Sociedade

Meta de 85% de vacinados pode ter de ser revista

DGS não recomenda para já vacinação universal de crianças entre os 12 e os 15 anos. Governo aponta 85% de cobertura vacinal para levantamento de todas as restrições, mas seria preciso adesão total dos adultos e adolescentes para o país chegar lá.


O Governo fixou uma cobertura vacinal superior a 85% para o levantamento de todas as restrições, como proposto pelos peritos, mas o cenário poderá ter de ser revisto. Ontem a Direção Geral da Saúde anunciou que o parecer da comissão técnica de vacinação é que avance para já apenas a vacinação de crianças dos 12 aos 15 anos com comorbilidades. Sem a vacinação deste grupo etário, torna-se mais difícil que o país venha a atingir uma cobertura vacinal superior a 85% e fonte da task-force nacional de vacinação confirmou ao Nascer do SOL que as previsões de que essa meta seja alcançada em outubro foram feitas com o pressuposto da vacinação de jovens. Os dados populacionais, que o Nascer do SOL analisou, explicam: 14,5% da população portuguesa são crianças e jovens até aos 15 anos de idade. Seria preciso adesão total a partir dos 16 anos para que o país passasse a barreira dos 85% de vacinados, o que apesar de Portugal não registar índices elevados de relutância vacinal, torna o cenário menos atingível. Na população de maiores de 80, a primeira a ser vacinada, foi atingida uma cobertura vacinal de 99% nas primeiras doses e as segundas estão em 96%. Na população dos 65 aos 79, 99% nas primeiras doses e as segundas estão em 94%. Na população dos 50 aos 64 anos, 93% nas primeiras doses e as segundas vão nos 82%. A meta dos 85% foi estabelecida por ser considerado o possível patamar de imunidade de grupo com a variante delta do coronavírus, mas o assunto também não é consensual com um vírus cuja tendência é tornar-se endémico e vacinas que não protegem a transmissão a 100%.

A vacinação das crianças é no entanto encarada como uma barreira importante para evitar surtos no regresso às aulas em setembro, que podem atingir as faixas etárias mais velhas, esperando-se agora menor impacto em termos de severidade de doença. Na reunião do Infarmed, o epidemiologista Henrique Barros considerou que, com base nas modelações, é esperada uma onda pequena no inveno, com pouco relevo em termos de internamentos, mas sem vacinar crianças ficou o alerta de que haverá um pico inequívoco de casos. O frio extremo é outra variável, com base na experiência do inverno passado: o especialista estimou que por cada descida de cinco graus nas temperaturas mínimas médias haverá um aumento de 30% nos casos.

Prudência

A posição da comissão técnica de vacinação, em linha com a adotada em países como o Reino Unido, é para já de prudência. A decisão de vacinar de forma universal crianças fica assim em stand-by, anunciou Graça Freitas. «A doença é, nestas idades, ligeira. Também nestas idades, as crianças que apresentam comorbilidades têm um risco mais grave. Estima-se que existam 410 mil pessoas no grupo etário entre os 12 e os 15 anos. Nestas, muitas já têm imunidade conferida pela infeção», disse a diretora-geral da Saúde.

 Desde o início da epidemia, contam-se 95 mil casos dos 10 aos 19 anos de idade desde o início da epidemia. As crianças tiveram menos diagnósticos, mas também foram menos testadas do que a população em idade adulta e o inquérito serológico nacional apurou que a prevalência de anticorpos nas crianças não era menor do que nos adultos jovens, que registaram o maior peso nos diagnósticos. Ainda assim, o papel na transmissão tem sido evidenciado, até pela última vaga, em que a população mais jovem atingiu níveis de incidência mais elevados. A maioria dos surtos sinalizados desta vez também foram em contexto escolar, com menor expressão dos lares, o que foi associado à vacinação. Em termos de risco individual, o que está a ser pesado pelos técnicos são casos adversos de inflamação cardíaca associados à vacinação em pessoas mais jovens, que no caso das crianças são analisados face ao risco de contrair doença grave quando se é infetado com o SARS-Cov-2.

Desde o início da pandemia, registaram-se quatro óbitos em crianças e jovens com menos de 19 anos de idade, num total de 17344 mortes associadas a diagnósticos de covid-19 no país.  A DGS anunciou que para já a vacina será assim oferecida apenas a crianças com doenças prévias que conferem maior risco em caso de contágio. A autoridade nacional de saúde defendeu também que qualquer criança dos 12 ou 15 anos com indicação médica para a vacina tenha acesso à mesma, na calendarização que vier a ser definida.

Para já, o Governo e a task-force nacional de vacinação anunciaram esta semana que a vacinação de jovens com 16 e 17 anos arranca no fim de semana de 14 de agosto. A vacinação tem estado no entanto a ficar mais lenta nas últimas semanas fruto da disponibilidade de vacinas. Estão a ser administradas diariamente cerca de 83 mil doses. A task-force está a monitorizar a adesão agora a nível semanal, até para perceber se há alguma quebra na adesão a segundas tomas em período de férias ou na adesão dos jovens. Esta semana ainda havia apenas dados consolidados referentes à semana que acabou a 12 de julho: nessa semana, cerca de 2,5% dos utentes que tinham vacinação agendada e confirmada não compareceram no dia marcado nos centros de vacinação.  Por agora, a task-force considera que não há motivos para alarme: «Considerando as médias diárias de vacinação nas últimas semanas e a grande afluência ao portal do auto-agendamento nos últimos dias, não se verifica nenhuma diferença na adesão à vacinação das faixas mais jovens, comparativamente às faixas etárias mais velhas», indicou a equipa do vice-almirante Gouveia e Melo ao Nascer do SOL.

Nova etapa a partir deste domingo

A partir deste domingo, quando é esperado que 57% dos portugueses tenham a vacinação completa, anunciou António Costa, o país entra numa nova etapa. Baseando-se nas propostas dos peritos, o Governo deixa de aplicar regras diferentes nos concelhos de maior risco e levanta restrições de horários, abre bares com as regras de restaurantes (sem palco e pista de dança) e alarga a obrigatoriedade de apresentar certificados digitais em espaços públicos a todo o país na restauração: passam a ser exigidos para entrar em restaurantes e bares às sextas-feiras a partir das 19, aos fins de semana e feriados. Quem não tenha a vacina completa há mais de 14 dias, tem de apresentar um teste negativo, exigido também a crianças com mais de 12 anos. O certificado continuará a ser pedido para aceder a hotéis e eventos. Passa a ser exigido também para frequentar aulas de grupo em ginásios, spas, termas, parques aquáticos, bingos e casinos, atividades que estavam proibidas nos concelhos de risco elevado. O público regressa também aos estádios, com certificado e medição de febre.