Opiniao

Já posso ir ao banco?

Este pacote de financiamento é aplicável a outros países da UE e teve como principal motivação a tentativa de recuperação do descalabro económico que a pandemia veio provocar, mas a imagem que fica é a de um país eternamente ‘de mão estendida’...


Bem sei que não estamos a falar da mesma coisa, mas a verdade é que esta pergunta feita pelo primeiro-ministro António Costa a Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, quando das mãos dela recebeu o documento de comunicação oficial da aprovação do tão propalado PRR de Portugal, essa pergunta, dizia eu, só me fez lembrar a expressão «porreiro, pá!», da autoria de José Sócrates, ao abraçar Durão Barroso no final duma conferência de imprensa que dava conta da aprovação do Tratado de Lisboa, em dezembro de 2007. 

Na realidade, foi quase com olhos esbugalhados de emoção e sorriso aberto que António Costa foi notificado da decisão, o que ainda mais se notou quando a dita Presidente da Comissão Europeia lhe respondeu, simplesmente, que «Sim», que podia (embora ambos soubessem que Portugal só poderia receber a primeira parcela do financiamento concedido uma vez aprovada pelos Estados-membros a recomendação do executivo comunitário, o que entretanto ocorreu).

Ignorando o sentimento de ‘vergonha alheia’ que provavelmente atravessou toda a sociedade portuguesa (arrisco-me a dizer que partilhado até por alguns membros do Governo, por muito satisfeitos que possam ter ficado com a notícia); não esquecendo que este pacote de financiamento é aplicável a outros países da União Europeia e que teve a sua principal motivação na tentativa de recuperação do descalabro económico que a pandemia veio provocar, a verdade é que a imagem que fica é a de um país eternamente ‘de mão estendida’, sem amor próprio ou autoestima, como lhe queiramos chamar.

Vai daí ‘pus-me à pesca’ de alguns indicadores que evidenciam que, depois das muitas centenas de milhar de milhões que recebemos desde a nossa adesão à então CEE e também após as intervenções das instâncias internacionais para nos retirar da falência (a última das quais no período da troika, entre 2011 e 2014), de pouco tem valido essa enormidade de euro recebidos, grande parte dos quais a fundo perdido, ou seja, não reembolsáveis.

Aliás, começa justamente por aí o problema – o que não é reembolsável, o que não se tem que pagar de volta, não nos obriga, não nos vincula, dito de outra forma, nada nos custa. Só temos que provar que cumprimos os planos de investimento a que nos propusemos, mesmo que, aqui e ali, saibamos que nem sempre os referidos fundos foram aplicados onde inicialmente se pensara que seriam. Adiante.

Assim, começando pelo que normalmente traduz a evolução da economia dum dado país, o Produto Interno Bruto, o que concluímos dos dados do Eurostat? 

Utilizando um índice de base 100 para designar o PIB per capita da União Europeia a 27, em 2011 Portugal apresentava um indicador de 65.1%, em 2015 de 63.1% e em 2020 de 66.1%. Estes dados, que significam alguma ténue recuperação, escondem, contudo, que à nossa frente estão países como a República Checa, a Estónia, a Eslovénia, o Chipre, Malta, países que entraram na EU bem depois de nós, como se sabe…;

Como termo de comparação, diga-se que daquele conjunto de países do Sul da Europa em que somos normalmente incluídos só a Grécia apresenta pior desempenho que nós. Ainda segundo o Eurostat, o que vemos relativamente à Produtividade nominal por pessoa empregada (considerando paridade de poder de compra, note-se) ainda utilizando a mesma base 100?

Que, por mera curiosidade, a Irlanda, igualmente alvo de intervenção das instituições financeiras internacionais, apresenta um índice de 215.6!

Os mesmos países acima citados – República Checa, etc. – apresentam indicadores superiores aos nossos, e Roménia, Eslováquia, Hungria estão-nos quase “equiparados”. Concretizando, se a Europa a 27 tem 100 de base, Portugal tem 75.5, Roménia 75.1, Eslováquia 74.9, ou seja, diferenças relativas muito pouco significativas.

Finalmente, que tal olharmos para a dívida pública? 

Portugal tem uma dívida pública que aumenta a cada segundo que passa (não somos o único) sendo essa dívida, no momento em que comecei a escrever o texto, de aproximadamente € 275 mil milhões em 2020;

Em 2011, tal dívida era de 114.4% do PIB, em 2015 de 131.2%, em 2019 de 116.8%, apresentando os dados mais recentes, em 2020, o peso de 133.6%;

Em todos estes períodos a que me refiro, os quadros mostram o mesmo ‘podium’ negativo – Grécia com o ouro, Itália com a prata e Portugal com o bronze. Eslovénia, Eslováquia, Hungria, Malta, Lituânia, Roménia, para citar o mesmo grupo, todos têm indicadores com bastante menor peso.

Como dizia um anúncio de há anos, ‘o algodão não engana’! Tanto dinheiro desbaratado! E o que será que nos reserva a famosa bazuca?