Desporto

Que comecem os Jogos, quer queiram quer não

A cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 acontece hoje, contra tudo e contra todos. Portugal aponta às medalhas nas várias modalidades.


A cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 está marcada para o dia de hoje, apesar de toda a polémica em torno da organização do evento. 87% dos japoneses, anunciava a Kyodo News em maio deste ano, por receio que o evento fosse uma fonte de aumento de contágios por covid-19 no país, mas isso não impediu as estruturas organizadoras de avançar com a competição. A ansiedade aumentou a cada dia que passava, e a notícia de 91 infetados na Aldeia Olímpica, na quinta-feira, bem como dos 2 mil casos novos só em Tóquio, não augurava nada de bom. E, como se não bastasse, o diretor artístico da cerimónia de abertura demitiu-se, a apenas um dia do grande evento. Kentaro Kobayashi, comediante de profissão, apresentou, esta quinta-feira, a demissão, fruto de piadas antissemitas feitas num espetáculo em 1998, que ressurgiu recentemente, levando a fortes acusações de várias figuras do país, entre elas Yoshihide Suga, primeiro-ministro japonês. Suga definiu os comentários como “ultrajantes e inaceitáveis”, ao mesmo tempo que Kobayashi emitiu um comunicado, a pedir desculpa pelos acontecimentos. “O entretenimento não deve incomodar as pessoas. Entendo que a minha escolha estúpida de palavras naquela época estava errada e arrependo-me”, disse.

Ainda assim, os Jogos, que contam nesta edição com vários novos eventos e quatro novos desportos - skate, surf, escalada e karaté - não mostram sinais de abrandamento, e, na realidade, já começaram, apesar de a cerimónia de abertura ser hoje. As equipas de futebol deram início, na quarta-feira, à competição oficial, e há já surpresas na secção masculina: o México goleou a França por 4-1, a Espanha empatou a zeros com o Egito e a Austrália bateu a Argentina por 2-0. O jogo mais interessante, no entanto, foi o confronto entre Brasil e Alemanha, onde a seleção canarinha venceu os germânicos por 4-2.

 

Promessas portuguesas

Nesta edição dos Jogos Olímpicos, há vários portugueses que prometem. João Almeida, o ciclista que fechou a Volta a Itália de 2021 em sexto lugar, e que dominou durante 15 dias na edição de 2020, vai concorrer no ciclismo de estrada, junto de Nélson Oliveira.

Já a judoca Telma Monteiro, que conquistou 15 medalhas em 15 Europeus, e o Bronze nos Jogos do Rio, em 2016, vai participar na categoria de -57kg, e, nesta que é a quinta participação no evento olímpico, todos os olhos estarão na atleta de Almada. Na secção masculina, o grande candidato é Jorge Fonseca, que venceu a medalha de ouro nos Mundiais de judo de 2019, em Tóquio, e de 2021, em Budapeste.

O atletismo é a modalidade mais popular entre os atletas portugueses, e são vários os nomes que são apontados às medalhas. Desde Pedro Pablo Pichardo até Nelson Évora, passando por Patrícia Mamona, Sara Moreira e Francisco Belo.

Portugal conta um total de 24 medalhas olímpicas em todas as edições em que participou e, este ano, os 18,5 milhões de euros investidos - mais 13,5% do que nos Jogos do Rio de Janeiro em 2016 - procuram, pelo menos, mais duas, para além de 12 diplomas (classificações até ao oitavo lugar) e 26 resultados entre os 16 primeiros. Aliás, vários analistas internacionais, como a agência Associated Press (AP) e os especialistas do banco de dados Best Sports, asseguram que este será o melhor ano de sempre para Portugal nos Jogos Olímpicos. A AP prevê quatro medalhas, e a Best Sports aponta para seis pódios portugueses

Também o basebol e o softball estarão de regresso aos Jogos, após um hiato que dura desde os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008.

 

Naturalizados são parte importante do músculo

Portugal tem mais de 531 medalhas só no atletismo, conquistadas por um total de 148 atletas, dos quais 11 são naturalizados, nas diferentes competições europeias e mundiais. Nos anos recentes dos Jogos Olímpicos, contam-se duas medalhas conquistadas por atletas naturalizados - Nelson Évora, em 2008, e Francis Obikwelu, em 2004, ambos no atletismo. Évora, nascido na Costa do Marfim, de ascendência cabo-verdiana, chegou a Portugal aos 5 anos de idade, naturalizou-se aos 18 anos e conquistou o ouro no triplo salto, nos Jogos Olímpicos de Pequim, aos 24 anos. Já Obikwelu, de origem nigeriana, naturalizou-se aos 22 anos, e venceu a prata nos 100 metros, nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

Este ano, numa comitiva de 92 atletas - a terceira maior de sempre - que representarão Portugal nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, são vários os elementos que se gabam da sua dupla nacionalidade, e que escolheram as cores de Portugal para os levar à maior competição desportiva do mundo.

Auriol Dongmo e Pedro Pablo Pichardo são os primeiros nomes que saltam à vista, muito graças às medalhas de ouro que conquistaram nos Europeus de Atletismo de Pista Coberta de 2021, onde Portugal teve a sua melhor prestação de sempre, com três medalhas de ouro, e 26 no total. Dongmo, nascida nos Camarões e naturalizada em 2019, conquistou o ouro em Torún, na Polónia, no lançamento ao peso. Já Pedro Pablo Pichardo, luso-cubano naturalizado em 2017, conquistou o ouro no triplo salto, voando mais de 17 metros.

Nestes mesmos Europeus, também Patrícia Mamona brilhou, com uma medalha de ouro no triplo salto. Mamona nasceu em Portugal, mas tem ascendência angolana.

O que não falta na comitiva portuguesa de atletismo são atletas naturalizados. Para além dos já mencionados, é importante ainda salientar a presença, por exemplo, de Lorene Bazolo, nascida no Congo, que se naturalizou portuguesa em 2016, e Evelise Veiga, nascida na ilha de Santiago, em Cabo Verde, que adquiriu a nacionalidade em 2012.

Já no judo, vale a pena referir o nome de Rochele Nunes, a judoca luso-brasileira que conquistou o terceiro lugar nos Europeus de Lisboa, em 2021, na categoria de +78kg, e Jorge Fonseca, o judoca português nascido em São Tomé e Príncipe, que arrecadou a medalha de ouro nos Mundiais de 2019 e 2021, em -100kg.

É também interessante falar sobre os atletas que, tendo nascido em Portugal, têm no seu sangue a mistura de outras culturas e outros países. É o caso, por exemplo, de Marta Pen, a atleta portuguesa que vai competir nos 1500 metros, e que recebeu o curioso apelido da sua avó, nascida na China. “Pen”, explicou a atleta ao Expresso em entrevista, é uma palavra em cantonês, e significa “Paz”.

 

Cubanos em força

Quando se fala de atletas naturalizados, há uma nação que tem aportado, especialmente nos últimos anos, vários dos elementos que formam o músculo desportista português, principalmente no andebol e no basquetebol. A seleção nacional de andebol, que vai, pela primeira vez na sua história, participar nos Jogos Olímpicos, tem um total de três atletas cubanos, sendo eles Victor Iturriza, Daymaro Salina e Alexis Borges. O trio vai a caminho de Tóquio para lutar pela medalha de ouro, após fazer parte do Mundial da modalidade, onde Portugal atingiu a melhor marca de sempre: o décimo lugar.

 

Ténis de mesa oriental

Os países asiáticos dominam estatisticamente no ténis de mesa e, em Portugal, alguns dos atletas que vão representar as quinas em Tóquio têm em si sangue daquela região do mundo. Fu Yu nasceu na província de Hebei, na China, chegou a Portugal em 2001, e naturalizou-se em 2013, conquistando a medalha de ouro nos Europeus de 2019, o que lhe garantiu a segunda presença nos Jogos Olímpicos. Já Shao Jieni aterrou no país em 2010, e conseguiu a nacionalidade portuguesa em 2015. A sino-portuguesa vai também para a segunda presença nos Jogos, após uma participação no Rio, em 2016.