Desporto

Fosbury voando de costas

Embora Dick treinasse o novo estilo desde os 16 anos, os Jogos do México tornaram-no universal.


Dia 20 de outubro de 1968. Dick começou a correr em direção à barra colocada a 2,24m. Um salto que lhe poderia dar a medalha de ouro nessa edição dos Jogos Olímpicos, disputada na Cidade do México. Houve quem suspendesse a respiração. Desde 1956 que nenhum atleta norte-americano era campeão olímpico do salto em altura. Dick sentia-se seguro de si mesmo. Treinara duramente para estar no melhor da sua forma. Ao sair da última passada, para surpresa de muita gente que seguia a prova um pouco por todo o mundo, rodou sobre si mesmo e ergueu-se de costas para a barra. Foi de costas que voou sobre ela de forma perfeita, bem acima da altura a que ela estava colocada, para cair, em seguida, sobre o colchão que ficava do outro lado. O público que rodeava o recinto ergueu-se entusiasmado e meio incrédulo. Acabara de assistir a um momento histórico. Um jornalista do The New York Times escreveu: «Fiquei com a sensação de acabara de ver um homem cair das traseiras de uma camioneta em movimento».

Chamaram-lhe o ‘Flop’, a reviravolta. Ou melhor, o ‘Fosbury Flop’. A reviravolta de Flosbury. Richard Douglas Fosbury nasceu no dia 6 de Março de 1947, em Portland, no Oregon. Era ainda um miúdo de 21 anos e por toda a parte se comentava o seu salto revolucionário. A partir desse dia 20 de outubro, nunca mais o salto em altura foi o mesmo. Poucos, muito poucos, resistiram à nova moda e mantiveram-se fiéis ao velho estilo do rolamento ventral, o de atacar a barra de frente, rolando com o peito sobre ela.

Apesar de ter espantado metade do universo com a sua técnica inédita, Dick já começara a praticar o ‘Flop’ desde os 16 anos, quando era aluno da Medford High School. E fracassara violentamente nos primeiros campeonatos universitários em que participou, falhando as cinco tentativas de que dispôs. Os colegas e amigos bem tentaram fazer com que se deixasse de maluquices. Afinal, magrinho, com 1,93m de altura, Fosbury tinha todas as condições para ser um bom saltador em altura. O problema era aquela ideia fixa. Que o fazia pôr em risco uma carreira de nível internacional. Outro problema era que se mostrava muito desajeitado quando saltava em rolamento ventral. No fundo, estava metido entre a espada e a parede. E a espada parecia a melhor solução: ou seja, abandonar a modalidade.

 

O Flop!

Dick descreveu a sua nova técnica desta forma: «Comecei a abordar o movimento pela direita em vez de, como era meu costume, pela esquerda. Depois lançava-me de costas por sobre a barra, arqueando-as o mais possível mantendo os joelhos dobrados até ao momento em que esticava as pernas e fazia com esse gesto o último impulso». Curiosamente, em inglês, ‘flop’ tanto pode significar reviravolta como falhanço... Rapidamente, a técnica de Fosbury passou a ser um caso de estudo. Um documento publicado sobre o ‘Flop’ por Valery Brumel, um russo que fora campeão olímpico em 1964 e se tornou um professor extremamente considerado, deixava expressas estas ideias: «Enquanto o estilo convencional, que ganhou o nome de ‘Straddle’, requer uma força muito grande sobre o joelho que faz o impulso, sendo por isso conveniente para atletas mais robustos, o Flop permite que o saltador se dedique mais à coordenação dos movimentos, reduzindo muito o risco de lesão nos ligamentos. Fosbury salta com os braços de lado, ao contrário de outros que os utilizam para ganhar poder de elevação – isso otimiza a distribuição da massa corporal e coloca o seu centro de gravidade bem no momento em que aborda a barra. Além do mais, é um estilo que, ao contrário do ‘Straddle’, não pede uma grande velocidade no momento em que o saltador começa a correr, exigindo, pelo contrário, o aumento da passada pelo caminho, o que obriga a um treino muito mais específico».

Por seu lado Dick limitava-se a comentar, modesto: «Sei que iniciei uma revolução. Mas é uma revolução que se vai transformar numa evolução».

 

A evolução.

O nome de ‘Fosbury Flop’ foi inventado por um jornalista do Medford Mail-Tribune em 1964, quatro anos antes de Dick ganhar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Ao cobrir um campeonato estadual, ilustrou uma foto de Dick saltando de costas sobre a barra com a frase: «Fosbury Flops Over Bar!». O artigo que acompanhava a imagem titulava-se: A Fish Flopping in a Boat. A verdade é que nem toda a imprensa americana se mostrou assim tão romântica em relação a inovação posta em prática por Richard. O peixe que saltava dentro de um barco foi pura e simplesmente apelidado do saltador mais preguiçoso do mundo. Afinal, nunca se vira ninguém saltar em altura deitado.

No final dos Jogos Olímpicos do México, Dick deu uma longa entrevista na qual foi absolutamente claro e preciso: «Penso que vários jovens vão tentar seguir o meu estilo a partir de agora. Mas o facto é que não consigo garantir-lhes resultados e não os aconselho a fazê-lo». Muitos treinadores vieram a público avisar que o estilo de Fosbury era perigoso para a saúde dos saltadores. O próprio selecionador olímpico americano do salto em altura, tratou de anunciar: «Corremos o risco de perder toda uma geração de saltadores por causa da quantidade de pescoços partidos». Dick, entretanto, continua a voar de costas nos saltos de todos os praticantes da sua modalidade que, depois dele, não voltaram atrás.