Internacional

Agentes secretos leais a Zuma na linha da frente

As acusações de incitamento à violência recaem em homens ligados ao ex-Presidente preso. 


Enquanto gente desesperada saqueava lojas num frenesim, homens encapuzados, manejando armamento pesado, encetavam ataques contra a principal artéria da África do Sul, bloqueando a autoestrada que liga o porto de Durban a Joanesburgo. Parecia uma operação de gente experiente, que pretendia criar uma escassez de bens essenciais para incentivar os motins. E foi mesmo, acusam as autoridades sul-africanas, que investigam dirigentes do Congresso Nacional Africano (ANC) e agentes dos próprios serviços secretos, leais ao ex-Presidente Jacob Zuma, como os arquitetos do caos que se viveu esta semana, recorrendo a veteranos da antiga ala armada da ANC, ou  Umkhonto we Sizwe, e às redes sociais, avançou o Daily Maverick. 

Não seria a primeira vez que o ex-Presidente, acusado há muito de corrupção, mas condenado a apenas 15 meses de prisão por desrespeito ao tribunal, estava por trás de uma operação clandestina. Zuma, cujo nome do meio, Gedleyihlekisa, significa «aquele que sorri enquanto te magoa», em zulu, ganhou fama como chefe das secretas do ANC, no tempo do Apartheid, quando o seu partido estava paranoico e acossado por agentes infiltrados de Pretória. E quem perseguia traidores. reais ou imaginários, eram homens de Zuma, conhecidos pela sua brutalidade.

Pouco a pouco, detalhes da investigação à incitação dos motins vêm a público. Sabe-se que entre os alvos está Thulani Dlomo, que liderou a State Security Agency durante a presidência de Zuma,  e antigo embaixador no Japão, avançou o News24. Dlomo já fora acusado de manter sob vigilância o próprio Cyril Ramaphosa, atual Presidente, quando este disputava com Zuma a liderança do ANC.

Há muito que o partido governante tem um ambiente de cortar à faca, dividido entre a fação pró-Ramaphosa e pró-Zuma. O foco do confronto sempre foi KwaZulu-Natal, ponto de ignição destes recentes motins e bastião da etnia do ex-Presidente – que, no final do Apartheid, subiu na hierarquia da ANC como forma de cooptar o voto zulu, desviando o centro de gravidade do partido para longe da Cidade do Cabo. 

Se o objetivo dos arquitetos dos motins era pressionar Ramaphosa a oferecer um indulto presidencial a Zuma, como pediu o chefe de executivo de KwaZulu-Natal, Sihle Zikalala, todos os analistas concordam que esse cenário ficou ainda mais distante, porque isso seria visto como demonstração de fraqueza do Governo. Mas se os motins foram apenas política de terra queimada, uma vingança de Zuma contra o seu sucessor, aí ninguém duvida que foi um sucesso para lá das expectativas. 

Ramaphosa já estava fragilizado pela gestão da pandemia e  incapacidade em obter doses de vacina contra a covid-19. Agora está sob fogo pela lentidão contra os motins, demorando dois dias a sequer a falar deles em público, hesitando quanto a colocar tropas nas ruas. Críticos acusam-no de querer evitar uma rutura total com a fação pró-Zuma do ANC.

«Ramaphosa está politicamente mais fraco do que alguma vez esteve», salientou Xolani Dube, analista do Institute for Research and Development, à Bloomberg. «O nosso futuro é desolador. Vai ser muito difícil recuperar disto».

Se estes motins foram alimentados pelo falhanço do ANC em construir um país menos desigual, boa parte da culpa é imputada a Zuma – que terá posto o Estado sul-africano a soldo de grandes empresários, em particular os Gupta, um família multimilionária indiana, montando uma extensa rede de clientelismo e corrupção, que custou ao país, mais de 500 mil milhões de rands, quase trinta mil milhões de euros, ou uns 10% do seu PIB anual, estima o Governo sul-africano.