Sociedade

João Carreira: "Temos um país magnífico, quanto mais saio de cá mais adoro a nossa aldeia"

Já leva 34 anos de praia e à beira dos 60 João Carreira diz-se feliz por ter optado pelo negócio do mar. É presidente da Federação de Concessionários de Praia, mas é pelos seus negócios na Praia Morena e na da Sereia que se tornou um clássico da Costa da Caparica. Os mais antigos lembram-se também de Carreira à frente do mítico bar Metalúrgica, na 24 de Julho.


É já um clássico da Costa da Caparica. Quando decidiu apostar na praia? Estou aqui desde 1987, na praia da Sereia, no Waikiki. Foi aí que começou a vida artística de empresário, com 23 ou 24 anos. 

Vivia em Lisboa e deixou a cidade para vir viver para a praia. Sim, vim para a Torre das Argolas e agora vivo na Herdade da Aroeira. E já não saio de cá. Estou aqui perto do trabalho.

E antes dos 23 anos? Não foi nessa altura que investiu no Metalúrgica, no início da ‘movida’ da 24 de Julho? Com essa idade estudava, mas no ano seguinte, em 88/89, começámos com o projeto Metalúrgica. 

O que o levou a mudar de vida e apostar na praia?

Vínhamos aqui para a praia, éramos um grupo de amigos dos velhos tempos, quando éramos miúdos. E na altura colocou-se a ideia de na praia da Sereia ficarmos com o barzinho que havia e de explorar aquilo, porque achávamos que tinha potencial e estava mal explorado e foi assim que tudo aconteceu. Chegámos a acordo com a pessoa que concessionava e começámos ali a explorar. É evidente que o primeiro ano foi um ano muito engraçado, porque acabou por ser ali um clube dos amigos. Dava prejuízo, chegávamos ao final do verão e íamos ver as contas para pagar e eram contas gigantes, porque o pessoal estava ali mais numa de aprender a ser empresário. A partir daí, no segundo ano as coisas começaram a ter outro rumo.

Mas perdiam dinheiro porquê?

Perdíamos porque tínhamos muitos amigos que ficavam lá e aquilo acabava por ser a casa de praia dos amigos.

Dormiam lá?

Dormíamos lá todos, comíamos, metíamos o pessoal a ajudar e era um bocado assim. Foi uma experiência muito simpática. Mas chegámos a uma altura em que pensámos: «Bom, isto não pode ser assim, trabalho é trabalho e conhaque é conhaque».

E ficou sozinho com o negócio?

Depois fiquei sozinho e comecei a reestruturar a coisa de outra forma e foi mais ou menos aí o começo da minha vida de empresário. 

A Costa da Caparica era completamente diferente na altura.

Completamente diferente. Na Costa da Caparica nessa altura, praticamente só havia gente na praia durante um mês ou dois, porque as pessoas fora de época não vinham à praia. Por acaso, houve uma mudança gigante nesse aspeto, porque nós começámos a abrir mais cedo. E as pessoas, de alguma forma, como começaram a ter apoio de infraestruturas e dos restaurantes começaram a vir mais cedo para a praia. 

Foi um dos primeiros na zona a ‘oferecer’ outro tipo de apoio aos veraneantes.

Isso foi por sair um bocadinho do país. Uma pessoa ia bebendo o que via lá fora. E começámos a introduzir na praia desde aeróbica a ginástica, começámos a ter espreguiçadeiras e todo um serviço mais no areal, coisa que na altura nem era permitido.

Não era permitido?

Não, não era permitido esse tipo de serviço. Na altura só se podia abrir os restaurantes três meses, durante a época balnear, de junho a setembro. Mas agora já se pode funcionar todo o ano. Foi uma evolução muito boa. E mais, agora estou a lembrar-me que na altura quando viemos para a praia, não havia luz. Trabalhávamos só com geradores. No segundo ano, consegui comprar um gerador. No primeiro ano foi engraçado, porque tínhamos umas cubas em que colocávamos as bebidas e depois vinha um homem, que era quem levava gelo aos peixeiros do mercado da Costa da Caparica, e deixava-nos umas barras de gelo. Nós partíamos essas barras de gelo em cima das garrafas e era assim que as coisas ficavam frescas. Ao final do dia depois limpava-se aquilo.

Não vendiam peixe nessa altura?

Não, aí só vendíamos no fundo tudo o que era bebidas de cápsula e umas sandochas e saladas. 

O que havia para aqui além do Waikiki?

As concessões já existiam todas, só que os apoios eram aquelas cabaninhas de praia que havia antigamente, a que as pessoas iam. Havia aí algumas com o grelhador à porta. A partir daí, de alguma forma, e não quero ser vaidoso nisso, começámos a puxar pelos empresários da praia e começámos a melhorar. É evidente que as pessoas depois também começam a ver e a fazer. Ao ponto de depois começarmos também a fazer festas à noite, uma por semana e por aí fora.

Esse conceito também foi mais ou menos inovador para a Costa da Caparica.

Sim, era. As pessoas querem estar com o pé na areia e gostam de estar ao ar livre e de ver o mar, porque o mar tem uma energia forte. E é por isso que hoje em dia, agora nem tanto devido à pandemia, mas de um modo geral o pessoal aproveita a noite para fazer os jantares e prolongar a noite por aí fora.

Depois ficou com um segundo espaço que é este onde estamos.

Não, o segundo espaço a seguir ao Waikiki foi o Metalúrgica na Av. 24 de Julho nos anos 80. O Borda D’água que na altura era o Coconuts foi já nos anos 90, em 1995. Era um espaço que estava fechado, com problemas financeiros e judiciais, e resolvemos isso tudo. Foi mais um projeto que deu algum gozo e deu muito trabalho, mas costumo dizer que me divirto no trabalho.

Por que entrou no mundo da noite também?

Na altura a ‘movida’ lisboeta começava a dar os primeiros passos. Sempre estive na noite, adoro a noite. Quando éramos mais jovens era todos os dias, não falhávamos uma. E, de alguma forma, o bar da 24 de Julho foi um projeto que deu-me muito gozo, porque só havia o Bairro Alto e na 24 de Julho a única discoteca que havia era o Plateau e não havia nenhum bar para dar apoio. Como, a seguir ao verão, tínhamos uns meses largos de férias, este foi um projeto que também foi aliciante e começámos a pensar «isto faz falta aqui um barzinho para dar apoio» e fomos por aí fora. Com dois amigos, o Tetó e a Carmo Paixão, fizemos aquele espaço, o Metalúrgica. Um espaço de noite que ainda hoje as pessoas se lembram de se terem divertido imenso.

Isso era praticamente o bar das hospedeiras, não era?

Havia muita gente da TAP que ia lá porque um dos sócios, o Tetó, era comissário de bordo e no fundo trazia para ali os colegas todos, desde os pilotos, os comissários, as hospedeiras e tínhamos ali um ambiente muito engraçado e com muita cor. 

Voltando à praia, quais foram os confrontos que passou, naqueles momentos mais fora da caixa? Por exemplo, com as autoridades, que problemas é que tinha?

Com as autoridades foi sempre um problema, porque havia muitas entidades. Neste momento, só há a câmara municipal e a Agência Portuguesa do Ambiente, mas na altura havia muitas entidades com jurisdição, ou seja, desde a capitania, a câmaras, a Agência do Ambiente, a guarda fiscal, a GNR, etc. Portanto, havia aqui muitas das vezes um choque entre entidades. Queríamos trabalhar e entre elas mesmo chocavam ao nível das ideias e para resolver as coisas. Aquele exemplo da luz, fui eu que tratei. Na altura trabalhávamos com geradores que eram um poluente do ambiente e consegui reunir todas as pessoas e todas as entidades para nos autorizar a meter a luz, que foi paga por nós, os concessionários, desde a praia da Rainha até à Bela Vista, e foi algo que nos custou na ordem dos 150 mil euros a dividir por todos. Éramos 10 e portanto ficou a 15 mil euros cada um. Também tivemos um problema com uma das entidades que era responsável aqui da Arriba Fóssil porque achavam que tinham de ver o projeto e tinham de dar o ‘ok’, e queriam que em vez de ser aéreo fosse enterrado. Quer dizer, estávamos a pagar isto tudo, estávamos a melhorar o ambiente, a dar mais qualidade de serviço às empresas e essa entidade arranjou-nos problemas quando devia ter sido a primeira a dar luz verde. Depois lá conseguimos porque aquilo passou o mês de consulta pública e a coisa lá andou. 

E como fizeram com a água?

A água foi a câmara municipal que pôs, nos anos 80. Mas temos aqui uma situação nas praias da Costa da Caparica, que acho ridículo e nem gosto de dizer. Ainda trabalhamos com fossas séticas e este saneamento já devia estar feito há anos. Temos uma avença e vem aqui o homem do trator, que é o nosso melhor amigo, em que todos os dias despeja as fossas de todos os concessionários de praia. No século XXI, achamos que a câmara devia ter um papel nisto. Eles dizem que o vão fazer, mas o facto é que já lá vão 30 e tal anos e nunca mais começam essa obra.

Os seus espaços funcionam quantos meses por ano?

O Waikiki fecha cinco meses. O Borda D’água praticamente só fecha um mês e meio, por volta de dezembro. As pessoas hoje em dia cada vez mais procuram as praias mesmo fora de época, para virem de fim de semana ou para almoçar, desde que esteja um raio de sol.

Na altura, torna-se um fenómeno de moda aqui na Costa da Caparica e começa a trazer muita gente de Lisboa.

Devido também a andarmos a circular e a termos muitos amigos em vários lados. Estou a lembrar-me, por exemplo, de uma festa que fizemos aqui com o António Romano da Central Models, foi uma festa muito simpática. As pessoas apareciam e davam cor ao espaço e criava-se aqui um ponto de moda.

Com o tempo, como viu a chegada de outros espaços de praia da Costa mais novos e modernos?

Isto melhorou tudo, felizmente para a Costa da Caparica e até para o país, devido aos planeamentos de ordenamento da orla costeira e começam a aparecer empresários já a trabalhar a sério. O que está a acontecer agora a nível nacional é que há outras cadeias, algumas internacionais, nomeadamente aqui na Costa da Caparica temos uma série de franceses a ficarem com as concessões de alguns portugueses. Deve ser aliciante para eles. 

Já são cadeias mesmo?

Alguns são grupos de investidores que fazem esses acordos com os concessionários que já estão cansados porque isto acaba por não ser fácil de gerir por ser um negócio que trabalha muito com o sol. Se estiver a chover não está cá ninguém ou vem muito pouca gente. Os recursos humanos muitas das vezes são difíceis, porque num dia precisamos de 50 pessoas, só para ter uma ideia nós aqui temos quase 50 funcionários. 

Entre os dois espaços?

Não, só aqui.

E no Waikiki?

Na ordem dos 30 e pouco. Damos emprego a muita gente.

Se estiver a chover vêm os mesmos 50 funcionários?

Não, se estiver a chover ficam em casa, mas pagamos-lhes à mesma. Temos que ter aqui alguma sorte e esperança que o verão seja bom. Junho, julho e agosto acaba por ser a época forte. Apesar deste mês de junho não esteja a ser lá grande coisa, tivemos uns dias muito bons e outros menos bons, mas é um risco que temos e, por isso, há muita gente que não tem estruturas tão fortes e acabam por vender os apoios de praia a estrangeiros que aparecem aí. Acabam por fazer concorrência, mas quanto a mim é uma concorrência saudável. É sempre bom e dou-me bem com toda a gente.

Como se torna presidente da Federação Portuguesa de Concessionários de Praia?

Havia a necessidade de se criar a federação dos concessionários de praia. E a federação, no fundo, é onde estão todas as associações a nível nacional, porque isto acaba por ser um negócio que funciona na primeira linha do turismo, quer queiramos quer não. Nós acabamos por estar na primeira linha, na praia e com os turistas. E por haver aqui, entre várias câmaras e entidades, muitas situações de confronto e de choque na resolução dessas situações, achámos na altura que era importante criarmos esta federação para de alguma forma as coisas serem transparentes e iguais para todos.

Tem quantos associados? São mais de mil. 
Aqui na Costa da Caparica haverá mais alguém do seu tempo? Há o Chico da Cabana do Pescador, o Tony do Castelo e pouco mais. Na Fonte da Telha o Rampa, que também já é o filho que lá está, ao lado a Lourdes no Cabana. De resto, é tudo malta nova. Uns também vão envelhecendo, o Chico também já terá 70 e tal anos, o Tony, que é o pai da Cláudia Vieira, também já tem 70 e tal. 

Quais são os grandes problemas que os concessionários têm em comum? Às vezes é a interpretação dos anos de concessão, os investimentos que são feitos, porque há câmaras que interpretam de uma maneira, outras de outra. Ou melhor, há a Agência Portuguesa do Ambiente do Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve e no fundo eram quem tinha e tem jurisdição sobre todo o domínio público marítimo. E o que acontecia é que havia interpretações diferentes por parte de técnicos e há ainda hoje a necessidade de clarificar esse tipo de situações. Por exemplo, temos aqui um problema gravíssimo que são os nadadores salvadores, que é algo que é transversal ao país todo. Para ter uma ideia, os nadadores salvadores são contratados por nós, nós é que damos assistência à praia. Achamos que devíamos participar na segurança da praia, com os postos de vigia, e pagar uma parte da segurança, mas não devíamos ser só nós a tratar dessa situação. Quem forma os nadadores salvadores são o Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) e a Marinha e o que se passa é que grande parte deles são estudantes. Agora também têm vindo alguns brasileiros que vêm preencher as vagas que precisamos. 

Mas vêm do Brasil de propósito para cá?

Sim, vêm de propósito fazer a época balnear

E como é que eles sabem que existem essas vagas?

Agora começaram a aparecer associações de nadadores salvadores que, no fundo, fazem parcerias connosco e nós é que contratamos os nadadores e as associações coordenam a assistência à praia. Digamos que elas são uma agência prestadora de serviços. O que acontece é que se não tivermos assistência à praia não podemos abrir durante a época balnear, nos tais três meses, que também depende da zona do país. No norte são dois meses, no Algarve já são mais. Mas, de um modo geral, é junho, julho, agosto e setembro. Esta é uma situação em que considero que o Estado devia tentar resolver. É a segurança das pessoas que está em jogo. A nossa vocação é hoteleira, é taberneira como digo, não é dar segurança às pessoas, que é o mais importante. Se uma pessoa tiver um problema no mar tem ali um nadador em condições. Além disso, devia haver segurança em todo o litoral português. Temos quilómetros e quilómetros de zonas não concessionadas. Por exemplo, da Bela Vista até à Fonte da Telha, há uma zona não concessionada que não tem nadadores-salvadores, embora a câmara tenha apoiado com um jipe que circula nessas zonas para dar assistência aos utentes. Mas achamos que essa é uma situação que devia ser melhorada e que deviam ser as câmaras a fazer os planos de salvamento, porque, todos os anos, fazemos um plano de salvamento para as várias zonas do país e achamos que não devemos ser nós a fazer isso. Além disso, um dos problemas que sempre existiu aqui na Costa da Caparica é os acessos. Felizmente este ano, segundo sabemos, a câmara já tem aprovado todo o projeto para avançar com o melhoramento da estrada florestal a seguir à época balnear.

Vão alcatroar?

Não sabemos ainda. A estrada florestal é aquela que vem da Costa da Caparica e que vai até à Fonte da Telha que já é de alcatrão e depois estes acessos aqui já deviam estar prontos. Já melhorou, porque abriram um bocadinho, mas cada vez que uma pessoa vem aqui é uma lavagem no carro. Há tanta ideia de preservar o ambiente e o que acontece nestas praias todas da Costa da Caparica é que, de facto, as pessoas vêm à praia e vão gastar a seguir milhares de metros cúbicos de água para lavarem os carros. A água é um bem escasso, portanto, não faz sentido não arranjarem uma solução que seja boa para o ambiente e para os utentes. 

Ainda sobre os nadadores salvadores, em Portugal não temos suficientes?

É, por isso, que temos de contratar no Brasil? Ou a mão-de-obra é mais barata? O que acontece é que há nadadores salvadores que são estudantes. Se todos os que estão ativos e inscritos no ISN viessem para as praias e piscinas havia suficientes. Mas há muita gente com a formação que não exerce a profissão, ou seja, não vem para a praia, ou vem um mês ou uma semana e depois vão de férias, ou porque são estudantes e como é óbvio ainda estão a estudar. Portanto, esta situação da vinda dos nadadores salvadores do Brasil foi uma solução muito bem pensada e resolveu o problema, porque a maior parte deles são bons, são surfistas, alguns até são militares. Vêm para cá, fazem a época balnear, ganham bem e as coisas funcionam assim. Temos aqui despesas muito grandes, porque temos de dar apoio à praia, e com os nadadores salvadores, por exemplo este ano, por mês andamos na ordem dos 2.500 euros só para nadadores salvadores em cada praia. Por época balnear são dez mil euros por cada concessão. Além disso, ainda têm direito à alimentação em que eles comem desde o pequeno-almoço até saírem. São despesas muito grandes e, no fundo, estamos aqui a substituir o Estado com esses serviços.

Recuando um bocadinho, quando decidiu pôr o pé na areia, como é que a sua vida mudou? Por exemplo, quando começou a vender peixe, comprava aqui aos pescadores?

Fomos melhorando as infraestruturas e criando as condições para começarmos a ter outro leque de serviços. Como é óbvio, as pessoas gostam muito do peixe e aqui em frente ao mar tínhamos imensos pescadores na altura que apanhavam aqui o peixe. Nós inclusive ajudávamos os pescadores a puxar as redes. Eles agora têm um motor para fazer isso, mas antes íamos todos ajudar, até os utentes da praia, e eles davam-nos algum peixe. Havia também muito mais peixe e mais extensão de areal, que são coisas que ao longo destes anos levam uma pessoa a pensar na forma como o mar tem subido. Mas voltando ao nosso serviço, à medida que começámos a melhorar começou a aparecer mais gente, alguns pescadores também trabalhavam connosco a vender e até a grelhar o peixe, alguns até eram nadadores salvadores que na altura eram chamados banheiros.
Entretanto foi expandindo os seus negócios.

Sim, vou fazendo outras coisas. Depois deste projeto também abandonei a noite, cheguei a uma altura em que já não conseguia acompanhar a noite de Lisboa, não dava para estar em todas e fiquei-me pelo chinelo e pelo calção. Fora destes projetos da praia, tenho outro projeto dentro da Herdade da Aroeira que é o restaurante Golf D’água, que neste momento está lá o meu filho mais velho que também já anda a trabalhar na área. Acabou uma licenciatura e um mestrado, mas já dá um apoio ao pai. 

Quantos filhos tem?

Tenho três rapazes, um com 23, outro com 21 e tenho um que é o mais novinho, que é o meu ‘neto’ como eu digo que tem 12. 

Vocês têm de ter primeiros socorros e na casa de banho vi uma coisa a dizer apoio covid, o que é isso?

Devido à pandemia temos um plano de intervenção que tem de ser seguido e foi o que a Direção-Geral de Saúde (DGS) mandou para todos os restaurantes e apoios de praia. E aquela sala é para que, no fundo, se alguém se sentir mal e eventualmente tiver sintomas de covid-19 fique ali isolado até virem as autoridades de saúde. Felizmente isso nunca aconteceu, porque acho que supostamente as pessoas quando estão doentes não vêm à praia e até hoje ainda não tivemos nada. De facto, estamos aqui com um problema gravíssimo, porque este ano e no ano que passou, estamos e estivemos reduzidos a 50% da nossa capacidade, porque devido aos distanciamentos tivemos que reduzir muito as mesas. Mesmo em termos de trabalho fazíamos muitos eventos à noite com Djs internacionais e casamentos. Inclusive, no ano passado era o ano que mais casamentos tínhamos, com todos os fins de semana fora da época balnear preenchidos. Em julho e agosto não fazíamos casamentos, porque isso obrigava-nos a fechar ao público mais cedo e como é uma época muito forte com muita gente na praia era necessário dar esse apoio. Mas fora da época balnear tínhamos esses eventos e devido à pandemia não se conseguiu fazer nada. A noite também está completamente parada como em Lisboa e em todo o país. É uma quebra gigante e é uma situação de crise grande, mas vamos trabalhando o que podemos durante o dia e, dentro do possível, as coisas até estão a correr bem, por ser ao ar livre e por ser verão podemos explorar a praia. Mas podíamos estar a dar mais emprego se estivéssemos a trabalhar a 100% da nossa capacidade. 

Nos casamentos costumavam estar muitos convidados com pessoas mais velhas?

Sim, cada vez mais as pessoas procuram as praias para festas. Estou a lembrar-me por exemplo que muitos escritórios de advogados vêm para a praia fazer as festas de final de ano, os colégios também. Nos casamentos as pessoas vêm todas vestidas de branco, querem ver o pôr do sol e é simpático estar aqui num ambiente descontraído. É diferente, a pessoa está na praia e está de chinelo, não tem que estar num espaço fechado e ainda dá um mergulho se for preciso. Havia e há muita procura.

Há a moda de casar na praia?

É uma moda, porque quando um serviço é mais descontraído as coisas correm melhor.

Voltando à pandemia, quando o Governo decretou que as localidades com risco elevado ou muito elevado tinham que fechar mais cedo, primeiro às 13h e depois às 15h30, aos fins de semana, como deram a volta?

Tivemos que acatar as ordens, porque cumprimos a lei, mas achámos, de alguma forma, que isto foi uma situação ridícula porque as pessoas ficavam na praia na mesma, porque tínhamos assistência à praia, com os nadadores salvadores e com as casas de banho a funcionar. Portanto, no areal já não havia o problema do vírus e achamos que não foi a postura mais correta.

Essas pessoas podiam encomendar comida de outros sítios?

Essa foi outra situação para a qual alertámos, porque as pessoas estando na praia têm fome, querem beber e até trazem de casa e fazem os seus piquenicões no areal e aí não havia problema. Mas para o empresário já havia problema de estar a fazer o serviço. O que aconteceu foi que nesses fins de semana havia filas de utentes da praia que vinham ao take away, porque não nos permitiam fazer o delivery. Em todas as concessões a nível nacional havia filas enormes para os utentes se fornecerem. Alguém não pensou bem nisso e acredito que às vezes não é fácil gerir a pandemia. Mas em relação às praias, como é tudo esplanadas ao ar livre, que é o que as pessoas querem e o que é recomendado pelas autoridades, não achamos que tenha sido uma boa ajuda ao país e aos empresários que estão a sofrer imenso com quebras gigantes. Temos que ir vivendo e a navegar ao sabor do vento.

Aqui fazem os testes à covid-19?

Com a nova lei, no interior do restaurante perguntamos às pessoas se têm teste ou certificado digital. Não somos a autoridade e se as pessoas dizem que têm, ficam dentro, mas de um modo geral, o que está a acontecer nos nossos equipamentos é que as pessoas querem ficar na esplanada. Muito raramente, só se ficar frio ou mau tempo, é que as pessoas pedem para vir para dentro. O próprio utente está a fazer testes válidos por três dias (72 horas), mas também se for preciso temos aí os testes rápidos. As pessoas já assimilaram que têm que andar com essa documentação.

E já fizeram a alguém?

Já fizemos, mas foram muito poucos, a duas pessoas. 

Quem fez os testes?

Foi uma funcionária, mas achamos que não faz sentido. Porque para isso tínhamos que ter aqui outra estrutura com pessoas para fazer isso. E, para já, seria mais uma despesa grande, porque seria mais uma pessoa que iríamos ter só para fazer os testes. Depois não somos a autoridade, estar a confrontar os nossos clientes com esse tipo de coisas não faz sentido, porque as pessoas vêm para relaxar. Acreditamos que as pessoas também cumpram a lei e temos esperança que agora com as vacinas isto mude rapidamente e fiquemos imunes ao vírus. Ou, então, temos que viver com ele. Inglaterra passou do 8 para o 80, em Singapura as autoridades também dizem que temos de viver com o vírus, mas que os hospitais devem estar melhor preparados, com mais camas e médicos. Depois é o risco que cada um corre. Felizmente já levei as duas doses da vacina e acabo por viajar. O ano passado passei o Natal e o fim de ano no Brasil, depois em janeiro fui para as Maldivas, sempre com o receio de o teste dar positivo, mas até agora as coisas têm corrido bem.

Não se farta de praia?

Adoro praia. Quando é inverno e aqui está muito frio gosto de ir para o sol. 

Não usa muito calças durante o ano.

A minha fatiota é os chinelos e o calção e já não consigo viver se não estiver à beira mar e acabo por me divertir no trabalho. É gratificante.

Vai abrir mais algum espaço? Os que temos já nos dão muito trabalho, é evidente que vou diversificando com outros investimentos no imobiliário, para complementar esta atividade. Mas o que me dá gozo é estar aqui de chinelo, dar as minhas corridas à beira mar, dar uns mergulhos e ver o pôr do sol, porque temos o pôr do sol mais bonito do mundo. Temos um país magnífico, quanto mais saio de cá mais adoro aqui a nossa aldeia.

* Com Joana Mourão Carvalho