O mundo em calções

Depois da curva, cada vez mais longe


Os italianos sempre foram muito invejosos em relação aoGiro. De uma forma um bocado excessiva, até. No fundo, a ideia era que a Volta a Itália devia ser para italianos e ponto final. Em 1914, por exemplo, naquele que ficou conhecida como o Giro mais violento de todos os tempos, com desconto dado aos habituais exageros de que usam e abusam naquelas paragens, apresentaram-se 98 ciclistas à partida: 35 eram profissionais com equipa; 41 eram profissionais, mas sem equipa; 22 eram amadores, ou aquilo que os italianos chamavam de «aspiranti». O único estrangeiro com categoria suficiente para disputar a vitória era o francês Lucien Georges Manzan, mais conhecido por Lucien Petit-Breton, o primeiro aa vencer duas vezes a Volta a França.

A prova teve início à meia-noite, com a etapa Milão-Cuneo, de 420 km. Entretanto com as desistências de última hora, já só eram 81. A circuito foi tão duro que meteu cinco etapas de mais de 400 km, incluindo a mais longa de todas as da história da Volta a Itália, Lucca-Roma (430km), num total de 3,162 km. «Cazzo!». Ninguém ficará muito admirado se revelar aqui que apenas oito ciclistas concluíram a prova. Se o vencedor foi Alfonso Calzorani, o grande animador da maior parte dela foi um sujeito chamado Costante Girardengo – o que venceu a etapa Lucca-Roma – a despeito de, pouco depois, ter ficado pelo caminho.

Girardengo foi um dos mais populares corredores italianos de todos os tempos. O primeiro a ser tratado por Campioníssimo, tanto pelos populares como pela imprensa. Natural de Novi Ligure, onde nasceu a 18 de março de 1893, era um pequenote em altura mas maciço como os Alpes. Numa votação popular levada a cabo pela Gazzetta dello Sport, em 1920, foi eleito a figura mais querida do povo italiano, à frente de Benito Mussolini, o tratante que, por esse tempo, entusiasmava a Itália com as suas ideias de grandeza fascista. É claro que, por entre uma série infinda de vitórias em provas de menor peso (seis na Milão-San Remo, por exemplo), Costante venceu duas Voltas à Itália, uma em 1919 e a outra em 1924. Ambas depois da IGrande Guerra, portanto, e depois de, ingloriamente, ter sido obrigado a desistir em 1914. No entretanto, tornou-se tão imensamente italiano que, «Per la Madonna!», a estação de caminho de ferro de Novi Ligure passou a ser paragem obrigatória até para os comboios-expresso.

Costante Girardengo tinha um grande amigo de infância, também natural de Novi Ligure. Chamava-se Sante Pollastri e começou a roubar cedo, sobretudo carvão para aquecer a pequena casa de pedra onde vivia com a família. Tinha menos seis anos do que Costante e foi uma espécie de protegido dele, mas algo o empurrou para a vida de crime e para um ódio exacerbado a fardas, sobretudo as envergadas pelos ‘carabinieri’. Contou-se mais tarde que a irmã teria sido violada por um polícia e que Sante se deixara consumir pelo trauma até ao mais fundo da sua alma de rapazito indigente. Em 1918, quando se cruzou com o miserável, não perdeu a oportunidade de se vingar e despachou-o para o outro mundo a golpes de navalha. Depois pôs-se em fuga e andou a monte.

Nos anos 70, um músico romano de nome Francesco De Gregori, resolveu recuperar a história dos dois amigos de Novi Ligure. A fuga de um pelas estradas de Itália, com os adversários pedalando furiosamente na sua peugada, e a fuga do bandido, que se tornou anarquista, pelos campos e pelos montes com os ‘carabinieri’ batendo denodadamente todos os arbustos, árvores, restolho, montes e grutas na sua perseguição, despertou-lhe a veia poética e escreveu uma canção chamada Il Bandito e Il Campioni. O herói era, claro está!, Costante Girardengo: «Vai Girardengo, vai grande campione/Nessuno ti segue su quello stradone/Vai Girardengo, non si vede più Sante/È dietro a quella curva, è sempre più distante». No fundo era como se Girardengo fugisse também ao destino de ter um amigo criminoso.

Em 1922, Costante voltou a ser infeliz no Giro. Desistiu. Ao mesmo tempo, Sante Pollastri formara uma dupla terrível com outro tipo tão sem escrúpulos como ele, Renzo Novatore, e ambos assaltaram um funcionário da Banca Agricola Italiana que trazia consigo uma pasta de cabedal carregada de ouro. A história foi como nos filmes: «A bolsa ou a vida!». O funcionário tinha nome como toda a gente:Achille Casalegno. E mais valentia que a maior parte de todos nós: resistiu como pôde. Tiros foram disparados. Renzo e Achille caíram mortos no meio da rua, Sante foi preso e acusado, atirando as culpas do homicídio do diligente funcionário para as costas do camarada morto. Conseguiu fugir até voltar a ser capturado em Paris, em agosto de 1927. Nessa mesma semana, Costante comandou a equipa italiana que conquistou a World Champions Road em Nürburgring , na Alemanha. «Vai Girardengo, non si vede più Sante/È sempre più lontano, è sempre più distante/Sempre più lontano, sempre più distante.../Vai Girardengo, non si vede più Sante...».