Opinião

A insustentável leveza do ser

Há quem refira a vocação mexicana do partido socialista, há quem se dê conta de como a política de nomeações e de preenchimento de lugares públicos sofre entorses e pretere quem não apoia o poder, há quem identifique pressões e campanhas de opinião, há quem tenha atenção aos arautos do poder.


Eu sei que alguns comentadores se não cansam de combater o que consideram um exagero.

Pois com certeza que não estamos numa ditadura, os meios de comunicação social são livres, os partidos exercem os seus poderes, o direito de manifestação e o direito à greve praticam-se.

E, todavia, há quem refira a vocação mexicana do partido socialista, há quem se dê conta de como a política de nomeações e de preenchimento de lugares públicos sofre entorses e pretere quem não apoia o poder, há quem identifique pressões e campanhas de opinião, há quem tenha atenção aos arautos do poder.

E tudo isto se combina com aquele extraordinário projeto de criar um polvo capaz de dominar a banca, a comunicação social, a justiça, empresas chave e tudo o que mexendo importunava.

Ou se demonstra com a relação conspícua entre um grupo restrito de donos de tudo isto.

De facto, houve alguém ligado ao partido socialista que foi capaz de criar uma imensa e profunda confusão.

Ou porque se pretendia fazer uma opa ou evitar outra, ou porque se emprestava dinheiro para comprar maioria do capital social, ou porque se prometiam benefícios.

Tão complexas manobras que colocaram em causa o próprio equilíbrio da justiça e a capacidade da investigação.

Os megaprocessos são o resultado último.

Os vários casos entrecruzaram-se de tal modo que causam a maior dificuldade a quem tem por obrigação encontrar a verdade e aplicar a lei.

Isto é: para ter tudo em conta nunca mais se chega a uma conclusão, para separar processos perde-se a visão global da perfídia.

Portanto, uma considerável maioria tem razões para duvidar do modo como estes mesmos factos e as suas consequências afetam o exercício da política e a essencialidade da democracia.

Adquirimos razões para o desconforto.

E, apesar de tudo, não fosse a pandemia, vamos escolhendo governos e vivendo relativamente tranquilos.

Somos uma democracia.

E, nela vivendo, é essencial que o governo compreenda os seus limites.

Ao longo dos últimos tempos multiplicam-se os exageros, a pesporrência, o silêncio que procura negar a realidade.

Vem tudo isto a propósito de um acontecimento recente.

Um ministro decide fazer uma conferência de imprensa absolutamente esdrúxula.

Ignora um relatório cuja urgência se reclamava.

Lê, nele, o contrário.

E a questão até dói de tão simples.

Em plena pandemia, no surgimento documentado de nova variante, depois das notícias vindas de outras paragens, parecia evidente que grandes ajuntamentos sem regras seriam de evitar.

Ouvida a opinião da DGS e da PSP, não restavam dúvidas.

Acontece que o ministro não concordou e os festejos anunciaram-se.

Logo, não há, nem pode haver, nenhuma dúvida da sua responsabilidade.

Teve consequências este acontecimento.

A evolução da pandemia não foi a mesma.

Portugal e os portugueses foram prejudicados.

Entrou de férias a autoridade do Estado.

Há um ministro que tem dias nos quais exerce e outros nos quais não ouve, nem lê, nem fala.

Há um ministro que contraria a existência de um ministro.

E, perante este panorama triste de uma democracia sem vergonha, nada acontece.

Leve é o peso da responsabilidade