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Textor afasta trocar Benfica por outro clube | VÍDEOS

John Textor esteve em Lisboa para reunir com José António dos Santos e pôr em pratos limpos as suas intenções em relação ao Benfica. Em entrevista ao Nascer do SOL, afasta investimento no Sporting ou no Porto. Veja os vídeos.


por Marta F. Reis e José Miguel Pires

Só tem olhos para o Benfica e acredita que até pode ser uma paixão de verão, mas, se for como a que teve pela mulher, continuarão casados. John Textor esteve esta semana em Portugal, uma viagem de dois dias para reunir com o empresário José António Santos, com quem já não estava desde que a 16 de junho assinaram o então secreto contrato – dois na realidade – para a compra de 25% da SAD benfiquista e para falar ao vivo e a cores sobre os seus planos. Apresentou-se tal como até aqui: apaixonado pelo futebol e a considerar que o Benfica tem potencial para valer muito mais do que vale hoje e não precisar de vender jogadores ou dívida para se financiar, ao mesmo tempo que se mantém um clube do ‘povo’

Veja o vídeo da entrevista, no qual Textor fala sobre os adeptos do Benfica.

A entrevista – em parceria com a TVI  – teve lugar na quinta-feira num hotel em Lisboa onde ficou hospedado. A acompanhá-lo, os advogados da DLA Piper Global que o representam em Portugal. Sobre João Costa Quinta, que chegou a fazer parte da direção de Vieira, diz que só soube que estava ligado ao clube já depois de fechar o acordo com José António dos Santos, na altura em que inteirou o escritório da empresa com que trabalha nos EUA e lhe disseram que havia uma delegação em Portugal. «Telefonei-lhes e disse-lhes que tinha feito esta loucura», explicou, considerando vantajoso ter tido depois a ligação com Costa Quinta, conhecedor do clube e da realidade portuguesa.

Veja o vídeo da entrevista, no qual Textor fala sobre como surgiu o nome do advogado João Costa Quinta no negócio.

Como nasceu o negócio final? Agora ao vivo, Textor deu mais detalhes. Como já tinha tornado público, há um ano que andava à procura de oportunidades para investir em clubes na Europa. Laurie Pinto, do banco de investimento Blackstar Capital em Londres, era o ponta de lança. Num telefonema em maio, o Benfica começou a luzir aos olhos de Textor: «Diria que tive muita sorte, embora sorte não possa descrever muito bem os últimos dias (...) Fiz-lhe um telefonema, achei muito divertido porque havia música de fundo e deviam ser 4 da tarde. E perguntei: ‘Laurie, o que fazes num bar às 4 da tarde?’ Ele disse: estou a esconder-me de um dos maiores acionistas do Benfica. Disse como piada. Alguém que estava antes de mim não tinha aparecido durante dois dias e aparentemente o negócio estava a cair. Perguntei o que era, contou-me e eu, conhecendo o Benfica, nunca pensei que isto fosse uma possibilidade e pedi para avaliar».

Veja o vídeo da entrevista ao empresário norte-americano que explica que procurava "uma ligação entre clube e comunidade" e o "Benfica tem isso".

Veja o vídeo da entrevista, no qual Textor fala dos intermediários do negócio e das possíveis comissões para Laurie Pinto e Carlos Janela.

Nem um mês depois, a 16 de junho, estava em Portugal a assinar dois contratos com José António dos Santos: para comprar a participação do ‘Rei dos Frangos’ e mais 2 milhões de ações que o empresário lhe ofereceu, perfazendo uma participação de 25% pela qual se dispôs a pagar 50 milhões de euros, 8,70 euros por ação. Tinha conhecimento da proveniência das outras ações? «Foi-me explicado que ele tinha acordos. Se eram contratos firmes ou acordos verbais, não me cabe a mim saber. Mas foi por isso que tinham de ser dois contratos, porque ele tinha de finalizar esses acordos. E é por isso que isso que não foi divulgado, porque era preliminar. Ele teria de executar alguns desses acordos antes de me vender a mim», afirma, negando que Vieira tenha estado envolvido no negócio, confirmando que Carlos Janela foi a ponte entre Laurie Pinto e José António dos Santos e admitindo que pudesse haver lugar ao pagamento de comissões pela transação. Quanto a Vieira, garante uma vez mais que não negociou com ele. «Negociei com o senhor José António dos Santos e fechei um acordo com ele. O contrato foi feito por mim. Só no dia seguinte a assiná-lo pedi para ser recebido pelo senhor Vieira ou alguém da direção para ter a certeza que era bem recebido. Estive com Vieira meia hora em reunião com ele».

Veja o vídeo da entrevista, no qual Textor fala de uma imprensa agitada e de Luís Filipe Vieira.

 

‘Acho surpreendente que não soubessem’

A reunião aconteceu, mas não se ficou por aqui, o que o leva a mostrar-se ‘surpreendido’ que o clube não soubesse de nada, como afirmou publicamente na semana passada o Benfica. Sentiu-se enganado pelos interlocutores? «Enganado não. Não acho que alguém me tenha mentido. Acho muito surpreendente que a administração do Benfica não esteja a par das negociações. Mas, se eles dizem isso, tenho de acreditar. Visitei o estádio, colocaram-me um pin no casaco. Fui à Benfica TV, conheci trabalhadores. Como é que poderia assumir que estava a ser escondido ou que isto era um segredo? Conheci a águia. Aliás, as três águias. Deram-me camisolas para os meus filhos... Portanto, nada foi feito às escondidas. Isso não é propriamente uma visita secreta.» Quer isto dizer que duvida? «Acho difícil acreditar que o presidente não tivesse dito às pessoas que eram próximas dele. Respeito a palavra da direção e a decisão deles de esperar. Estão corretos: podia ter comprado as ações e dizer sou ‘dono delas. Pedi uma aprovação e disseram que não é o momento. Mas quanto ao que sabiam e quando, cabe-lhes a eles falar».

Veja o vídeo da entrevista, no qual Textor responde à questão se o Benfica conhecia ou não a sua proposta.

O empresário revela que a expectativa, antes da Operação Cartão Vermelho, era ter fechado o negócio há três semanas. Agora, mantém a oferta mas revela que veio a Portugal esta semana sem pedir uma reunião à SAD. O contrato com José António dos Santos mantém-se de pé, mas garante que até ao momento o que pagou foi um depósito inicial de um milhão de euros para demonstrar o interesse, a que se devia ter seguido um segundo pagamento na semana passada, que diz ter sido suspenso pelo empresário enquanto se clarifica a situação. Tudo depósitos não reembolsáveis e não pagamentos, insiste: se o negócio não for para a frente, perde o que já pagou. Se for, valem como adiantamentos. Informação que garante ter prontamente disponibilizado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) mal vieram a público as dúvidas sobre a licitude do negócio, apanhado nas escutas da Operação Cartão Vermelho e revelado em primeira mão pelo SOL, explicando que foi contactado pelo regulador pelo Linkedin e manteve o contacto diretamente com a CMVM, algo que da sua parte considera estar esclarecido. 

 

Os planos para o Benfica

É a falar sobre os planos para o Benfica que Textor, que descobriu o mundo do futebol em 2012 depois do seu maior fracasso enquanto investidor – a falência da Digital Domain, que fazia efeitos especiais para Hollywood – se entusiasma.

Garante que, tendo uma participação de 25% na SAD benfiquista, não tenciona ter qualquer interferência nas decisões sobre futebol, mas ajudar o clube a ter capital para tomar as decisões que entender, sem ter de vender os melhores jogadores nem dívida, que, como sinal de que quer ajudar, se ofereceu já para cobrir na emissão em curso, com que o clube quer angariar 35 milhões de euros.

Levar o Benfica para a Bolsa de Nova Iorque seria o primeiro passo: acredita que as ações do Benfica, atualmente a valer 4,12 euros, podem valorizar para os 65 e 70 euros com a negociação em Wall Street, onde acredita que os investidores veriam no Benfica uma «grande história».

Veja o vídeo da entrevista, no qual Textor fala sobre um eventual interesse de Wall Street no clube das águias.

Diz que o clube vale hoje 1,7 a 2 mil milhões de dólares e poderia chegar aos 4/5 mil milhões com a cotação no maior centro financeiro do planeta, que acredita que puxaria para cima as transações na Europa.  «Se chegámos aos 8 mil milhões com a fuboTV (a empresa de streaming que lançou em 2018 e da qual se reformou entetanto), seguramente o Benfica também pode. Esta riqueza, que é dois terços do clube, significa que o voleibol feminino, todas as outras equipas, ficam financiados para a eternidade. As pessoas pagam 15 euros para ser sócios, talvez pudessem gastar 15 euros a comprar ações porque agora é um bom investimento», diz.

Mas tem mais ideias, que não se importa que sejam consideradas «loucuras». E resume-as em alguns princípios, como o de que a audiência é mais importante do que a equipa. Acredita que é possível para um clube com o espírito do Benfica ter mais receitas para além da venda de bilhetes e direitos televisivos, entrando por mundos como as aplicações e redes sociais – e disponibilizando para a tal a sua Facebank, que criou tecnologia de reconhecimento facial para criar pinturas faciais virais. Ou, capitalizado, poderia comprar outros clubes mais pequenos, por exemplo para servirem de incubadora de jogadores (no Brasil) ou mesmo lançar um ‘FC Benfica’ em Miami, chegando a audiência junto da diáspora portuguesa. «Perguntam-me muitas vezes: qual é o clube mais valioso? Hoje digo o Benfica. Mas não se continuarem fechados. O clube mais valioso em Portugal será o primeiro que se abrir ao mundo», diz, recorrendo à História para lembrar o espírito conquistador dos portugueses. História que agora acha que também contamina como tem sido visto por alguns adeptos: «Há esta ideia do investidor americano que vai conquistar. Era a ideia dos exploradores portugueses e espanhóis», diz, garantindo que não está em causa ser dono do clube, mesmo tornando-se o maior acionista individual da SAD. «Isto está claramente definido, as pessoas do Benfica são donos, com 64%».

O investidor revela também que nas últimas semanas foi contactado por intermediários de outros clubes, como Sporting e Porto, mas que não tem planos para investir em mais nenhum clube em Portugal.

Do ponto de vista de negócio, estritamente como investidor, acredita que o Benfica é o melhor investimento para si: por aliar paixão pelo desporto, espírito comunitário e potencial financeiro, mas recusa fazer contas ao que esperar ganhar com um investimento de 50 milhões de euros mais uma eventual compra da dívida. «Não coloco as coisas nesses termos, nunca o fiz», diz.

Veja o vídeo da entrevista, no qual Textor elenca as qualidades de Portugal para explicar o seu interesse no clube.

Diz que já ajudou a crescer 23 empresas, pese o fracasso na Digital Domain.  Investiu e saiu. Até quando ficaria com as ações do Benfica, perguntamos. «Morreria com elas, deixá-las-ia para os meus filhos», responde. «Se passarem a valer dez vezes mais do que valem atualmente, venderia metade e mantinha metade. Claro, há uma parte que é investimento mas mesmo na fuboTV, de que me retirei, identifiquei parte das ações para vender e quero manter outra parte para sempre, porque me orgulho do que consegui».

De Vieira, demarca-se, até porque só esteve com ele pessoalmente menos de 30 minutos: «Penso que 27 minutos numa reunião com Vieira não devem desqualificar a minha oferta de ajuda». Admite que o processo que envolve ex-presidente do Benfica pode fazer com que não seja o melhor momento para a cotação em Wall Street, mas vê-o a acontecer em cinco meses e acredita que lá fora ninguém está a ligar à história. «Sei que este clube é mais forte que um homem e que o mundo não vai notar se for confirmado um novo líder, a equipa vai para campo e a vida continua».

Da sua parte, diz que investir ou não no Benfica não depende do desfecho do caso na justiça e que, em termos empresariais, confia nas auditorias financeiras do clube. Está a ‘ignorar’ a investigação e apenas à espera de ter um convite para o ‘jantar de família’, resume. Se não acontecer, garante que vai ficar destroçado, como também acontece nas paixões de verão. «Quando é a amor à primeira vista, não se deixa de gostar rapidamente. Não me imagino a desapaixonar-me do Benfica em seis meses. Se isto não acontecer, vou ficar destroçado durante anos. Não vou a lado nenhum, só não é o momento certo e vamos ver o que acontece com a direção».

Veja o vídeo da entrevista, no qual Textor deixa uma última mensagem aos adeptos do Benfica.