Tautologias

A sombra de um homem

Surpreende-me que Eduardo Cabrita não reaja às adversidades, como reagiria o homem livre e forte que conheci.


«Precisamos de… ar fresco!».
Anna Magnani, num palco da Roma sob o fascismo
 
Tudo o que se vem revelando, descobrindo, manifestando cada vez mais sem pudor, é sintoma arrepiante do estertor político e humano de um regime em decomposição acelerada. De um regime e, porventura, de um tempo. Quando e como irá acabar isto?

Sobre a tragédia do acidente que envolveu um ministro não devia haver nada para dizer, apenas noticiar e lamentar. O óbvio fala por si. Mas não devo eximir-me de referi-lo: viajar em excesso de velocidade é crime, pelo qual já fui justamente punido.

Mais crime num país em que o excesso de velocidade tem provocado milhares de mortos. E ordenado (ou consentido) por um ministro, é crime ainda mais grave. Acresce que essa ordem ou consentimento provocou a morte de um homem e a tragédia na vida de outro, o motorista. Veremos o que trará o desfecho criminal deste drama (oito meses para realizar o inquérito?!). Ponto final.

O aproveitamento político, o ataque pessoal inútil e cruel ao ministro, revela também a miséria a que chegou a política, a qualidade humana da generalidade dos seus protagonistas. Estou certo de que nem lhes trará dividendos.

Comentando a tragédia no programa A Lei da Bolha, da TVI24, que vale a pena ver pela qualidade intelectual e, diria mesmo, temperamento dos dois comentadores, Sebastião Bugalho colocou o dedo na ferida, fazendo a observação mais lúcida, relevante e decente de todas as que ouvi e li.

Disse tratar-se de mais um exemplo da indiferença e insensibilidade chocantes de quem governa e devia assumir e representar o sentimento e a solidariedade coletiva perante o sofrimento e as tragédias vividas pelos portugueses e o país. Nunca o fizeram. Se os governantes não estão com os cidadãos que se propõem e dispõem a governar, estão com quem e com quê?  

Conheci e convivi intelectualmente com Eduardo Cabrita num tempo e num lugar distantes. Era um tipo decente num meio pouco decente. Mas, mesmo que não o conhecesse e não me lembrasse da relação cordial que tivemos, lamentaria o drama do ser humano nas situações em que se enredou ou deixou enredar. E surpreende-me que não reaja às adversidades, porventura previsíveis, que lhe têm acontecido, como reagiria um homem livre e forte, a pessoa de bem que conheci. 

Temos vindo a assistir à (auto)destruição de uma pessoa. As suas sucessivas atitudes apontam para um desequilíbrio profundo. Deixe-se a crueldade inútil de atirar sobre o homem e tenha-se a coragem de enfrentar a sua circunstância, que é também a nossa circunstância, que criámos e alimentamos (quase) todos. Tudo isto deixou de ser política, políticos, Governo, Estado, para passar a ser outra coisa para a qual nem encontro nome. 

P.S. – Tenho orgulho em escrever e ser lido no Nascer do Sol. É-me muita grata a estima do diretor Mário Ramires, do Vítor Rainho, do José Cabrita (já um grande profissional que provará ser cada vez mais livre e honrado), a amizade tranquilizadora de José António Saraiva. E é gratificante fazer parte de um projeto que tem corajosamente resistido ao longo do tempo a contratempos e ataques de diversas origens.