Cultura

Julia Ducournau. "Faço filmes porque sou eu, não porque sou mulher"

Depois de ter feito duas pessoas desmaiar com a sua primeira longa-metragem, Raw, o novo filme de ciber-horror da francesa Julia Ducournau tornou-a apenas a segunda mulher a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, um prémio que a própria espera abrir a porta para outras realizadoras


Não quero que o meu género me defina», disse ao IndieWire a realizadora francesa Julia Ducournau, cujo filme, Titane, foi o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, o maior festival de cinema do mundo, tornando-se apenas a segunda vencedora deste prémio na história do certame.

«Quando as pessoas me descrevem como uma mulher realizadora é um pouco irritante, porque eu sou uma pessoa. Sou uma realizadora. Eu faço filmes porque sou eu, não porque sou uma mulher. Eu sou eu», partilhou a realizadora numa entrevista ao blog de cinema.

Ducournau causou um grande burburinho pelo seu mais recente filme, um filme controverso e que dividiu a opinião da crítica sobre uma rapariga que, depois de sofrer um acidente de carro durante a sua infância, passa a viver com uma placa de titânio (Titane, em francês) na cabeça que faz com que esta se sinta atraída (inclusive sexualmente) por carros. 

O filme que nasceu de um pesadelo recorrente da realizadora, em que esta dava à luz um automóvel, não é para todos.

O crítico do Guardian, Peter Bradshaw, descreveu Titane como «pateta e sem sentido» e afirmou que nem sequer era o melhor filme, para ele, em competição, enquanto a BBC classifica o filme «impossível de prever» como «uma bela, negra e distorcida fantasia» que tem tanto de «pesadelo como de uma maliciosa comédia que envolve sexo, violência, luzes sinistras e música pulsante», acrescentando ainda que é o «filme mais chocante de 2021».

Esta não é a primeira vez que Ducournau choca uma audiência. A realizadora já tinha colocado as cartas em cima da mesa com Raw, um filme que levou duas pessoas no cinema a desmaiar, sobre uma estudante de veterinária que se torna canibal – até antes, com as suas primeiras curtas-metragens chocantes e transgressivas. 

Mas este traço da francesa não surgiu apenas quando decidiu começar a realizar filmes, uma vez que é algo que a acompanha desde a infância.

A medicina do body horror

Nascida e criada em Paris, Ducournau formou-se em letras modernas e inglês e começou a estudar cinema, guionismo, na escola de cinema La Fémis, tendo posteriormente abandonado esta instituição em 2008.

As suas primeiras aventuras cinematográficas foram a curta-metragem Junior (2011), sobre uma rapariga que começa a perder a sua pele, como uma cobra, depois de contrair um vírus no estômago, e Mange (2012), um filme para a televisão, sobre uma mulher que sofria bulimia e que procurava vingança de um ex-colega de faculdade que a atormentava. 

Em 2016, realizou o anteriormente mencionado Raw que lhe valeu uma grande atenção mediática, especialmente pelo simbolismo ligado à emancipação feminina capturado pela performance da atriz principal Garance Marillier, no papel de Justine.

Um dos temas que estes filmes, incluindo Titane, possuem em comum é a obsessão pelo body horror, um estilo frequentemente associado ao cinema de terror que representa o corpo humano desfigurado através de manifestações de violência ou doenças, e que valeu à realizadora inúmeras comparações a um dos mestres desta prática, David Cronenberg.

«Não sinto que faça body horror», confessou Ducournau à IndieWire. «Eu uso o body horror como uma ferramenta nos meus filmes, que eu acredito que são dramas ou histórias sobre amor. Uso estas ferramentas porque me ajudam a exprimir aquilo que sinto em relação ao meu corpo». 

Esta obsessão não nasceu depois de ver filmes como Tetsuo: The Iron Man ou o Crash de Cronenberg, mas sim pela sua fascinação pelos empregos dos pais: o seu pai era dermatologista e a mãe ginecologista. 

«Os médicos têm uma maneira muito frontal e ao mesmo tempo distante de falar sobre o corpo e a morte», contou ao Guardian, em 2017, a propósito da estreia de Raw, acrescentando que muitas vezes participava nas discussões dos seus pais e isso contribuiu para que tivesse uma maior «consciencialização» do seu corpo.

«Estava a par que o meu corpo podia mutar-se em maneiras inesperadas e ter a sua própria autonomia. Tu não decidiste ter uma infeção, o teu corpo é que decidiu. Por isso, tu és o teu corpo ou o teu corpo é que és tu? Este é o tipo de coisas que sempre me fizeram pensar: o que é que isto representa em termos de identidade?», disse.

Trilhar um caminho

Apesar de Titane não ter sido o filme mais consensual do festival, foi aquele que mais encantou o júri liderado pelo realizador norte-americano Spike Lee, responsável por filmes icónicos como Do The Right Thing ou Malcolm X. 
Desde que o festival foi fundado, em 1946, Julia Ducournau foi apenas a segunda mulher a ganhar o prémio maior do evento, depois da neozelandesa Jane Campion pelo filme The Piano, em 1993, que dividiu o prémio com Chen Kaige, realizador do filme Farewell My Concubine. 

O tratamento das mulheres e a sua representação tem sido uma das controvérsias que tem acompanhado o festival nos últimos anos, desde a insistência de que todas as mulheres deveriam ser obrigadas a usar saltos altos na passadeira vermelha até ao facto de que apenas 82 filmes realizados por mulheres estiveram em competição pela Palma de Ouro, em comparação, 1645 filmes realizados por homens foram nomeados para este galardão.

Quando Ducournau recebeu a Palma de Ouro agradeceu ao júri por «deixarem entrar os monstros» na cerimónia e referiu ainda que a sua vitória não se pode «apenas resumir ao facto de ser uma mulher» e desejou que mais colegas arrecadem este prémio.

«Vai existir uma terceira, uma quarta e uma quinta [mulheres]...», disse aos jornalistas presentes.