Opiniao

Debates da Nação – uma oportunidade perdida!


1.Como se viu esta semana pelo ‘Debate da Nação’, Costa diverte-se a esmagar a oposição. Muitíssimo bem preparado, fez um discurso de abertura a condicionar todo o debate, forçando a oposição a andar atrás dos diversos sucessos governamentais, excelentemente apregoados. Politicamente cruel com o PSD, quase ignorando o CDS, IL e Chega, condescendente com o ‘amigo’ PCP e não hostilizando demais o Bloco, Costa foi ele mesmo, um político que domina sem oposição os palcos da política.

Os autoelogios governamentais marcaram a intervenção inicial. Costa nunca ‘brinca em serviço’ e foi um desfiar de medidas como o aumento das vacinas, incluindo o planeamento dos jovens, o aumento real de profissionais no SNS (como se a quantidade significasse eficiência e qualidade) e, como ‘cereja no bolo’, a aplicação de quase Eur 1,4 MM do PRR para «reforçar os programas de saúde mental e oral, equipar os centros de saúde com meios complementares de diagnóstico, criar unidades móveis para a prestação de cuidados de saúde nas regiões de baixa densidade, abrir 5.500 camas de cuidados continuados e outras 400 para cuidados paliativos». Deu o mote e ‘matou’ o debate.

A oposição foi titubeante, desperdiçando tempo com aspetos secundários como o ‘dossier Cabrita’, demasiado gasto para ser tema num ‘Debate da Nação’. Cabrita é daquelas pessoas que quanto mais fala mais se afunda, mas os ‘timings’ da crítica a Cabrita estão perfeitamente confusos. Costa nunca desperdiça ocasiões e retorquiu impiedosamente ao referir que o PSD não tem qualquer visão para Portugal ao preocupar-se com questões perfeitamente acessórias.

Rio não pôde estar presente e foi confrangedor sentir que sem o seu líder, a bancada do PSD parece ficar tolhida assim que Costa começa a falar, tecendo loas à genialidade da sua governação e aos ‘amanhãs que cantam’. Adão Silva foi triturado ao falar do SNS, com Costa a enviesar a interpretação da realidade dos números, omitindo os tempos da troika que o PS teve de chamar em 2011. Carlos Pereira ainda tentou pegar no tema do PRR e Alexandre Poço foi objetivo a referir como os portugueses têm decrescido nos rankings europeus, como do PIB per capita. Mas todos falam sem serem ouvidos e a comunicação social ignora-os olimpicamente.

Num debate destes, a oposição deveria concentrar-se em questões concretas, como: (i) na Economia, sobre o nível da dívida pública (Eur 275,3 MM – 137,1% do PIB em março 2021) ou do endividamento da economia (novo máximo: Eur 757,5 MM em maio 2021), (ii) na saúde, nos atrasos factuais do SNS (consultas, operações, etc.), (iii) na Educação e suas políticas esquerdizantes (aulas de Cidadania ou ver o § 3 infra), ou (iv) nos transportes e nas mirabolantes promessas da aquisição de comboios. Tudo isto ficou por dizer e Costa sorriu para dentro.

O PCP lá se entreteve com os seus temas favoritos das alterações da lei laboral, tentando pedinchar mais qualquer coisa em troca do inevitável apoio que irá dar ao OE 2022 (se alguma dúvida existia, ficou dissipada ao abster-se na votação sobre a audição do ministro Cabrita, a propósito dos festejos do Sporting).

O Bloco faz o caminho das pedras. Antes apoiante do Governo, agora claramente na oposição, não encontra o tom certo das suas intervenções, com as críticas quase a confundirem-se com elogios. O CDS com Telmo Correia preocupado a fazer oposição interna a Francisco Rodrigues dos Santos, assumiu as ‘dores’ que a direita tem em se impor, estendendo uma passadeira ao PS que este não desperdiçou. IL e Chega tiveram discursos inflamados e contundentes mas sem repercussões e o PAN parece perdido depois de André Silva, pese a boa vontade de Inês Sousa Real.

Depois de vermos este ‘Debate da Nação’, a conclusão parece óbvia: Rio fez bem em secundar Costa ao reduzir a sua periodicidade, evitando males maiores como se viu com esta oposição claramente impreparada para enfrentar Costa e o PS que, à conta das reportagens que a comunicação social se apressou a fazer, deve ter ganho mais uns pontos percentuais nas sondagens.

2.Sinceramente, o tema da remodelação governamental passou a ser um tema de higiene nacional. Surpreende-me que Costa não se tenha antecipado, com o raríssimo sentido de oportunidade que possui. Mesmo com a oposição adormecida, deixar ‘apodrecer’ os seus ministros no lugar é, uma enorme crueldade para os mesmos que já não têm qualquer motivação para o desempenho das suas funções. Portugal, enquanto coletivo, não merece o prolongamento da agonia dos seus ministros.

3.Em 6 de julho foi publicado o Despacho 6605-A/2021 do gabinete do secretário de Estado Adjunto e da Educação, João Marques da Costa, que altera a partir de 1 de setembro todos os programas até agora em vigor do 1.º ao 12.º ano, passando a ser substituídos por «aprendizagens essenciais», seja lá o que for isto. Transcrevo uma parte do artigo do Prof. Santana Castilho (Público de 21 de julho): «O que se está a construir é uma escola com cada vez menos conhecimento, conformada com medíocres competências e indigentes aprendizagens essenciais». Sem dúvida que Tiago Brandão Rodrigues está a deixar uma marca indelével na educação, na verdade uma elegia à mediocridade!

P.S. – Um último pormenor exemplar do estado amorfo do PSD: quando Costa atacou a meio do debate o Governo de Passos Coelho, foi preciso vir Cotrim de Figueiredo (IL) assumir as honras da sua defesa!