Cultura

João XII. O mais canalha de todos os Papas!

Chamava-se Octaviano. Aos 10 anos foi bispo de Todi, aos 18 sentou-se na cadeira de São Pedro. Absolutamente desprovido de escrúpulos, desperdiçou os seus dez anos de papado no jogo, no álcool e em mulheres. O Palácio de Latrão, casa dos Papas, ficou conhecido como um prostíbulo


Não há muitas palavras para descrever Octaviano. Palavrões existirão uns poucos. Chamá-lo depravado é apenas um eufemismo. Na verdade era um canalha de pai e mãe e restante família. A lista das suas pulhices serviria para encher a Enciclopédia Britânica mas, bem à inglesa, a douta publicação resolveu não lhe conceder um espaço mais digno do que a sua velhacaria merecia. Claro que, como todos sabemos, o ser humano tem, lá no fundo, a tendência para se tornar uma besta de 126 patas à primeira oportunidade que lhe dão de expandir a sua face mais negra. O problema com Octaviano é que não era um ser humano como qualquer outro. Afinal sentava-se na cadeira de Pedro: ou seja, era Papa. E bem cedo o foi, com apenas 18 anos, o que poderia servir para desculpar algumas das suas improbidades, mas elas foram-se tornando cada vez mais indesculpáveis. Ou não. Quero dizer: estamos a falar da Igreja Católica Apostólica Romana e, portanto, todos têm direito à redenção. Até um animal do calibre de Octaviano que tomou o nome de João XII no momento de colocar a ínfula. O seu papado durou de 16 de Dezembro de 955 a 14 de Maio de 964, quando entregou a sua alma conspurcada ao Criador.

Octaviano era gente fina. De raízes, pelo menos, embora o pai, Alberico II, autodenominado Príncipe de Roma, também não fosse flor que se cheirasse. Não é muito normal, mas também acontecia nesses tempos em que Roma estava imersa no caos – ninguém foi capaz de estabelecer ao certo a sua maternidade. Ou foi Alda de Viena, meia-irmã de Alberico e filha do rei Hugo de Itália, ou foi um concubina de Alberico cujo nome a História não guardou. Segundo as palavras de Russel Chamberlin, que escreveu um livro extremamente curioso chamado The Bad Popes, «Roma não tinha classe média que, nas outras cidades de Itália, originou a Democracia limitada dos séculos posteriores. Não havia mercadores para criar riqueza e servirem como tampão entre os nobres e o povo. O principal rendimento da cidade vinha dos cofres de São Pedro: a sua principal indústria era a produção de sacerdotes e a exploração de peregrinos».

Desta forma, o poder de Roma estava exclusivamente entregue às grandes famílias, oculto em exércitos privados e em castelos de resistência intocável. Octaviano, no papel de João XII, pôde usar os rendimentos dos Estados Papais para manter os seus grupos armados que pareciam ter um prazer sádico em aterrorizar todos os cidadãos romanos da mais baixa estirpe.

Continuemos com as explicações de Chamberlin para tentar perceber a perversidade obtusa de João XII: «João parece que foi impelido para um rumo de sacrilégio deliberado que foi muito além do gozo casual dos prazeres sensuais. Era como se um elemento sombrio da sua natureza o incitasse a testar a extensão máxima do seu poder, um Calígula cristão, cujos crimes eram peculiarmente horríficos pelo ministério que desempenhava». Uma frase destas mexe com a nossa mais sórdida curiosidade. E faz-nos mergulhar num poço fétido sem fundo.

Os primeiros passos do canalha

Alberico teve o cuidado de deixar a educação do seu filho entregue à Igreja. A ideia não foi brilhante, mas a enorme influência que tinha sobre os cardeais de São Pedro garantiram-lhe, desde garoto, que viria a ser o sucessor do Papa Agapeto II mal este exalasse o seu último suspiro. E assim foi. Nessa altura já o jovem Octaviano era cardeal de Santa Maria in Dominica. Desde que assumiu o cargo, a sua ruindade surgiu publicamente em todo o seu horrendo esplendor. Não havia vício que o canalha não tivesse: era absolutamente viciado em todo o tipo de jogos, desde que houvesse dinheiro sobre a mesa, e tinha um apetite sexual insaciável, o qual resolvia recorrendo a prostitutas ou, com o seu bando de amigos devassos, dedicando-se à prática recorrente de violação de peregrinas dentro da própria Basílica de São Pedro. Acrescente-se em sua defesa, se é que tem direito a alguma, que o crime de violação na Roma desse tempo era considerado uma infração menor. Além disso, a sua tendência para se apaixonar pelas vítimas dos seus estupros empurrava-o para um prodigalidade que roçava a loucura, oferecendo propriedades e o governo de cidades inteiras às suas amantes de ocasião e, na maior parte das vezes, contrariadas. Era como se fosse movido por um arrependimento incompreensível e sentisse necessidade de as transformar em senhoras respeitadas da sociedade romana.

Por entre os seus devaneios libidinosos, dedicou-se à guerra com alguma dose de interesse. Não tardou a comandar, pessoalmente, o exército de profissionais que tinha sob as suas ordens, em ataques aos ducados da Lombardia, Beneventum e Cápua. Perante a ameaça de se verem frente a frente com o Papa João XII cavalgando garbosamente à frente dos seus soldados, os duques das duas cidades fizeram aquilo que também era prática na época: aliaram-se a Gisulfo I, príncipe de Salerno, que possuía um arsenal muito considerável. Como seria de esperar, puseram o marialva nos eixos num abrir e fechar de olhos, Octaviano teve de regressar a Roma com o rabo entre as pernas e o rabo do cavalo também entre as ditas, e assinar um tratado no qual comprometia o papado a não reclamar mais terras do que as que já possuía.

O problema é que dera parte de fraco e abrira as portas aos inimigos de Roma que passaram a considerar a cidade um alvo fácil, sobretudo um tal de Berengário II de Itália que não tardou a ameaçar os territórios papais, o que viria a obrigar JoãoII a colocar-se nas mãos de um novo aliado, o rei Otão I da Germânia, desde logo entronizado como patrício romano. Feliz da vida, Otão caminhou para Roma com os seus soldados, entrou na cidade por entre o maior dos burburinhos no dia 31 de Janeiro de 962 e jurou, de joelho no chão, que até ao fim da sua existência faria tudo o que estava ao seu alcance para defender o Papa.

As canalhices continuam...

Todas estas precipitações, próprias aliás de um mamífero tão jovem, não impediram João XII de se dedicar a algumas reformas da Igreja mas que foram minando por completo a sua credibilidade, que nunca foi grande coisa.

Para quem tinha o cargo de chefe espiritual dos cristãos, o assunto agravava-se à medida que ia fazendo demonstrações inequívocas do seu caráter dúbio ou mesmo da total falta do mesmo. O Palácio de Latrão, antigo edifício de Roma que serviu durante muitos anos como habitação papal, era visto pela populaça como um autêntico bordel. A corrupção moral da velha capital do grande império caiu nas ruas da amargura. Muitos sentiam-se tentados a seguir os exemplos dos seus senhores. E, como dizia Chamberlin, a falta de uma classe média que servisse de filtro entre os senhores que dominavam o poder e os miseráveis que penavam pelas ruas atafulhadas de lixo que fediam como uma latrina a céu aberto faziam da Cidade Eterna um lugar muito pouco recomendável.

João XII viria a ganhar o epíteto de mais jovem e pior de todos os papas. Louis Marie DeCormenin, historiador francês do início do Século XIX, definiu-o desta forma: «Um ladrão, um assassino e um incestuoso completamente inaceitável para representar Cristo no trono pontifico; este padre abominável conspurcou a cadeira de São Pedro durante nove anos e merece ser considerado o pior de todos os Papas». Vamos e venhamos: é obra! Octaviano teve o seu pontificado reduzido a apenas nove anos e emporcalhou-o de uma forma que permaneceu, como diziam os latinos, per omnia saeculo saeculorum. Outro termo que foi usado pelos latinos, não apenas para o classificar, mas para demarcar uma fase em que o papado entrou nas ruas da amargura foi Saeculum Obscurum, o Século Negro. Talvez Octaviano tenha sido o ponto mais baixo e mais vil desse século. O século da Pornocracia Papal. Eleito ou feito eleger com apenas 18 anos e com os efeitos da testosterona nos limites, João XII estava, como dizer?, marimbando-se para os mais básicos dos assuntos espirituais e ecuménicos. Havia coisa bem mais importantes para resolver no seu quotidiano, desde beber até tombar de borco numa poça de vómito, fazer apostas por tudo e por nada e fazer sexo por tudo e por tudo. O seu comportamento lascivo foi como se transmitisse aos concidadãos abertura para todas as nojeiras que lhes atravessassem os cérebros durante segundos. A depravação era motivo de orgulho e não de censura ou de vergonha. O bordel de Latrão deixou de ser somente um coio de prostitutas para começar a receber senhoras da sociedade que não desejavam comportar-se segundo as regras do seu estatuto social. Uma baderna total!

O fim do canalha

Ora, como se está mesmo a ver, João XII começou a fermentar inimigos como quem fermenta o pão nosso de cada dia nos dai hoje. O maior de todos eles era Berengário de Ivrea que durante décadas a fio se mantivera no poder à custa da sua horda de bandidos e torcionários pagos principescamente com o bodo roubado aos pobres, isto é, aos contínuos impostos que a sua real vontade ia sacando aos seus súbditos. De certa forma podemos dizer que estavam bem um para o outro. Ou, como refere o anexim, para canalha, canalha e meio.

Berengário era casado com uma mulher do seu nível de baixeza moral, Liudprand, e que ainda por cima se gabava publicamente da sua pulhice afirmando: «Só não sou a pior mulher do mundo viva porque a minha filha consegue ser muito pior do que eu!» Já veem, pela amostra, com que tipo de gentalha estamos a tratar. Enquanto João XII ia resolvendo os seus problemas caseiros – que os tinha – sobretudo focados em arcebispos e cardeais que tinham a coragem de o aconselhar a tornar-se mais moderado na sua vida de deboche – geralmente dava ordem para que os castrassem em público e, depois, que os decapitassem para que as cabeças ficassem espetadas em paus nas ruas de Roma para servirem de exemplo para os que estivessem na disposição de abrir a boca – Berengário ia tomando as cidades a norte de Roma, submetendo-as ao seu poder, e avançando lentamente para sul com a ideia fixa de tomar o trono romano.

O Papa estava demasiado distraído com o funcionamento dos órgãos sexuais femininos, erguendo em seu redor um harém do qual ia tirando, supõe-se, suprema satisfação. O seu descaramento foi de tal ordem que tratou de mandar para a forca o seu próprio confessor, e o confessor de um Papa era, à época, uma figura intocável pois servia como guardião de todos os pecados do Santo Padre. Sejamos práticos por um momento: na verdade, se os pecados de João XII eram tema de conversa por todas as esquinas de Roma e tinham imitadores um pouco por todo o lado, a vida do seu confessor não podia ser particularmente valiosa. No fundo, livrou-se de uma incomodativa excrescência que lhe sibilava aos ouvidos como uma mosca mole em tempo de verão.

Outro dos seus hábitos nefastos era o de derreter a fortuna papal em qualquer tipo de aposta que lhe propusessem, por mais imbecil que fosse e por mais hipóteses de perder que existisse. Alguns dos seus serventes mais próximos começaram a levar a mal, não que esturricasse o dinheiro dos filhos de São Pedro, mas que usasse uma linguagem absolutamente pagã nos momentos de irritação. Octaviano lá terá feito um esforço no seu pequeno cérebro e pensado que não era de bom tom dizer «Valha-me Deus!» de cada vez que via uma fortuna escapulir-se para mãos alheias. Deixou Deus de fora da equação e passou a dirigir-se diretamente a Júpiter. A Igreja é a Igreja: por mais bandalhos que fossem aqueles que cobriam com as vestes de bispos, arcebispos e por aí fora, Júpiter não era propriamente bem vindo a esse quinto dos infernos em que João transformara a Santa Madre Igreja. Os traidores foram saindo dos seus buracos como coelhos das suas luras. O tempo caminhava inexoravelmente contra o garoto que fora nomeado Bispo de Todi aos 10 anos e Papa aos 18. Russell Chamberlin descreveu assim o final triste do seu papado: «A agradável carreira de JoãoXII suspendeu-se subitamente. Atrás de si, cidadãos à beira da desordem, perante si, um inimigo implacável que era, também, um soldado hábil. O manto de príncipe caiu-lhe dos ombros, revelando apenas um jovem amedrontado, cujo único pensamento era o de salvar a vida e, se possível, os seus prazeres. Agora era apenas príncipe em título, mas ainda era Papa. E, no ano de 960, chamou em seu auxílio o imperador Otão da Saxónia».

O que Otão encontrou em Roma a primeira vez que lá pôs os pés não lhe agradou de forma alguma. A porcaria mental era tanta e estava tão profundamente arreigada nas classes superiores que só uma barrela monumental poderia voltar a transformar a cidade na capital de um reino saudável. Três anos mais tarde, obrigou o Papa João XII a responder pelos seus crimes, tantos e tão graves que eram que não ofereciam qualquer tipo de defesa. João sentiu-se traído. O homem a quem recorrera na maior de todas as suas aflições era agora o chefe dos seus carrascos. Ergueu a voz e proclamou-se Rei de Roma ao mesmo tempo que reuniu um sínodo que impedia a abolição do seu papado por ser um ato anticanónico. Depois, foi como se deixasse morrer. Na cama de uma mulher adúltera, nos arredores de Roma, uns dizem que atacado por uma apoplexia, outros que esganado pelo marido traído que entretanto chegara a casa. Em todo caso, teve um fim à sua medida. À medida de um canalha.