Economia

PRR: Valor é "significativo" mas não chega a todas as empresas

Dos 16,6 mil milhões, 5 mil milhões são destinados a empresas. Analistas ouvidos pelo Nascer do SOL dizem que o valor é importante mas não chegará para todos e terá de ser bem aplicado.


A primeira tranche do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) chegará a Portugal já no início de agosto e os primeiros passos começam a ser dados. Esta sexta-feira foi dado mais um com o primeiro-ministro a garantir que o projeto da Barragem do Pisão, a construir no Crato, em Portalegre, é «simbólico do potencial transformador» permitido pelo plano.

António Costa garantiu ainda que que «o PRR é uma peça de um puzzle integral sobre a visão que temos sobre todas as regiões que designamos de interior» e prefere «designar de centralidade peninsular». E para «quem olha para o PRR com o ceticismo fatalista», considerando que Portugal vai «desperdiçar a oportunidade», o primeiro-ministro deu como exemplo este projeto.

Para já, altura em que a verba está prestes a chegar, o analista da XTB Henrique Tomé lembra que «o Governo deveria dar prioridade aos setores mais fragilizados com a pandemia, sobretudo aqueles que correm o risco de fechar», acrescentando ao Nascer do SOL que é «necessário também que se estimule o consumo interno no país para apoiar a recuperação económica».

E a verdade é que não só de projetos e construções vive o plano. Uma parte da verba é destinada às empresas que precisam de recuperar devido aos prejuízos incontáveis decorrentes da pandemia.

Sobre este assunto, João Costa, Country Manager da Expense Reduction Analysts, lembra que o PRR são 16,6 mil milhões «e destes, apenas 5 mil milhões são destinados a apoiar as empresas privadas», diz ao Nascer do SOL. Para o responsável, este é um montante «significativo», mas que «não chegará a todas as empresas afetadas e que, caso não seja bem utilizado, pode ser mais um tiro no escuro, que não contribui para o desenvolvimento da indústria e comércio nacionais».

Já Henrique Tomé lembra que, apesar de o plano português «ser o que apresenta uma maior proporção de apoios às empresas nacionais, entre os vários Estados-membros, ainda é cedo para perceber se este plano será suficiente para responder a todas as necessidades das empresas». E explica porquê: «As incertezas em torno da pandemia mantêm-se elevadas e podem comprometer a recuperação da atividade económica nacional, apesar da elevada taxa de vacinação contra a covid-19 que o país apresenta neste momento».

Mas, afinal, como é que este plano que agora chega finalmente a Portugal vai ajudar as empresas?
João Costa refere que o PRR inclui fundos para a capitalização e inovação empresarial, para a transição digital das empresas, temas muito importantes para o futuro do crescimento empresarial em Portugal. «Contudo, como é muito dinheiro, serão privilegiados os grandes projetos, que só podem ser apresentados por empresas de grande dimensão, que são muito poucas em Portugal e, que na sua maioria, estão nas mãos de grupos estrangeiros» e, por isso, «seriam precisos apoios que ajudassem as empresas viáveis a recuperar a atividade». 

O responsável vai mais longe ao avançar que «a verdade é que nos próximos anos Portugal terá de executar mais do dobro do que tem vindo a executar nos seus melhores anos», o que, ainda assim considera «uma ambição muito positiva». Só que é preciso «recordar que apenas se viabiliza se as empresas participarem ativamente. Neste sentido, considero que é preciso colocar em ação ferramentas de capitalização, executar o plano com transparência». E não há dúvidas: «Só assim este plano, que tem um fundo muito positivo, poderá ajudar realmente as empresas».
 
Como é que as empresas podem beneficiar?
O analista da XTB recordas as palavras do ministro da Economia, Siza Vieira, que referiu que parte das verbas deste programa também deveria ser investido para uma «economia com mais baixa intensidade carbónica, e melhorar o ambiente de negócios e a justiça económica» e, por isso, explica que «as empresas do setor energético poderão sair beneficiadas com esta aposta do ministro da economia». Mas, ainda assim, «os setores que têm estado mais expostos às consequências negativas da pandemia também serão beneficiados com este programa».

Já o Country manager da Expense Reduction Analysts diz ao Nascer do SOL que «sabendo que 99,9% do tecido empresarial português é composto por pequenas e médias empresas, podemos compreender o impacto que a pandemia teve nos seus negócios». E recorda que as empresas portuguesas que foram, no último ano e meio, «dizimadas pelas restrições impostas, principalmente, ao comércio desde os primeiros dias da pandemia em Portugal e pelos surtos em muitos setores, precisam de um apoio imediato», diz, deixando ainda o alerta: «A criação de novas empresas já começou a crescer, mas é preciso salvar as que já existem». 

O responsável defende ainda que as empresas que podem beneficiar desta plano serão, sobretudo, as grandes empresas e consórcios. A justificação é simples: «Isto porque serão privilegiados os grandes projetos, que só podem ser apresentados por empresas de grande dimensão, que são muito poucas em Portugal. No fundo, trata-se de ajudar as empresas que antes estavam a funcionar bem».

É preciso lembrar que, para as empresas que venham a ter acesso, este plano inclui fundos para a capitalização, inovação empresarial e para a transição digital, por exemplo. «Fatores que são muito importantes para o futuro do crescimento empresarial em Portugal, sabendo que o futuro é digital e que com a pandemia e o boom do e-commerce, muitas empresas só terão sucesso se tiverem fundos para fazer essa transição», diz João Costa.

Mas, ainda assim, considera que era possível «ir mais longe», deixando exemplos como Itália que «afetará à digitalização das empresas mais do dobro das verbas destinadas à administração pública, enquanto em Portugal o rácio é de 650 milhões de euros para as empresas contra mais de mil milhões para a administração pública».

E lembra que também o ponto da qualificação das pessoas é essencial, ainda que a outro nível. «O talento e a qualificação da população portuguesa é essencial para a construção de empresas mais rentáveis e mais eficazes».

Apoios são suficientes?
Henrique Tomé recorda que a economia portuguesa «é bastante frágil», uma situação que a pandemia veio agravar. Por isso, só será possível perceber se os apoios serão ou não suficientes «com o decorrer dos próximos meses para se conseguir medir a evolução da atividade económica». Suficientes ou não, não há dúvidas: «Os apoios às empresas serão fundamentais e deverão impulsionar significativamente a recuperação de vários setores».

Já João Costa não quis deixar de referir a «extrema importância» do plano para a reconstrução do tecido empresarial nacional mas recorda dados da CIP que dizem que metade das empresas avança que o PRR pouco ou nada impactará a sua atividade. «Isto é preocupante», diz.

E deixa sugestões: «Além de planos de capitalização, precisamos de incentivos, como, por exemplo, os que estão a ser pensados em países como a Grécia, que decidiram baixar o imposto para as empresas, impulsionando, assim, a retoma económica. Isto é algo que dizemos há muitos anos e que ao traçar um plano para relançar a economia portuguesa não pode ser deixado de fora». E não tem dúvidas que as empresas precisam de ser apoiadas, principalmente as que ficam de fora deste plano e que são viáveis. 

Para o responsável é claro que medidas como o layoff «tiveram um papel muito importante numa primeira fase da pandemia, mas agora aquilo de que precisamos é, por exemplo, de subvenções diretas de apoio à tesouraria». Exemplos não faltam: «Uma empresa têxtil que teve uma queda muito significativa, agora que o mercado retoma a procura, está sem recursos para relançar a sua atividade. Mesmo estendendo as moratórias, isso pode não ser suficiente».

Mas há outras soluções para relançar estas empresas que João Costa defende como é o caso da implementação de programas de recapitalização «que apoiassem organizações com um EBITDA historicamente positivo».