Viver para Contar

Um centurião

Otelo Saraiva de Carvalho não tinha preparação ideológica, nem uma cabeça politicamente estruturada, nem estabilidade emocional para seguir uma linha política coerente.

Um centurião

Otelo morreu. Correram rios de tinta sobre a sua morte. Nas rádios e nas televisões disseram-se milhões de palavras. Ao contrário do que é costume – normalmente não se bate nos mortos –, desta vez houve palavras de elogio mas também muitos ataques ao militar desaparecido. Houve até quem se congratulasse com o seu falecimento.

Com o devido respeito pelos escribas e pelos opinadores televisivos e radiofónicos, ninguém disse o essencial sobre Otelo Saraiva de Carvalho.

A esquerda apresentou-o como um herói, que devolveu a dignidade e a democracia ao povo português; a direita diabolizou-o, sobretudo por causa do seu envolvimento com as FP-25.

A esquerda falou dele como um homem de esquerda; a direita como um homem de extrema-esquerda. Ninguém acertou.

A maneira correta de caracterizar Otelo é só uma: ele era, por natureza e vocação, ‘um militar’. Um centurião. Um homem de armas que executa as tarefas que lhe são confiadas. E que as executa com competência, independentemente do seu conteúdo político.

Assim, executou competentemente missões em África – em Angola e na Guiné Bissau. Assim, executou competentemente uma operação em Portugal contra o Governo que mantinha a guerra colonial. E teria executado com a mesma competência outras que lhe fossem atribuídas: um golpe fascista, um golpe comunista, um golpe puramente militar. Tudo dependeria da circunstância.

Otelo, politicamente, era um catavento.

Não era um estadista revolucionário, passe o paradoxo, como Fidel Castro. Nem um guerrilheiro romântico, como Che Guevara. Terá sido patriota e colonialista quando estava em África. Terá sido democrata quando derrubou Marcello Caetano. Terá sido da extrema-esquerda quando comandou o COPCON. Terá sido comunista quando foi a Cuba. Ter-se-á tornado terrorista quando se envolveu com as FP-25.

Otelo não tinha qualquer preparação ideológica, nem uma cabeça politicamente estruturada, nem estabilidade emocional para seguir uma linha política coerente. Os seus discursos eram de uma pobreza franciscana. Falava constantemente no «povo», que é uma entidade abstrata.

O que é povo? É o conjunto da população de um país? Se é, engloba toda a gente – ricos, pobres e remediados, classe média.

Ou os ricos não farão parte do povo? E a classe média, fará? A classe média toda ou só a classe média baixa?

Então o povo serão os pobres e a classe média baixa. Será isto? Mas isso deixa de fora a maioria da população…

Otelo nunca aprofundou estes conceitos, porque não era isso o que lhe interessava. Ele era um militar, repito. As questões ideológicas eram para outros. Se tivesse vivido na Itália de Mussolini poderia ter sido um competente oficial do Exército fascista. Se tivesse vivido na Alemanha hitleriana poderia ter sido um competente oficial do Exército nazi. Se tivesse vivido na União Soviética poderia ter sido um competente oficial do Exército comunista. Se tivesse vivido na Inglaterra ou nos EUA poderia ter sido um competente oficial do Exército aliado.

Não se leve isto a mal: as pessoas são o que são. Otelo não era feito para ser um ideólogo, nem um estadista, nem um revolucionário: era feito para montar e executar militarmente operações politicamente determinadas de cima, pelos governantes ou pelos comités políticos revolucionários, como foi o caso do 25 de Abril.

Não se faça de Otelo aquilo que nunca foi nem poderia ser – porque a sua vocação não era essa. A esquerda não tem de o endeusar, pela simples razão de que ele não era um militante de qualquer causa. E a direita, pelo mesmo motivo, não tem de o diabolizar. Claro que há os mortos, pelos quais direta ou indiretamente foi responsável. Mas em relação a eles, infelizmente, não há nada a fazer, e a responsabilidade ficou com a sua consciência.

Há homens que foram para o Exército como poderiam ter ido para engenheiros, operários ou técnicos de televisão. Há militares-políticos, homens que tendo seguido a carreira das armas se sentiam mais atraídos pela política. Melo Antunes estava nesta categoria. Otelo era um militar-militar: se tivesse nascido outra vez voltaria a seguir a carreira da tropa. E se tivesse nascido 50 anos antes teria estado no 28 de Maio, como a maioria dos oficiais daquela época, e não no 25 de Abril.

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