À Esquerda e à Direita

Os dois lados da barricada

Tenho amigos que andaram pela extrema-esquerda nos idos anos 70 e que depois se foram identificando mais com o PS, seguindo-se o PSD, achando eu que agora alguns votam Iniciativa Liberal. Alguns desses não conseguem aceitar que Otelo não tenha tido direito a luto nacional e ficam irritados quando se fala nas FP25.


A polémica do dia de luto nacional que não se concedeu a Otelo Saraiva de Carvalho pela sua morte, pouco mexeu comigo, embora tenha assistido com muita atenção à polémica. Percebo os argumentos de ambos os lados da barricada, e penso que este ‘jogo’ tem tudo para acabar num empate. Tenho amigos que andaram pela extrema-esquerda nos idos anos 70 e que depois se foram identificando mais com o PS, seguindo-se o PSD, achando eu que agora alguns votam Iniciativa Liberal. Alguns desses não conseguem aceitar que Otelo não tenha tido direito a luto nacional e ficam irritados quando se fala nas FP25. Argumentam ainda que Cunhal, Freitas ou Spínola tiveram direito a luto nacional.

Depois há outros amigos que escrevem nos jornais e não deixaram passar o assunto em branco. A minha amiga Ana Sá Lopes escreveu no Público um editorial  à Ana Sá Lopes: apaixonado e indignado. Mas também li outros excelentes textos com argumentos contrários, daqueles que acham imperdoável que se pudesse dar um funeral de Estado a quem foi responsável pela morte de mais de uma dezena de pessoas.

Acho que os argumentos de ambas as partes são tão evidentes que não vejo que algum ‘árbitro’ consiga desempatar tal confronto, como disse no princípio da crónica. Se fosse um jogo de totobola diria que o x (empate) era garantido. A polémica tornou-se quase um caso religioso. Uns acreditam no Antigo Testamento, enquanto outros só se revêm no Novo.

Mas esta semana foi ainda palco de uma outra batalha, embora dentro da mesma família. O que se passa no CDS é verdadeiramente inacreditável. Não sei de que lado está a razão e tão pouco importa. O que parece evidente é que esta guerra das setas vai acabar por matar o partido. Onde já se viu, em vésperas de eleições autárquicas, os principais rostos do CDS aparecerem em público a desancarem de alto abaixo o líder, Francisco  Rodrigues dos Santos, vulgo Chicão? Como é possível candidatos autárquicos aceites pelo líder virem para a praça pública mostrarem a sua indignação pelas decisões de Chicão? Não seria preferível esperar pelas autárquicas para depois ajustarem contas?  Podem argumentar que as autárquicas poderão ser o enterro do partido e que o melhor é tentarem alterar as coisas antes da morte anunciada. Mas alguém acredita que será possível fazer uma mudança radical antes de setembro?

Os contestatários acham que por o Chega ir ficar à frente do CDS que é o fim deste? Na política há resultados que nos surpreendem constantemente. Em 1985 o PS_teve a pior votação de sempre nas legislativas, tendo Almeida Santos conquistado apenas 20,77% dos votos contra os 17,92% do PRD. O PSD ganhou com quase 30%. Depois foi o que se viu. O_PSD na maior, depois o PS e por aí fora e o PRD desapareceu de cena. Se continuarem por este caminho, Nuno Melo, João Almeida, Adolfo Mesquita Nunes, Pedro Mota Soares ou Nuno Magalhães, entre outros, podem ser os carrascos do CDS/PP, como gostava tanto de dizer Paulo Portas.

Reconheçamos, no entanto, que é sempre simpático haver outro motivo de discussão que não seja gerado pela ‘geringonça’.

P. S. À hora que escrevo só ganhámos uma medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio. O que não é nada mau para a média, já que saímos várias vezes de mãos a abanar da maior competição desportiva do mundo. No entanto, ainda acredito que possamos trazer medalhas no triplo salto, até mais do que uma, nos desportos de mar, e no lançamento do peso. Até pode ser que seja um grande ano, quem sabe? Já agora, adoro ver ginástica, natação, e atletismo, mas nestes jogos há coisas que me deixam a pensar se não estou nalgum circo. Jogos de basquetebol de três contra três? Skate? Basebol? E por que não o jogo do pião? Ou do guelas, como se dizia nos Olivais? Mais a sério: e o hóquei em patins?

vitor.rainho@sol.pt