Internacional

"As cidades e as infraestruturas não estão preparadas porque foram construídas com base num anterior normal climatológico"

Especialistas acreditam que a Alemanha não estava pronta para lidar com as cheias que provocaram pelo menos 156 óbitos. No entanto, não são os únicos, caso não exista um maior controlo das ações poluentes em todo o mundo, alerta o Presidente da Zero, Francisco Ferreira, estes desastres naturais podem ser mais recorrentes e mais devastadores.


Foi o pior desastre natural da Alemanha nos últimos 60 anos. As “catastróficas” cheias que inundaram o país fizeram centenas de feridos, dezenas de desaparecidos e, pelo menos, 156 óbitos, apesar de a polícia acreditar que surgir “novas vítimas. Mas não quer dizer que seja o último e inesperado incidente dos próximos tempos. “Os eventos meteorológicos extremos como os que afetaram a Europa Central estão a ter lugar um pouco por todo o mundo e com diferentes configurações: cheias, mas também ondas de calor”, quem descreve este fenómeno é o presidente da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira, ao i.

No entanto, antes de pensar em como podem prevenir o próximo desastre natural, equipas de resgate e forças da autoridade estão agora a dedicar-se a limpar as cidades alemães e a ajudar aqueles em necessidade.

Dezenas de milhares de serviços de emergência e, pelo menos, 850 soldados foram enviados para as zonas mais afetadas, através de helicópteros, veículos blindados e barcos para resgatar pessoas presas pelas águas e por destroços.

Também políticos estão a deslocar-se para estes cenários caóticos para apresentar as condolências e verem com os seus próprios olhos a destruição das inundações.

A chanceler Angela Merkel visitou este domingo a região da Renânia-Palatinado, uma das zonas mais afetadas pelas inundações, onde já foram registadas mais de 130 mortes e comprometeu-se a aplicar todos os auxílios estatais para ajudar na reconstrução. “A partir daqui temos uma imagem real do que aconteceu perante um panorama surreal e fantasmagórico”, disse a chanceler. “Quase diria que a língua alemã tem dificuldade em encontrar palavras para descrever a devastação causada”, acrescentou.

As inundações afetaram especialmente os países da Europa Central. Na Bélgica foram registadas 20 mortes e existem, pelo menos, 20 desaparecidos. O primeiro-ministro Alexander De Croo, disse temer que o balanço do número de vítimas se agrave ainda. “Em muitos locais, a situação continua extremamente crítica”, declarou em conferência de imprensa.

Também a Holanda, Luxemburgo e Suíça sofreram graves danos materiais.

Alterações climáticas Não foi por acaso que estes eventos ocorram na Europa Central e do Norte. Francisco Ferreira explicou ao i que estes fenómenos de elevada precipitação estão a agravar-se com o aquecimento global e as consequentes alterações climática.

Estas mudanças estão a provocar uma redução nas diferenças de temperaturas à escala continental, gerando mais calor nos dois polos da Terra, o que conduz a uma circulação mais lenta das massas de ar. “Assim, uma forte chuvada em vez de se dispersar por uma maior área, concentra-se numa região mais específica, ficando os solos rapidamente saturados e sem capacidade de infiltração, levando a um escoamento à superfície muito elevado para o qual as cidades e as infraestruturas não estão preparadas porque foram construídas com base num anterior normal climatológico”, especificou o Presidente da Zero.

Esta tragédia levantou diversas questões entre especialistas sobre a capacidade das autoridades alemães para se preparem para as cada vez mais proeminentes consequências do aquecimento global e os seus efeitos imprevisíveis.

Segundo Francisco Ferreira, “os impactos estão diretamente relacionados com o ordenamento do território e a localização de centros urbanos, de aldeias a cidades, ou de infraestruturas, desde autoestradas a barragens, que se basearam na história de um clima que mudou, estando agora em zonas de risco”, afirmando ainda que “a ocupação feita de muitos dos terrenos agrava as consequências porque ao impermeabilizar os solos aumentam as escorrências”.

A Alemanha e a Bélgica vivem um cenário aterrador, juntos somam mais de 180 vítimas mortais, e isso é algo que deixa a restante comunidade internacional em alerta. Será que Portugal pode vir a sofrer um evento semelhante?

O especialista português recorda que “já tivemos situações desta natureza”, nomeando o caso de fevereiro de 2010 na Madeira e em locais do Continente como a passagem de tempestades como a do Mondego em dezembro de 2019. “Porém, tal aconteceu de forma agravada, mas durante o inverno, quando neste momento já nos apercebemos que este tipo de episódios pode também acontecer em pleno verão”, alerta.

Mas este não é o único alerta que Francisco Ferreira deixa. “Sabemos que se a temperatura subir mais que 1,5 graus Celsius em relação à era pré-industrial, as consequências serão muito mais devastadoras e estamo-nos a aproximar desse patamar”, explica. “Mais ainda, o clima é muito resiliente e voltar à situação anterior demora décadas. Temos assim que reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, mas também temos de nos preparar para conviver com uma nova realidade climática e com outros impactes agravados como a subida do nível do mar”, avisa o professor.

“Se estes eventos dramáticos com enormes prejuízos humanos e materiais acontecem em países desenvolvidos, é possível uma recuperação dispendiosa, mas há a capacidade financeira para o fazer”, no entanto, apontou para os casos como o de Moçambique, Bangladesh, Índia, Filipinas, onde episódios meteorológicos extremos têm ocorrido nos últimos anos e onde é muito mais difícil realizar esta recuperação e as consequências são ainda mais graves.

“É fundamental toda uma cooperação neste domínio entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, tal como previsto no Acordo de Paris aprovado em 2015”, apelou Francisco Ferreira.