Itália e Rússia. Mas passado dois dias veda o acesso a Portugal, não é muito lógico. O que parece à distância de quem não está envolvido nestas discussões é que houve uma penalização sobre a posição portuguesa de ter antecipado a possibilidade dos britânicos viajarem para Portugal.

E que coincidiu com a Champions...

O que já percebemos é que a Champions, pelos dados que são públicos, não foi o foco para a proliferação da estirpe Delta, até porque tem um foco mais expressivo em Lisboa. Parece-me que o Governo britânico já tinha premeditado esta medida, no sentido que durante o período de férias intermédios permitiam às famílias com miúdos em idades escolares viajarem para fora, terem algum desafogo até à data que tinham previsto acabar com essa liberdade. Parece-me que é mais lógico entender isto à luz de uma medida de política interna, mais do que uma questão diplomática entre países. Agora apanhou toda a gente de surpresa porque os gregos estavam à espera de ver as suas ilhas a migrarem para o corredor verde, os espanhóis com as Canárias e as Baleares com essa expectativa e nós de permanecermos. E a verdade é que nem Malta que tinha, na altura, nove casos por cem mil habitantes foi incluída na lista verde. Houve uma opção claramente política, o que criticamos é que foi mascarada de um problema que supostamente existia em Portugal e que ainda hoje está por descobrir depois de rastreios epidemiológicos, em que não identificaram nenhum grande foco de uma estirpe do Nepal. Identificam-se sim a estirpe Delta.

Ao mesmo tempo, Portugal tem cada vez mais restrições. Não desincentiva a procura?

Há uma coisa que foi menos conseguida por parte do Governo que é anunciar à quinta-feira uma medida que é nova, que implica esclarecimento, tempo de adaptação, à sexta publicar as regras e os esclarecimentos e entrar em vigor no sábado, como aconteceu na semana passada. Esse tempo de resposta como o ministro da Economia já veio reconhecer é desadequado. Ainda assim, o caminho que o Governo português tem vindo a trilhar, assim como muitos outros Governos, não é apenas de restringir e de confinar. Apresenta uma medida que permite casar com os instrumentos que hoje temos para manter a atividade económica e não fechá-la, mas garantindo saúde. Isso são boas medidas, acho é que foram apresentadas muito em cima da hora. Tenho falado com inúmeros restaurantes e alojamentos turísticos que, numa primeira fase, estranharam as medidas, tiveram dificuldades em perceber como é que as iam implementar e agora são os seus principais defensores porque perceberam que a contraproposta a essa situação era fechar.

Mas assistiu-se a cancelamentos?

O Conselho de Ministros deveria passar para terça-feira porque daria tempo para que no fim de semana, que é o período de maior atividade económica no setor, se entendesse melhor as medidas instituídas. Mas também percebo que se as medidas instituídas entrassem em vigor na segunda-feira teríamos perdido o fim de semana porque toda a atividade turística referente à restauração teria de fechar da parte da tarde, os jantares não se poderiam ter realizado, em boa parte dos municípios no Algarve e, aí, muita gente não se deslocaria ao Algarve porque como já dizia Miguel Torga é ‘um dia de férias na pátria’. Teríamos provavelmente sido mais penalizados se as medidas não tivessem entrado em vigor no sábado.

Qual foi o feedback dos empresários?

Mal saíram as medidas o feedback foi um e depois de ter passado o fim de semana foi outro. Ou seja, é preciso ter um tempo de adaptação, de transposição para a operação para se encontrar as reais dificuldades e perceber se conseguimos ou não. Aquilo que a maioria de pequenos restaurantes ou grandes restaurantes, de alojamento local ou hotelaria classificada me reporta é que o início foi atribulado, mas passado algum tempo preferem isso do que terem restrições para fecharem mais cedo. Encontrámos soluções em que foi possível pôr em prática estas medidas e não fecharem. Foi encontrado um instrumento, aliás já nos conselhos europeus tinha sido discutido isso como instrumento para viajar para outros países, para desconfinar. Este também deve ser o instrumento para alargar os horários de funcionamento na restauração e até é uma medida de segurança porque não concentra toda a gente a jantar no mesmo período. Utilizando este instrumento de certificado digital e dos testes rápidos é possível com segurança alargar mais o horário. É possível provavelmente abrir discotecas e bares, numa fase posterior e isso é obviamente muito importante.

Os clientes reagiram bem as essas obrigações?

Fiz questão de ir almoçar a um pequeno restaurante no sábado, antes de a medida entrar em vigor (entrou às 15h30) para perceber como é que as pessoas se estavam a preparar, se estavam ansiosas com a situação e fui a outro restaurante no domingo, na praia, e não encontrei qualquer dificuldade. Não posso tirar a parte pelo todo, mas pelo que me foi reportado, alguns optaram por uma solução intermédia: tenho esplanada, aí posso funcionar normalmente e tenho de ter apenas em conta o horário de funcionamento, já no interior deixo entrar apenas as pessoas que tenham o certificado digital ou o comprovativo de teste. Quando se fala da ideia de que os profissionais da hotelaria e da restauração passaram a ser forças de segurança ou profissionais de saúde é bom lembrar que o que estamos a dizer é que passámos esse papel ao funcionário do restaurante para ver o auto teste se tem um ou dois riscos. O teste é feito pelo próprio, a questão que se coloca é se o teste é feito no momento, se é do próprio e daí ser pedido ao empregado para fazer essa verificação.

Fala-se em violação de dados pessoais...

Por isso é que digo que o tempo ajuda a esclarecer as coisas. Por exemplo, no fim de semana passado, fiz o teste, a minha esposa também. O teste foi verificado pelo responsável do restaurante, mas não ficou com o meu registo. Se não tivesse levado o teste, a responsabilidade também era minha porque me era imputado uma multa caso não conseguisse provar que estava em conformidade, o que não concordo é com a aplicação de multas ao responsável do hotel ou do restaurante. E porquê? Quer no tempo que foi dado para a adaptação, quer na medida de aplicar multas ao hotel e ao restaurante, acho incorreto porque a responsabilidade de fazer o teste não é do restaurante, é individual. Todos temos de ter consciência que o nosso comportamento individual é o que dita o resultado coletivo. Não podemos culpar terceiros por aquilo que é da nossa responsabilidade. E o cliente que é responsável por fazer o teste se não o fizer apanha uma multa substancialmente inferior ao do responsável do restaurante. É bom percebemos que os estrangeiros que nos procuram também vão olhar para nós para ver se implementamos ou não as medidas que estão espalhadas um pouco por toda a Europa. E os próprios portugueses: têm mais ou não confiança em ir para o Algarve, sabendo que se está a aplicar protocolos sanitários, regras que garantem mais segurança e mais confiança a todos.

Mas também uma região penalizada por ter uma fiscalização mais apertada, principalmente em alguns concelhos...

As regras são conhecidas quanto à impossibilidade de nos concelhos de incidência elevada e muito elevada não se poder circular na via pública a partir das 23h. Obviamente tem de haver um equilíbrio e a fadiga que todos já temos ao fim de quase um ano e meio não gera sempre as melhores soluções ou as melhores respostas no momento. Todos temos de ter alguma parcimónia na avaliação de pequenos casos. De grosso modo não tem havido, no Algarve, situações críticas em relação ao cumprimento de regras, quer por parte de quem nos visita, quer por parte de quem oferece o serviço. Pontualmente acontecem problemas como em todo o lado do mundo.

Como está a situação do modelo de avaliação de risco? O Algarve continua a ser prejudicado?

Continua na mesma. É óbvio para qualquer pessoa que a população flutuante distorce a forma de avaliar o risco. Se tenho um caso positivo, por exemplo, em Albufeira com uma população de 40 mil habitantes, o meu rácio final é uma coisa. Se tenho dois casos positivos para uma população de 40 mil habitantes, mais 150 mil habitantes flutuantes o impacto é outro. E quanto mais visitantes mais casos positivos existem e o que acontece no território é que o denominador desse rácio triplica, quadruplica, etc., ou seja, os casos de visitantes são considerados nos sítios onde foi detetado e onde estava alojado nos últimos dois dias, o que distorce completamente a realidade de risco do Algarve. No ano passado tínhamos bastante visitantes, mas como não tínhamos uma estirpe que se propagava tão rapidamente não houve tanto esse problema.

Há zonas mais prejudicadas do que outras...

O problema não é da propagação, o problema é a distorção do número de rácio. Chamei a atenção para duas coisas: uma foi corrigida pelo Governo: quando temos um caso, por exemplo, em Alcoutim que tem dois mil habitantes, o impacto numa lógica de x por cem mil habitantes é enorme e com três casos estávamos acima dos 120 mil por cem mil habitantes. Isso não era lógico porque eram agregados familiares. É muito mais fácil isolar pessoas numa população de duas mil porque todos se conhecem. O Governo atendeu e corrigiu a forma de aplicar as medidas restritivas, com bons resultados. No Algarve, os concelhos agora com menor incidência são Aljezur e Alcoutim. O que gostaríamos de ver e que já foi afirmado pelo primeiro-ministro que iria corrigir essa realidade diz respeito aos concelhos com uma população flutuante muito elevada. Como é muito difícil estimar em tempo real a população flutuante, o que proponho porque já vi que é possível do ponto de vista da sua própria operacionalização, é que os casos positivos sejam considerados na origem. No casos dos portugueses é mais fácil de verificar, nos estrangeiros teria que haver autorização por parte de uma entidade internacional. Mas não vejo essa medida a ser aplicada.

A imagem do Algarve enquanto destino turístico pode ser afetada?

Tem impacto no momento. Portugal não deixará de ser considerado o terceiro país mais seguro do mundo, até porque, as provas dadas são muitas. O Algarve que tem pouco mais de 4% da população portuguesa tem cerca de 2% dos óbitos, 3% dos casos desde o início da pandemia. É claramente uma região que soube prevenir e controlar a doença melhor que a média. Quando olhamos para a capacidade instalada do ponto de vista de cuidados de saúde, em janeiro tínhamos 200 pessoas internadas, 50 em UCI, agora temos 50 internados e 16 em UCI. Todos os países mais desenvolvidos já passaram pela situação de serem os piores do mundo e depois melhoram. Obviamente que, quando olhamos para a condição de um país num determinado momento, e vimos que está em alerta, eventualmente retira-nos a confiança para visitar esse território numa primeira instância, mas não nos impede de voltar a ter uma perceção diferente quando a situação melhorar. Isso aconteceu claramente em Portugal. Entre janeiro e fevereiro éramos notícia por sermos o país com piores indicadores na pandemia, a seguir passámos a ser o melhor da Europa. Por isso, estivemos na lista verde britânica até de forma isolada, sem concorrência e com todos a quererem vir para cá. Isso é uma boa demonstração de que os turistas estão esclarecidos sobre essa realidade. Quando tudo isto passar não retirará a segurança que cada destino já conquistou. Não somos um destino com criminalidade violenta, não há intempéries que provocam situações graves em relação à segurança das pessoas. Somos um destino, em que até a própria população, ajuda a transmitir confiança a quem cá está ou quem nos visita. Isso não vamos perder e até vai sair reforçado porque as pessoas vão procurar cada vez mais destinos que lhes ofereçam essa condição de segurança. Isso estava a acontecer antes da pandemia. Portugal estava a ser o reduto para muitos reformados europeus até com base no estatuto de residente não habitual, de muitos investidores que vinham com visto gold, mas também estava a ser alvo de procura de muitos casais jovens que optavam por vir viver para Portugal. No Algarve havia muitos casais vindos do Brasil, dos EUA, de Itália, etc.

Julho já será melhor? Como estão as reservas?

Apesar de não termos os dados do INE e faço essa crítica porque poderiam ser disponibilizados de forma diferente – têm dois meses de desfasamento – até maio, o que podemos retratar não é nada simpático: até maio de 2019 (num ano normal) tivemos mais de seis milhões de dormidas, até maio de 2020 tivemos 1,9 milhões de dormidas e até maio de 2021 tivemos 907 mil dormidas. Isso dá bem o sinal do que foi o arranque do ano, mesmo quando comparado com o ano anterior. Junho foi um mês bipolar, tivemos uma primeira semana marcada por forte afluência britânica e por um ou outro fim de semana com maior procura, mas depois a segunda quinzena já foi marcada por uma realidade diferente. No ano passado tivemos – sobretudo a partir de agosto e não tanto na última quinzena de julho como era habitual – uma forte procura nacional que suplantou o ano recorde de 2019, tanto em agosto, como em setembro e até em outubro. Os portugueses que não viajaram para fora e muitos deles se calhar nem tinham previsto fazer grandes férias estavam a sair do confinamento e optaram pelo Algarve. Obviamente que, ao longo do ano, perdemos dormidas. Este ano, o que vemos? Junho acabou por ser relativamente fraco. Aliás, os dados da AHETA retratam uma taxa de ocupação em hotel de cerca de 43%. E quando falamos de hotelaria é porque é o indicador que está disponível. Porque se formos falar de golfe, esteve praticamente fechado desde o início da pandemia. Se formos falar de bares e discotecas estão fechados desde o início da pandemia. Se formos falar de parques aquáticos têm estado intermitentemente fechados ou abertos em função de regras ou da procura externa porque são muito centrados na procura externa. Os congressos e eventos tiveram um longo inverno desde o início da pandemia. Este impacto não é igual em todos os segmentos da atividade. Todos os segmentos que dependem de procura externa ou que se realizam em grupos – o caso, por exemplo, das guias intérpretes, do transporte de turistas em autocarro – foi claramente penalizado, ainda mais que hotelaria e restauração.

O setor satélite...

Claro. Agora, qual é a nossa expectativa? É que em agosto haja uma procura interessante portuguesa. Já há bons níveis de reserva para o mercado nacional que, eventualmente, com esta mais recente decisão britânica de permitir a viagem de vacinados e dos acompanhantes menores para os países da lista âmbar, pode aumentar. Temos uma oportunidade, a partir de 19 de julho, de podermos receber novamente este grande mercado emissor. Mas já não nos atrevemos a fazer prognósticos. Todos os dias há novas notícias e novos contextos. Mas à partida tudo aquilo que temos como presente é que agosto não será a oportunidade que estávamos à espera. Julho não foi um mês com um desempenho nem sequer próximo do que é habitual. Habitualmente temos 78%, 80% de ocupação e agosto normalmente temos muita procura. Não me parece que agosto vá ter o mesmo desempenho que teve no ano passado. Vamos aguardar porque a vinda de britânicos até pode melhorar significativamente, mas o verão não vai ter um desempenho, no seu todo, expressivo. Isso é claro porque já passou junho, já passou praticamente julho e só agosto não chega. De setembro em diante há bons indicadores de reservas também no golfe. A esperança que temos é que o processo de vacinação nessa altura no espaço europeu já esteja bastante mais avançado. Prevê-se que no espaço europeu se chegue aos 70% de vacinação completa da população adulta no espaço europeu, que é já mais interessante.

A AHP, a AHRESP e outras associações defenderam a vacinação junto dos profissionais do setor. Daria mais confiança?

Acompanhei essa proposta e até disse que essa discriminação positiva devia seguir a mesma lógica que seguiu na educação, saúde ou forças de segurança. O turismo é uma atividade de pessoas para pessoas e aqueles que estão na linha da frente do turismo e que contactam com muita gente deveriam ter tido essa oportunidade. Todos sabemos que as vacinas não dão para tudo mas temos que nos lembrar que, no espaço europeu, somos o país que tem melhor desempenho na vacinação. São é poucas. O que percebemos em relação ao Algarve é que foi feito um esforço sobretudo, nestas últimas duas semanas, para recuperar caminho que faltava percorrer. A vacinação é claramente o instrumento mais forte para o efeito tampão das situações graves da pandemia.

Fala da importância dos turistas nacionais, mas os portugueses não têm sido ‘maltratados’ no Algarve?

Há dois preconceitos que às vezes são repetidos e com os quais não concordo. Um é esse e o outro é de que o Algarve é muito caro para os portugueses. O Algarve tem oferta para todos os gostos e para todas as bolsas. Se olharmos para os números antes da pandemia e até para os números da pandemia há uma expressão clara da vontade dos portugueses de conhecerem o Algarve, de irem para o Algarve e até de conhecerem o Algarve com outras motivações de visita e fora da época alta, o que é uma coisa que não acontecia nos últimos anos.

Há quem tenha a experiência de ser servido em restaurantes onde ninguém fala português...

É verdade que há áreas de atividade que são mais direcionadas para os estrangeiros porque são eles que as procuram. Se num rent-a-car, 99% da procura é estrangeira, a tendência da resposta é estar na língua de quem procura esse serviço. Mas, por exemplo, o que acontecia há uns anos de só haver um menu na língua inglesa, hoje já não existe. Temos muitos empresários que são estrangeiros. Temos 92 mil estrangeiros residentes – a maior comunidade é de britânicos – numa população de 440 mil habitantes. Temos realmente muitos estrangeiros que às vezes se sentem tão confortáveis na região que não aprendem a língua. Temos feito um esforço grande na sensibilização não só de quem nos visita mas também de quem recebe que tem direito a ser tratado com respeito. Ir de férias não é sinónimo de tratar mal os outros e, por outro lado, quem recebe, a primeira coisa que deve oferecer é um sorriso. E aí, os portugueses em geral são muito acolhedores. É bom lembrar que muitos que viajam de férias para o Algarve não são atendidos por algarvios, mas por pessoas que, naquele momento estão a trabalhar naquele território e que são muitíssimo bem-vindos, são muito necessários para desenvolver os picos da atividade. No entanto, não têm, obviamente, o mesmo amor à terra e, às vezes, a mesma paciência para situações menos simpáticas.

Apesar de o Algarve ter ofertas para todos os gostos, o mercado de luxo tem uma grande expressão...

Sim, principalmente, no período em que tivemos o corredor aéreo britânico aberto. Essa realidade de os hotéis cinco estrelas terem tido uma procura mais predominante do que outros segmentos de oferta de alojamento tinha a ver com o facto de que um britânico para viajar para Portugal tinha que fazer três testes. Se considerarmos o custo de testes para uma família, podíamos estar a falar de 1.000 a 1.500 euros para quatro pessoas para aquele período de férias, adicional àquilo que iria gastar na viagem, no alojamento e no próprio destino. Portanto, o segmento de procura que mais teve possibilidade de viajar era um segmento alto e, por isso, procurou mais o cinco estrelas, é um facto.

Alguns destinos também foram bloqueados.

Sim, no verão passado também se notou muito isso. Até por uma realidade empírica. Vimos muitos carros de alta cilindrada e de alto valor a circular no Algarve, mais até que o normal. E percebia-se que eram muitas vezes portugueses que não tiveram oportunidade de viajar para fora do país e que habitualmente o fazem e que optaram – e muito bem – por redescobrir o Algarve. São pessoas que muitas vezes vão ao Algarve durante o período de menor procura porque têm casa secundária ou porque têm essa possibilidade mas que durante o verão, também pelas circunstâncias que conhecemos, foram mais para sul que é mais convidativo.

Os apoios do Governo foram suficientes para este setor?

O setor é unânime em reconhecer que há apoios que foram estruturantes. O caso do layoff, do Apoiar, da linha de apoio às microempresas para a tesouraria... Em todas as situações houve sempre um delay entre a publicação das medidas e o efeito das próprias medidas, mas que tem vindo a ser corrigido, no entanto, houve esse desfasamento temporal de resposta. As medidas têm sido bem desenhadas, a própria Confederação do Turismo reconhece isso. Toda a gente no setor reclama por medidas com maior componente não reembolsável e é natural que reclame porque os empresários, com o acumular de perdas e com poucas perspetivas de uma retoma rápida, já não têm capacidade de contrair empréstimos. Há agora um novo pacote de medidas que são fundamentais e foram no sentido do que o setor reclamava: medidas de capitalização, de reestruturação da dívida que permitem ultrapassar a dificuldade de, em termos europeus, não ser possível prolongar as moratórias.

Há um plano de recuperação só para o turismo. Em que patamar está?

Estas medidas estão no Plano Reativar Turismo, que está muitíssimo bem desenhado. Mas, mais uma vez, o que é preciso é que as medidas cheguem ao terreno. As medidas estão bem desenhadas, são boas apostas, nomeadamente a confirmação de que é preciso um apoio específico para uma região tão afetada como o Algarve – tão afetada porque depende em grande parte do turismo – e tem um pacote de medidas chamado Mais Algarve que é exatamente para responder às principais questões do turismo na região. Isso obviamente que me agrada.

Como sobrevive o Algarve sem turismo? É a alma da região...

O turismo é a alma do país. Foi o setor que nos tirou da última crise, que reabilitou cidades. Lisboa é um bom exemplo disso. Cidades que estavam ao abandono em muitas zonas históricas. É um setor que, nos últimos oito anos, antes da pandemia cresceu sempre muito acima do PIB nacional. É um setor que nos permite equilibrar a balança comercial externa. O que precisamos não é de menos turismo, é mais de outros setores. Às vezes fico um pouco reticente quando queremos nivelar por baixo. Em vez de olhar para outros setores e ver que nesses há a ambição de serem tão bons como se é no turismo, a ideia é ‘se calhar temos que reduzir turismo para estarmos ao mesmo nível’.

Há várias vozes críticas, não tanto no Algarve, mas em Lisboa e no Porto, que diziam que há turistas a mais...

Há aqui duas questões diferentes. Não há ninguém no turismo que não concorde com a necessidade de diversificar a base económica. Isso até é uma vantagem para o próprio turismo. Se tivermos um setor da saúde mais desenvolvido, isso é mau para o turismo ou é mais uma oportunidade? O turismo, por cada euro de valor acrescentado bruto que cria, gera 0,54 euros noutros setores. Tem até o efeito de arrastamento de outros setores. E pode ganhar com outros setores se as tecnologias da informação e comunicação proliferarem. Precisamos é de ter esses setores a olharem para o turismo como um exemplo a seguir e a desenvolverem-se com exigência e com competitividade internacional que é isso que o setor do turismo faz. Mas o próprio setor do turismo precisa que haja outros setores. Outra situação diferente é esta coisa da turistificação. Hoje, se calhar, muitas das pessoas que colocaram essas questões estão a refletir sobre o impacto da falta do turismo. Reparem, o turismo, quando muita gente falava sobretudo de fenómenos mais populistas, de novos muros entre países, vimos todos com muito receio essa evolução. E o que é que o turismo faz? Aproxima a diferença. O turismo promove o encontro entre pessoas que são de origens diferentes, de etnias diferentes, de regiões diferentes, de orientações sexuais diferentes, culturais, o que for, diferente e promove um clima de hospitalidade. Atenua preconceitos. Como tem turismo, como está habituado a receber a diferença, é mais cosmopolita, é mais humano também.

Acaba por atenuar as diferenças.

Percebe que a diferença é uma vantagem, não é uma desvantagem. É um prazer conhecer alguém que tem alguma coisa para nos contar de novo, que nos pode ensinar alguma coisa e contarmos nós também coisas. O turismo tem esse papel importantíssimo e nós não devemos olhar para quem nos visita como um invasor. Devemos abrir os braços e recebê-lo bem. Devemos sim, nesse processo, também gerir impactos. O turismo não deixa de ter impactos. Não há nenhuma atividade económica desenvolvida pelo homem que não tenha impactos.

Tem que haver um equilíbrio.

Tem que haver um equilíbrio e tem que haver também um trabalho que todos fazemos de diversificar motivações de visita. Por exemplo, no Algarve, aquilo que estava a dizer de atenuar sazonalidade gerando procura para o turismo para o interior, procura fora de época...

Aplicar as taxas turísticas.... Aplicam-se em Lisboa, no Porto, há zonas do Algarve que aplicam..

Já vários municípios aplicam.

Isso não atenua as tais diferenças? Em Lisboa usam isso para as taxas de saneamento, recuperação do Palácio da Ajuda, pilar da ponte...

A taxa não é um imposto e, por isso, tem que ter regras muito específicas quanto às contrapartidas mas isso são questões mais locais. Lisboa – e bem – aproveita essa receita para beneficiar a cidade. No Algarve a aplicação de taxas não tem o mesmo impacto que tem numa cidade como Lisboa. É importante lembrar isso. Num destino que visito, como Lisboa, numa cidade em que vou eu e a minha namorada ou vou eu em trabalho e passo um fim de semana, são dois dias, duas pessoas. A taxa tem um impacto sobre o custo total. Outra coisa é ir eu, a minha mulher e os meus dois filhos durante sete, 15 dias para um destino. A taxa tem um impacto muito diferente no peso total do meu alojamento. Depois, se virmos isto no verão ou no inverno, os preços do alojamento oscilam muito mais no Algarve do que oscilam numa cidade como Lisboa. Posso, em algumas situações, pagar uma percentagem do meu custo total em taxa muito superior no inverno, por exemplo, no Algarve, do que pago no verão no Algarve. Estas questões foram atendidas e, felizmente, a maioria dos municípios ajustou as suas taxas a esta realidade. Também é verdade que a maioria delas não entraram praticamente em funcionamento porque foram suspensas durante o período da pandemia e ainda não estão na maioria dos casos a vigorar. Mas só o IVA turístico gerado já é uma receita que cobre largamente muitos dos gastos.

Tem ideia de quantos estabelecimentos não vão voltar a abrir portas ou ainda estão em stand by a ver se conseguem reabrir?

Até agora temos tentado monitorizar essa situação embora ela não esteja tão disponível como gostaríamos em relação às insolvências e falências que no Algarve acontecem e tê-las desagregadas por atividade económica (CAE). Obtivemos sim foi informação no seu todo da atividade do Algarve. O que nos foi reportado é que não há um aumento significativo de insolvências e falências até agora no Algarve. Isso não quer dizer que o risco não esteja aí à porta. Por isso é que estou a dizer que estas medidas que o Governo prevê desta recapitalização e reestruturação da dívida, com moratórias a terminar em setembro, são muito importantes porque o acumulado de prejuízos teve um efeito tampão grande com cerca de 320 milhões de euros de apoios estatais para o Algarve até agora para empresas e emprego. É um volume bastante robusto mas isso não quer dizer que a seguir a setembro não venha um inverso que é especialmente penoso para o Algarve.

Isso depois acaba por ter impacto no desemprego. Dados do IEFP e do INE dizem que o Algarve é das regiões mais afetadas neste aspeto mas depois medidas como o layoff acabam por mascarar um pouco estes números...

Menos no Algarve. Aliás, um dos problemas no Algarve foi que, como há a sazonalidade, o início da contratação para a operação da época alta acontece normalmente ali em março. Ora, a pandemia chegou ao Algarve em março do ano passado. Se formos ver os números do desemprego, eles chegaram, apesar de tudo, a níveis muito elevados. Em janeiro, deste ano tínhamos cerca de 33 mil desempregados. Para uma população ativa de pouco mais de 200 mil habitantes, é um número muito elevado. Mas podemos comparar ciclos: ainda assim, ficou bastante abaixo daquilo que aconteceu nos anos pós-troika. De facto, os mais de 320 milhões que foram utilizados para garantir a capacidade produtiva das empresas e o emprego, apesar de no Algarve não terem tido o mesmo efeito que na média nacional enquanto tampão ao desemprego – tanto que foi a região mais penalizada pelo desemprego por essa curva sazonal – quando a pandemia chega era o início da contratação, portanto, boa parte dessas pessoas não chegaram a ser contratadas. Houve esse efeito, depois no verão foram contratados de forma muito temporal, com um prazo muito reduzido e depois voltámos ao inverno e chegámos ao pico do número de desempregados em janeiro deste ano com 33 mil desempregados que é um número muito alto. Esse tem sido um dos principais impactos visíveis tangíveis no Algarve. O número de desempregados foi reduzindo substancialmente até maio. Em maio até tivemos uma grande procura e oferta de emprego por causa do corredor aéreo com o Reino Unido.

O Algarve há poucos anos tinha um grande problema de mão-de-obra.

E voltará a ter. O turismo voltará a crescer e a crescer acima do que já tivemos, disso não tenho grande dúvida. E Portugal vai ter forte desempenho. Portanto, os problemas de mão-de-obra no Algarve têm uma realidade que é conhecida. Temos duas questões básicas. Uma primeira é: muitas das pessoas que no período de maior procura vinham trabalhar para o Algarve eram do Alentejo, da zona Centro e até do Norte. Porque nessas zonas havia pouco turismo. Mas quando essas zonas passaram a ter turismo fixaram esses profissionais mais qualificados. A mão-de-obra passou a escassear e foi preciso ir buscar muitas vezes contingentes externos, emigrantes, para poderem também desempenhar esse papel. Numa primeira fase havia muitas pessoas de leste, depois muitas pessoas dos nossos países de língua oficial portuguesa que felizmente tiveram essa oportunidade. Mas, depois, com o aumentar da procura fora da época alta, houve também, durante mais tempo do ano, o elevar do custo da habitação. E isso é uma dificuldade que é preciso ultrapassar. Para uma pessoa, um jovem que se quer emancipar, para alguém que quer ir viver para o Algarve e trabalhar ao longo do ano no Algarve, para comprar ou arrendar casa a vida hoje está difícil. Como, aliás, em Lisboa ou no Porto. Então são precisas novas políticas de habitação também para esta população que quer viver no Algarve e trabalhar no Algarve durante o ano.

Há muitos especialistas e economistas que dizem que o PRR esquece muito o turismo...

É verdade. Aliás, nós escrevemos sobre isso e na participação pública do PRR apontámos claramente essa falha. É interessante perceber que essa nossa exposição deu origem até uma intervenção de uma deputada socialista, Jamila Madeira, junto do dr. Nelson de Souza, ministro que tinha esta pasta, que veio depois explicar que quando se fala em reindustrialização também se considera a indústria do turismo. De qualquer forma, se olharmos, no PRR original não está lá explicitamente a possibilidade de financiar o turismo. Depois quando vemos o PRT, o plano de revitalizar turismo, com cerca de 6 mil milhões de euros para o setor, já vemos lá que há várias fontes de financiamento incluindo também o PRR. Mas foi um trabalho muito bem feito pela secretaria de Estado de não deixar fugir oportunidades e de as agrupar num plano que desse oportunidade ao turismo que bem a merece, tem trabalhado para isso.

E voltará a ter. O turismo voltará a crescer e a crescer acima do que já tivemos, disso não tenho grande dúvida. E Portugal vai ter forte desempenho. Portanto, os problemas de mão-de-obra no Algarve têm uma realidade que é conhecida. Temos duas questões básicas. Uma primeira é: muitas das pessoas que no período de maior procura vinham trabalhar para o Algarve eram do Alentejo, da zona Centro e até do Norte. Porque nessas zonas havia pouco turismo. Mas quando essas zonas passaram a ter turismo fixaram esses profissionais mais qualificados. A mão-de-obra passou a escassear e foi preciso ir buscar muitas vezes contingentes externos, emigrantes, para poderem também desempenhar esse papel. Numa primeira fase havia muitas pessoas de leste, depois muitas pessoas dos nossos países de língua oficial portuguesa que felizmente tiveram essa oportunidade. Mas, depois, com o aumentar da procura fora da época alta, houve também, durante mais tempo do ano, o elevar do custo da habitação. E isso é uma dificuldade que é preciso ultrapassar. Para uma pessoa, um jovem que se quer emancipar, para alguém que quer ir viver para o Algarve e trabalhar ao longo do ano no Algarve, para comprar ou arrendar casa a vida hoje está difícil. Como, aliás, em Lisboa ou no Porto. Então são precisas novas políticas de habitação também para esta população que quer viver no Algarve e trabalhar no Algarve durante o ano.

Há muitos especialistas e economistas que dizem que o PRR esquece muito o turismo...

É verdade. Aliás, nós escrevemos sobre isso e na participação pública do PRR apontámos claramente essa falha. É interessante perceber que essa nossa exposição deu origem até uma intervenção de uma deputada socialista, Jamila Madeira, junto do dr. Nelson de Souza, ministro que tinha esta pasta, que veio depois explicar que quando se fala em reindustrialização também se considera a indústria do turismo. De qualquer forma, se olharmos, no PRR original não está lá explicitamente a possibilidade de financiar o turismo. Depois quando vemos o PRT, o plano de revitalizar turismo, com cerca de 6 mil milhões de euros para o setor, já vemos lá que há várias fontes de financiamento incluindo também o PRR. Mas foi um trabalho muito bem feito pela secretaria de Estado de não deixar fugir oportunidades e de as agrupar num plano que desse oportunidade ao turismo que bem a merece, tem trabalhado para isso.

 

 

Por que considera o Benfica tão especial?

Eu não sou uma história americana típica de sucesso. Sim, eu nasci sem nada e tornei-me bem-sucedido… eu sei que parece típico… mas quem é que se importa? É o meu falhanço que ainda me define hoje em dia. O meu falhanço foi público, foi doloroso e eu perdi tudo. Tentei tornar um negócio que estava cheio de parceiros capitalistas numa empresa com um pensamento comunitário, que educasse e treinasse pessoas jovens para criarem trabalhos, construírem negócios e elevarem a comunidade da Flórida. Eu falhei. A minha empresa faliu e eu mudei-me para a China, conseguindo pô-la no mercado de trocas. Eles não queriam saber da comunidade, de todo, era a minha responsabilidade saber isso. E eu não sabia. Quando falhei, passei do topo do mundo para o fundo bastante rápido. Estes amigos falsos desapareceram, o meu nome já não era falado e as únicas pessoas que queriam falar comigo era jogadores de futebol americano jovens e as famílias que eu estava a ajudar no FC Florida. Eles conheciam-me longe do negócio e não se importavam com o meu falhanço. O estádio passou a ser o único sítio onde eu podia ir para fugir da tempestade que me rodeava. Estes miúdos precisavam da minha ajuda e eu vir-me-ia a aperceber que também precisava da deles. Então, saí das salas de reuniões onde tive sucesso e passei a ser nada mais do que um voluntário, enquanto planeava a minha recuperação financeira.

O que fez?

Mantive os treinadores pagos enquanto promovia doações, marquei torneios para os nossos miúdos serem vistos. Conduzi o autocarro da equipa através de distâncias ridículas, da Flórida até Nova Iorque, porque as nossas equipas não tinham dinheiro para apanhar um voo… Lavava a roupa deles – era demasiada roupa – para ter a certeza de que eles estavam apresentáveis em campo. No final de contas, os miúdos do FC Florida salvaram-me. Reconstrui-me a mim mesmo e salvei a minha família. Não é uma história que eu conte com frequência. As pessoas nas festas não gostam de ouvir falar de falhanços, mas quando me perguntam porque é que eu gosto do Benfica, a resposta está na primeira carta que eu escrevi aos benfiquistas. Este clube é diferente de qualquer empresa ou outro clube ao qual eu já tive o prazer de estar associado. Foi formado, estruturado e funciona principalmente para o beneficio da sua comunidade… é tudo aquilo que eu tentei criar na minha empresa americana, mas isto nunca poderia existir na América. É assim que o Benfica funciona desde muito antes da minha chegada. Portanto, agora que eu recuperei e criei muitos empregos para pessoas na minha área (e até reconstruí a minha riqueza) porque é que haveria de querer voltar a ser a pessoa que era antes do meu fracasso? Aprendi o equilíbrio certo entre o capitalismo e a comunidade e sei que agora tenho a oportunidade e a experiência para ajudar ainda mais pessoas do que aquelas que já ajudei. Ainda assim, não me importo de conduzir o autocarro ou de lavar a roupa a roupa dos jovens do FC Florida se eles precisarem. Aprendi hábitos incríveis com o meu fracasso, então, porque haveria de mudar?

O que vê acontecer a seguir?

Os dirigentes do Benfica vão acordar um dia e perceber que eu venho em paz. Eles vão ser ousados, vão liderar e vamos conduzir o Benfica a uma potência global em beneficio dos benfiquistas. Isto vai demorar algum tempo mas é aquilo que vai acontecer a seguir. A vida é uma maratona, não um sprint. Além disso, pensei numa coisa que o meu parceiro no Facebank/FuboTB sempre disse às pessoas. Quando questionado sobre como temos tido tanto sucesso durante um ano tão difícil, ele diz às pessoas que eu tenho ‘pozinhos de perlimpimpim’ na ponta dos dedos. Esta é a explicação dele. Talvez gostassem de falar com ele um dia, soa muito melhor quando é ele a dizê-lo. Talvez um dia o Benfica pense o mesmo.