Fundo? Parece que afinal já chegámos

E se, agora, a culpa já não for do António?


Quando em 2015, contra todas as expectativas e num clima político de reconhecida facilidade, o PS de António Costa perdeu (insista-se perdeu) as eleições contra a PAF de Passos Coelho, poucos terão sido os que pensaram que a sequência lógica desse desastrado resultado, não fosse a abdicação do líder do PS.

Este raciocínio era racional pois Costa tinha feito ao seu antecessor (Seguro), pouco tempo antes, uma exigência de demissão, apesar da vitória nas eleições europeias de 2014, com o célebre argumento do ‘poucochinho’.
Apesar de, infelizmente, na política, a memória ter perna curta é bom, de vez em quando, recordar o passado, para compreendermos o presente e projetarmos o futuro.

Sabemos que, apesar deste triste episódio o político Costa, sem que essa hipótese tenha sido abordada em campanha eleitoral (o que podia render mais ou menos votos) construiu uma solução governativa constitucional (parece que há muito tempo a moral se afastou do poder) que tem vindo a ser conhecida como ‘geringonça ‘.

A derrota/vitória de 2014, foi confirmada, quatro anos depois, tendo o PS passado a partido mais votado, o que permitiu aos ‘spin doctors’ de serviço, concluírem que afinal o povo votante tinha definitivamente consagrado a decisão anterior.

Voltando ao passado, sabemos que este novo êxito, foi conseguido num ambiente externo completamente diferente e com a permanente diabolização da figura de Passos Coelho que foi acusado de ter sido o responsável pela entrada da troika e das suas políticas em Portugal.

Apesar disso, o PS de Costa, tendo ganho as eleições, não conseguiu mobilizar mais do que 19 em cada 100 potenciais votantes, não tendo por isso obtido a desejada maioria absoluta.

Não são poucos os que pensaram e continuam a pensar (o cronista enquadra-se neste grupo) que a solução ‘geringonça’ foi uma má solução para Portugal, pois já produziu resultados que o comprovam (o aparecimento do Chega é um bom exemplo) e sobretudo, se continuar, como tudo indica que sucederá, será nefasta para a evolução futura da sociedade portuguesa.

Portugal é, no quadro da União Europeia, um país atrasado que todos os anos diverge dos seus verdadeiros concorrentes (a ficção de que está a crescer acima da média europeia é apenas a aplicação prática do conhecido princípio de que «os números, se devidamente torturados, dizem tudo o que pretendemos») e esta situação só pode ser alterada com uma mudança completa de política, de compromissos, de alianças, de respeito pela concertação social e de novos protagonistas.

Não podemos continuar resignados à ideia de vivermos num país ‘de muitos, muito pobres e de poucos muito ricos’, como refere a jornalista Helena Garrido, baseando-se em recentes estudos produzidos pelo Eurostat.

À mudança indispensável, alguns chamam ‘reformas’, mas talvez seja mais correto chamar-lhe ‘novo desígnio’ ou a construção de um verdadeiro e novo. ‘pacto nacional’.

Com a ‘geringonça’, o seu criador e os seus mentores, este objetivo nunca será atingido e basta analisar friamente a qualidade da intervenção do primeiro-ministro no recente debate sobre o Estado da Nação (ou da ‘bazuca’?) ou as promessas feitas nas suas sucessivas e maçadoras deslocações pelo país (já alguém fez a soma a tantos milhões oferecidos?), para se perceber que a navegação continuará a ser feita à vista e só terá como objetivo a manutenção no poder da elite partidária que é transitoriamente maioritária no Parlamento.

O país terá, à sua disposição, entre 2021 e 2026 (o que não quer dizer que receba tudo se muitas coisas entretanto não mudarem), 16644 milhões de euros, dos quais 13994 a título de subvenções (PRR).

Não modernizar e desenvolver o país depois desta ajuda, será criminoso e terá de ser severamente penalizado. Só os sonhadores podem imaginar que esta tarefa está ao alcance da ‘geringonça’. Tudo indica que, finalmente o Sr. Presidente da República já deixou de ‘sonhar’.

Só que para que deixe de haver ‘geringonça’, é preciso que haja democracia e partidos responsáveis alinhados com o Constituição e com os valores referenciais que fazem de Portugal um membro da União Europeia.

Infelizmente o partido que pode corporizar uma alternativa e estimular a mudança, todos os dias se esgota, sob a atual liderança, em equívocos, contradições e trapalhadas e, nomeadamente e não consegue compreender quais são, neste momento, as verdadeiras prioridades dos cidadãos portugueses.

É óbvio que um dia a lei eleitoral tem de ser alterada, embora as ‘soluções’ do PSD sejam discutíveis, até porque a atual lei não é responsável por nenhum verdadeiro bloqueio na vida pública, e é claro que a Constituição da República Portuguesa tem de ser adaptada (como aliás já o foi várias vezes), mas não é essa a agenda atual dos eleitores.
Insistir neste momento nessas propostas, é ter uma perceção errada da situação atual da vida política portuguesa, desviar atenções, facilitar a vida a quem governa e criar perplexidade.

Agora já não é mais possível poupar nas palavras: o PSD não tem estado à altura das suas responsabilidades. Só o próprio partido poderá explicar porquê!

Do António Costa já não esperamos surpresas; com mais ou menos otimismo irritante, capacidade em resolver puzzles ou utilização do que estiver à mão e servir o seu projeto, atropelando todos os que resistem, tudo continuará como agora e Portugal prosseguirá a sua caminhada para os piores lugares da cauda da Europa.

Da oposição democrática agora só se pode esperar tempo, pois, como sabemos, ‘não há uma segunda oportunidade para causar uma boa impressão’.

Até ao fim de 2021 pouco se irá passar; a partir de 2022 logo veremos.

É exatamente por isso que o problema talvez já não seja o António, mas sim o Rui (ou melhor a sua ausência e passividade).