No Meio de Nós

Um desconfinamento confinado!


Estamos a caminhar para o desconfinamento e ainda temos mais de dois mil casos. É estranho, porque estamos já a anunciar um tempo novo para os homens novos, uma espécie de libertação messiânica das máscaras, mas estamos com um número de casos enorme.

Não é sobre o confinamento ou o desconfinamento que quero falar, nem da estranheza das medidas que estão a ser levadas a cabo para o futuro. Eu não me meto no trabalho dos cientistas, conforme também gostaria que ninguém se metesse no meu trabalho. Há doidos que pensam que podem falar sobre a ciência, mesmo não tendo estudado nada, outros que estão sempre a falar da religião sem nunca ter estudado nada. 

Vivemos num tempo das opiniões… ‘eu acho que…’

Todos acham, todos pensam, todos querem dar a sua opinião… mas ninguém estuda, nem sequer lê um único livro… ‘vi na internet’.

Gosto de ouvir os meus amigos negacionistas… que dizem que o vírus não existe… eu não sei se ele existe ou não existe. O que sei é que tive febre, dores no corpo e na cabeça, tosse e… o resto não digo. 

Uns diziam que o que eu tinha era uma gripezinha… Eu, que tenho pouca paciência para este tipo de conversas, ia ouvindo e dizendo que sim! Nem sequer encontro argumentos para dizer que o vírus existe ou não existe. O único facto que eu sabia era que estava doente e isso obrigou-me a ficar em casa mais quinze dias. Afinal testava positivo à covid-19.

Tirando os confinamentos gerais do ano passado e deste ano – que todos tivemos por obrigação nacional – já tive dois confinamentos este último ano por diferentes razões. O primeiro foi em outubro, porque estive a almoçar com uma pessoa que deu positivo no dia seguinte, agora, porque estive a conversar com uma pessoa numa sala fechada. Desta vez, deu positivo.

Com esta pandemia, iremos de confinamento em confinamento, até ao confinamento final. O problema não é tanto o confinamento, mas o que fazemos no confinamento. A maioria das pessoas está de tal forma habituada às suas alienações que não consegue estar parada durante um dia, quanto mais quinze dias.

Vivemos alienados, nos almoços e nos jantares, nos centros comerciais e nos passeios, nos convívios e nas discotecas, nos bares, nas praias, na vida… Para cinco minutos torna-se para todos uma tormenta, porque deixámos de estar habituados a nós próprios, à nossa interioridade.

Os confinamentos, para mim, têm sido um tempo incrível de poder entrar dentro de mim e ler e rezar e estar atento aos outros e a mim. É maravilhoso… 

Quantos livros li, quanto avancei na investigação bíblica, no estudo, na elaboração de textos e trabalhos. Como tem sido bom redescobir-me no meu interior e poder entrar dentro da minha intimidade, sem alienações exteriores.

Tenho encontrado pessoas que, depois destes confinamentos, entraram em descompensação afetiva ou mental. É normal… nós estamos habituados a correr para todo o lado e não estamos habituados a pensar, a encontrarmo-nos connosco. Por isso o silêncio destes tempo torna-se ensurdecedor. Não o conseguimos aguentar.

Quanto mais silêncio temos à nossa volta, maior é facilidade de escutarmos o que os sons mais profundos que temos dentro de nós. Alguns estão a encontrar-se com a sua realidade agora e não estão a gostar do que viram e ouviram. 

Ligamos a televisão para não ouvir o silêncio. Alienamo-nos agarrados a um nada que nada nos dá e vamos caminhando, mortos-vivos, para o nada que não sabemos onde é.

Estou em crer que muitos encontrarão salvação no meio das suas tormentas… e o culpado disso tudo é este bicharoco chamado coronavírus que nos está a obrigar a estar connosco…