Politica

Rui Azevedo Teixeira: "Sou solidário a 100% com a História de Portugal. Não é só no bem"

Homem de armas e de letras, tem explorado a relação entre a literatura e a guerra. O seu mais recente livro é um romance que recupera a sua experiência em África.


Encontramo-nos no primeiro andar de um restaurante do centro de Lisboa. Em cima da mesa há duas garrafas de vinho tinto abertas. A primeira – excelente – não é para beber até ao fim, serve apenas como uma espécie de aperitivo. O segundo néctar será servido a meio da longa refeição, num momento solene, quase religioso. «É uma missa a Baco», descreve o anfitrião com os olhos fechados, para apreciar melhor o conteúdo do copo. «Por favor, agora não me diga nada!».

Nascido em Argivai, Póvoa do Varzim, há 70 anos, Rui de Azevedo Teixeira viveu em Macau em criança. Fez o curso dos Comandos e combateu em Angola, onde testemunhou situações diabólicas que causariam pesadelos a qualquer um. Viveu uma segunda vida como académico: estudou e ensinou literatura, doutorou-se em Literatura Portuguesa na Alemanha e fez a agregação, por unanimidade, em Estudos Portugueses. Diz que se fosse mais novo se dedicaria à produção de vinho na sua quinta.

Homem de armas e de letras apaixonado por Camões, membro do ‘bando dos cinco’ (com o general Almeida Bruno, o almirante José Carvalheira, o lendário Alpoim Calvão e o professor de Medicina Ângelo Lucas), concilia essas duas facetas só aparentemente díspares nos seus livros. A sua tese de doutoramento intitulava-se justamente A Guerra Colonial e o Romance Português: Agonia e Catarse. Assinou uma biografia do major-general Jaime Neves e um volume de ensaio literário, Ensaios de Espelho (Edições Sem Nome), onde explora a relação entre a literatura e a guerra. O seu livro mais recente, O Elogio da Dureza (ed. Gradiva), que descreve como ‘faction’ (fact+fiction, uma mistura de facto e ficção), relata a experiência do protagonista, Paulo de Trava Lobo Ferreira, em África.

A inspiração autobiográfica salta à vista: «Ouviu um tiro e depois outro disparados de lugares opostos. Tiros de misericórdia em moribundos. Pareciam tiros de assassinos, mas não eram. Os comandos não abandonavam inimigos feridos. Deixados vivos, ficariam a morrer aos poucos, gritando de dor, antes de serem comidos e passados a esqueletos e a fezes de animais. […] Paulo chegou-se à rapariga e, numa carícia, passou a mão pela carapinha molhada. Ela levantou a cabeça e Paulo evitou-lhe o olhar. Não podia olhar para os olhos dela. Se o fizesse talvez não conseguisse fazer o que tinha de ser feito. Pior, se a olhasse nos olhos ao executá-la, a última centelha de vida do seu olhar persegui-lo-ia toda a vida. Acusá-lo-ia pela vida fora. Tinha ouvido, no bar de oficiais do CIC, histórias sobre fuzilados a quem se tapam os olhos para que os fuziladores não continuem a ver até ao fim da vida o olhar dos que mataram».

O percurso de Rui de Azevedo Teixeira é variado. Para ajudar a reconstituí-lo, espalha um naipe de fotografias em cima da mesa. Algumas retratam instantes da guerra. «Não acredita nisto mas é verdade: no Leste de Angola, no princípio da guerra colonial, a cavalaria a apanhar terroristas à mão. Com cavalos, mesmo». Parece uma cena do Faroeste. Passa para outra sequência de imagens que mostra um homem a sair de uma palhota, a ser atingido quase à queima-roupa e a cair. «Um ataque a um acampamento», explica. É como se estivéssemos a assistir à morte em direto. Mas há outros testemunhos menos dramáticos. Fotos com amigos, com académicos, em Lisboa, no Brasil ou no Novo México, de congressos, de almoços, da típica casa minhota onde nasceu. Ou da mulher – a sua «prisão voluntária», como diz – de quem teve de se despedir recentemente. «Como dizia o Hemingway, as histórias de amor acabam sempre mal», resume. «Mais não seja porque um morre».

Tem um pequeno arquivo?

Tenho muita coisa. Mas desarrumada. Olhe, nesta fotografia estou a tentar ‘hipnotizar’ o Alpoim Calvão, nos almoços a dois. [ri-se] Foi o tipo mais interessante que conheci na vida. De longe.

Pela experiência de vida e pelas histórias que contava?

E pelo charme que tinha. Eu chamava-lhe muitas vezes ‘cocuana’ – cocuana é ‘velho’ num dialeto moçambicano. Uma vez perguntei-lhe: ‘Ó cocuana, e o Jaime Neves?’ E ele para mim: ‘O Neves é mais a Sul!’. [risos] Porque o Alpoim é de Chaves e o Neves de Vila Real... A ideia que eu tinha – todos tinham – é que ele era um homem que vinha de muito longe... do século XV. Você conversava com ele e sentia ‘este tipo tem a estatura de um Afonso de Albuquerque’. Com o Alpoim você sentia constantemente ‘este tipo é outra coisa’. Um homem de outra galáxia.

Nós conhecemo-nos através do António-Pedro Vasconcelos, de quem é amigo. O Rui teve alguma coisa a ver com Os Imortais, o filme dele sobre a guerra?

O António-Pedro pediu-me, e eu fiz com todo o gosto, uma revisão ao script, e corrigi partes que tinham a ver com guerra. Pouca coisa. Aliás o script está maravilhoso. Corrigi o quê? Pequenas coisas que quem não fez a guerra não sabe. Nas cenas de tiros era só metralhadoras por todo o lado. E não era assim. Nos Comandos, aprende-se no curso: cada tiro deve ser uma certidão de óbito. É tiro a tiro. Quem fez a tropa nos Comandos fica irritado normalmente com os filmes de guerra. Porque vê o pessoal ao molho, aos tiros, as rajadas... Não é nada disso. Primeiro não é ao molho. Tem de haver uma distância de segurança. Se vão ao molho, atiram uma granada, matam logo cinco ou seis. E depois rajadas não, rajadas é de quem não está a ver nada. Está a tentar meter medo pelo som. Mas o que mete medo na mata é ouvir ‘pim’. Porque está a apontar…

No seu livro há uma cena em que uns guerrilheiros cometem o pecado mortal de irem todos juntos e são chacinados. Mas antes de falarmos do livro, como começa a sua relação com a literatura?

Eu diria que tudo começa com Camões… É como aquela estátua que há no Chiado. O Camões ali…

Em cima?

Em cima. E os outros à volta cá em baixo. Depois do Camões é o Pessoa – um génio. E, para mim, a seguir ao Pessoa vem o Pessanha. ‘Ao longe os barcos de flores’, ‘Quem rasgou os meus lençóis de linho’… Aquilo é poesia em estado puro. Até arrepia...

Tinha publicado há pouco tempo os Ensaios de Espelho. Agora um romance. É uma evolução?

Este livro, que é o meu primeiro de ficção, vem numa sequência lógica e muito segura. O primeiro livro que publiquei foi a tese de doutoramento, um ensaio académico, com aquelas regras todas. O livro a seguir já foi um ensaio literário, com a ‘sabedoria académica’, digamos, mas solto. Depois faço a biografia do Jaime Neves, ensaio biográfico. Ia tendo problemas, não com o Neves, mas com gente da associação de comandos. Acho que sou único nisto. Como estou ligado à tropa, aos Comandos, e à Universidade de Letras, alguns tipos da universidade dizem: ‘Esse tipo veio dos Comandos, é de extrema-direita’. Os da tropa: ‘Este gajo é da universidade, é de esquerda’.

E então, onde se situa?

Não sou nem de direita nem de esquerda, não troquei os meus princípios por nenhuma ideologia. Não tenho ‘trela’ ideológica. Nem trela nem açaime. Não tenho. Só tinha duas prisões – e prisões escolhidas por mim, meti-me dentro delas e não queria sair. Em termos de pessoa, a minha mulher. Estivemos casados quase 45 anos. E depois o Camões. Sou um leitor diário de Camões. Desde puto do liceu, antes da adolescência, pelos 13, 14 anos. O Camões na minha adolescência nem era bem um escritor, era uma entidade, quase um deus. E é o meu deus laico. É inesgotável, pura e simplesmente.

Esse facto de ser visto com desconfiança de um lado e do outro trouxe-lhe dissabores?

Andei de um lado para o outro porque não estava para aturar este ou aquele, punha-me na alheta, mas também podia pôr-me na alheta porque não havia filhos e a minha mulher apoiava-me. E uma coisa curiosa. Sempre que largava um posto de trabalho qualquer por me chatear, o que vinha a seguir era melhor. Diziam-me: ‘Estás lixado’, mas a seguir aparecia melhor ainda. Fazia-me lembrar aquela coisa dos chineses: uma crise é uma oportunidade.

O seu livro começa com o protagonista, o Paulo de Trava Lobo Ferreira, a viver um episódio traumático, quando descobre que é filho de pai incógnito. E depois faz uma promessa: ‘Never cry. Never complain. Never explain’. Não chorar foi uma promessa que também fez a si próprio, como o Paulo?

Foi. A minha mulher até gozava comigo: ‘Tens um defeito de fabrico, não tens bolsa lacrimal’. Fiz essa promessa, falhou agora, com a minha ‘prisão benigna’. Durante três dias… Com a minha mulher aprendi: 1.º que as mulheres são mais persistentes. 2.º que apanham o mundo de uma maneira completamente diferente da nossa. Isso até se reflete na escrita. A Camille Paglia diz que a escrita feminina é como uma sopa. Cai tudo lá dentro, não há um sentido de ordem. E elas dizem que nós somos muito básicos. Pense nos órgãos genitais. O da mulher é enroscado, enquanto o do homem vai a direito… É uma marca anatómica.

O Paulo tem um diário onde escreve, o Diário Incerto. Esse diário existe?

Existe. Esta trilogia, a substância dela, no essencial está escrita há não sei quantos anos. Depois vêm os problemas de estrutura e problemas estilísticos, porque não consigo publicar uma frase em que não veja o meu rosto. Sou obsessivo nisso.

O protagonista é um alter ego seu?

O José Manuel Barroso, que é um poeta singular, escreveu um textozinho muito bom sobre este livro, em que faz ligação aos Ensaios de Espelho. Ele diz que há um jogo de espelhos entre o autor e o protagonista, em que se vigiam, espiam-se e projetam-se um no outro. Está muito bem apanhado.

O leitor questiona-se constantemente até que ponto o livro é autobiografia.

Conhece aquele conto genial do Pessoa, ‘Noronha esteve aqui’?

Não tenho a certeza…

Não leu, porque se tivesse lido sabia. O Pessoa, que a única viagem que fez a sério foi da África do Sul para aqui, e depois não saiu da Baixa, escreve um conto sobre um célebre explorador inglês no século XVIII, que vai entrar numa zona inexplorada, numas montanhas, e antes dá umas entrevistas. Quando chega à zona mais remota, mais inacessível, olha para uma árvore e está lá escrito: ‘Noronha esteve aqui’. É genial! Se pensarmos no património mental do Pessoa, é um texto autobiográfico. Autobiografia é tudo. Diria, para simplificar, que o meu livro será uma ‘faction’, fact e fiction. Para simplificar.

A sua vida é a matéria-prima, por assim dizer?

Os tempos e espaços são meus. O universo da tropa/comandos e o universo da universidade são meus. E depois dentro disto há puras ficções.

Fiquei curioso com a ‘Semana Maluca’…

Fui um teso. A única vez que fiquei grogue no curso de Comandos foi aqui [aponta para uma fotografia]. Era uma pista e apareceu esse obstáculo, uma regueira com água, lixo, arame farpado, aquilo muito baixinho. A primeira coisa que pensei foi ‘eu nem consigo entrar’. Mas consegui e não rasguei nem a cara nem a orelha. A atirarem-me com pazadas de merda para cima, com rajadas de metralhadora mesmo a roçar o arame farpado. Depois ainda levei uns bananos. Ao sair fiquei grogue. Foi a única vez que perdi a consciência, sem ter caído.

Mas quando se passa por isso e se sobrevive a tudo deve sentir-se indestrutível, não?

Estamos a falar de putos de 20 anos saudáveis, escolhidos, que estão ali porque querem estar, pela aventura, para se testarem. E depois aquela coisa muito masculina que é a competição. ‘Se ele aguenta, eu tenho de aguentar’. Depois, um tipo de vinte anos é imortal. Estou a pensar em mim e nestes que fizeram o curso comigo. Um tipo de vinte anos nunca pensa que vai morrer. Não passa pela cabeça. E depois de apanhar aquela porrada toda durante três meses e meio quer libertar a energia e vai tudo à frente. Devo dizer que, ao contrário de muita gente, que critica a juventude de agora, tenho uma certa pena dos putos de 18, 20 anos. Nós vivíamos numa ditadura, num sistema autoritário (não totalitário, é diferente), mas havia o que eu chamava ‘uma grandeza pobre’. E havia a hipótese de aventura coletiva – a guerra, a emigração ou até o antifascismo. Um puto de vinte anos está cheio de energia, é um potro, e o que é que o mundo hoje lhe oferece? Acho que não há nada, em termos de aventura, de uma causa, de pertencer a algo em que fiquemos maiores do que nós.

Era isso que sentia, que pertencia a algo maior? Mas a determinada altura começa a pensar que os ‘inimigos’ também podem ser patriotas da sua terra.

No livro há uma passagem da ideia de império à ideia de lusofonia. «Já têm idade para saírem de casa». E isso é nuclear à forma de atuar do protagonista. Como diria o Mitterrand, que ando a ler, sou solidário a 100% com toda a História de Portugal. Não é só no bem, é também no mal. Eu sou isto tudo. Assumo. E depois há uma coisa muito importante: se você for um dia a almoços de velhos comandos vai ver que, de uma maneira geral, o melhor momento da vida deles foi a guerra. Pela primeira vez viajaram de avião, pela primeira vez foram a outro continente, pela primeira vez os mais pobres tinham comida garantida… Havia tipos, pastores e tal, que andavam descalços, tinham botas. Mais ainda: pela primeira vez tinham tido uma mulher. E depois vieram para a vida civil e tiveram uma vida cinzenta. Ali foi um momento de emoções fortes, copos…

Mas também há o lado mais negro.

Isso aí nem queira saber. Cortar orelhas e ‘gaitas’…

Percebemos no livro que primeiro há o fascínio da violência, depois o protagonista começa a ter dúvidas, inquietações.

Para haver redenção, primeiro tem de se experimentar o pecado. Sem isso não há redenção. Aliás, sem isso não se sabe o que é o mal. Como me dizia o Roberto Cattenaccio Perez, que era um revolucionário profissional, rio-platense do Uruguai: ‘Ó Rui, um tipo só sabe o que é a dignidade depois de ser indigno’. Essa parte mais negra não entra aí… Mas o choradinho, ai a guerra… não entro nisso. Temos de usar esta coisa que temos acima do pescoço para pensar. Quem é que perdeu a guerra? Perdeu a guerra quem morreu, familiares que lamentam a morte, e o tipo que ficou ferido na cabeça – ficou maluco – ou no corpo. Esses é que verdadeiramente perderam a guerra. O resto não perdeu. Foi o melhor momento da vida deles, a única aventura que tiveram. Eu sou patriota a 100%, não sou burro, e ao mesmo tempo sou mais cosmopolita do que os cosmopolitas. Aliás, há uma ideia errada de que o cosmopolita é um tipo que vive em Lisboa e conhece Londres e Nova Iorque. O cosmos é uma coisa muito maior. Estive nos Estados Unidos uma data de tempo, convidado do Seymour Lipset, professor de Harvard e Berkeley, conselheiro de cinco Presidentes americanos. Esse é o cosmopolitismo daquilo a que chamo o mundo central. Mas o primeiro cosmopolitismo que tenho é o lusófono. E depois tenho o outro cosmopolitismo do mundo lateral, dos países de Leste e da América do Sul, de esquerda.

Tocou ao de leve na questão do regresso. Fica-se um bocado perdido, sem norte?

Fica-se baralhado. De alguma maneira o esforço foi em vão, mas ainda bem que houve, é ambivalente. Depois é tudo uma pacatez. ‘O que é isto, não se ouve um tiro?’. Mas o pior de tudo, em África, em termos de violência maciça, foi depois do 25 de Abril, não foi antes.

Onde estava nesse dia?

Estava no Mayombe, na floresta equatorial.

Pode descrever?

A cobertura vegetal é absolutamente impressionante. É muito denso – e é denso em baixo, a meio e em cima. Para circular havia o trilho – e era no trilho que punham as minas. Fiz duas operações no Mayombe, a última com o capitão Falcão, que morreu há pouco tempo. Um tipo baixinho, esquelético, aos 30 anos já tinha cabelo branco, duro como tudo. Ir pelo trilho, impossível, as minas estavam lá. Ir pela mata, muito difícil – ou era à catanada, abrir pelo meio daquela vegetação, ou aproveitando os túneis das pacaças e dos elefantes. No trilho, púnhamos a bota na borda e a outra bota na outra borda. Demorávamos uma hora para andar cem metros. E mesmo assim ‘lerpava-se’. Uma das cenas foi um furriel nosso que pisou uma mina, cortou-lhe as femorais, estava liquidado, porque ali os helicópteros não vinham recuperar.

Uma coisa que me impressionou no livro é que diz que ele mirrou…

Ficou um velhinho. Nas femorais o sangue sai em catadupa. Era um angolano branco, um furriel impecável. Em meia hora ficou um velhinho, encolheu todo, com o sangue a sair… Engelhou. Deu-me uma raiva… Gostava dele, era um bom homem. Sempre tive a ideia – é uma ideia bastante banal, aliás – de que os bons é que morrem primeiro. Os sacanas safam-se. A experiência diz-me isso. E depois há aquela história de a pátria ser o último refúgio dos patifes…

Também acontecia?

Estou a pensar numa pessoa que morreu há uns tempos. Tinha um gosto em matar…

A guerra atraía os sádicos?

Obviamente. Mas entre pretos era muito pior. O ódio entre eles era muito pior do que nós contra eles. Duas ou três vezes cheguei a entrar em acampamentos da UNITA ou do MPLA em que estava tudo queimado, cheguei a ter uma fotografia com um bebé em carvão.

Não lhe fez impressão pegar-lhe?

Não. Era o ‘normal’. Na guerra, naqueles ambientes, o que para quem está de fora é um terror, para quem está lá é o normal. Agora em velho se calhar já me fazia impressão. Mas entre eles era muito pior do que nós com eles, não tenha dúvidas. Em podendo fazer mal vinha a selvajaria mesmo ao de cima. Em 61, no Norte de Angola, a UPA serrou gente viva com a família a ver.

Mas a guerra também tinha aspetos menos sombrios, não é?

Sim. Por exemplo, andei muito de helicóptero, e vi os helicópteros a funcionarem de várias maneiras. Uma delas, o helicanhão. É como se vê no Apocalipse Now. Mas o helicóptero também tinha um lado ‘lúdico’. Por exemplo no Leste era esta imensidão. A nudez das chanas é um espetáculo tremendo. O Alentejo tem qualquer coisa disso, mas está humanizado. Uma das coisas engraçadas que percebi em Angola é que uma viagem no espaço é uma viagem no tempo. Saía aqui de Lisboa de avião, nas férias, por exemplo, para Luanda. Da cidade de um milhão para uma cidade mais pequena. De Luanda ia para o Luso, que era uma coisa quase militar. Do Luso para Lupiri, um destacamento. E depois o mato. Nesta viagem de alguns milhares de quilómetros…

Tinha recuado…

À Pré-História. Apanhei camessequéis, que são muito da mesma família que os bosquímanos, com os dentes todos em ‘v’. O falar deles era bater com a língua no palato. Sei que isto não é politicamente correto, mas as formas de se moverem eram como as de um animal. São humanos, mas é uma outra humanidade. A maior parte dos pisteiros no Leste eram camessequéis, a mata é o habitat deles. Houve uma operação em que nem demos tiros, apanhámo-los à mão. Para agradecer-nos, de joelhos, quiseram oferecer-me, como chefe do grupo, qualquer coisa. Uma fulana começou a escavar o chão e tirou um bocado de carne da terra.

Guardavam ali a carne?

O ‘frigorífico’ deles era a terra. Até com bichos brancos, larvas. Eles deviam ter defesas.

Às vezes os helicópteros desciam diretamente sobre as aldeias?

Sim, saltávamos.

Como tinham a certeza de que eram guerrilheiros?

Normalmente funcionava assim: a tropa normal era atacada. E chamavam os comandos ou os paraquedistas. Se era uma coisa que tinha de ser resolvida no momento íamos de helicóptero. Não esquecer que os comandos trabalhavam com a PIDE, e a PIDE tinha os sipaios no terreno que faziam um trabalho notável. Trabalhavam sozinhos no meio do mato. Em termos técnicos, a guerra que fizemos em África foi extraordinária. No plano político, histórico, não. Pense só que durante mais de dez anos de guerra noutro continente, em três frentes, nunca faltou um par de botas no mato. Mas a guerra… é quase um pormenor – não gosto da palavra ‘pormaior’. Há a questão do espaço…

Se nos afastarmos muito vemos as coisas de outra maneira?

Exatamente. Muda a perspetiva. Quer em Angola, mas mais até no sertão brasileiro, que é muito maior, eu senti o planeta. Não é o país, não é o continente, é o planeta. Nas chanas do Leste foi a primeira vez que tive ideia de um espaço sem princípio nem fim. Mas o maior momento que tive em termos de espaço foi no deserto de Moçâmedes. Meti-me num jipe, desci para sul e houve uma altura em que parei e deixei o jipe atrás de umas dunas. Tirei a roupa toda, fiquei nu, na praia. Foi a melhor sensação que tive em termos físicos. Podia morrer ali, porque fazia parte de três infinitos: o oceano, o deserto e o céu. O melhor momento em termos físicos, de sentir o planeta, foi ali. Podia morrer que estava porreiro. Fazia parte disto tudo. Qual é o medo? No segundo livro conto algo parecido. O Pessanha diz que quer ser «inerme», como uma pedra, na areia… Foi o que me veio à cabeça em primeiro lugar nessa experiência. Mas depois veio o Camões. Senti-me não «inerme» mas «enorme». [risos]

Depois manteve ligação a África?

Sim, voltei lá como cooperante. Fui professor no Lubango, depois voltei a Maputo, ligado à Eduardo Mondlane. Não tenho qualquer dívida para com os africanos. Matei e mandei matar uma data de gente, mas foi num certo contexto. E mesmo nesse contexto parei e fiz a minha paz privada. Naquela situação dos onze guerrilheiros dei ordem de fogo, mas nem disparei. E fiz a continência ao valente, que caiu e continuou a disparar. Quem sabe destas coisas, foi uma das partes do livro de que gostou. Tenho as dívidas mais que saldadas. Deixei bons amigos, estudantes que gostavam de mim. Aliás no segundo livro vem isso: há um encontro casual entre o protagonista e o general que comandou uma emboscada. Um momento altamente dramático. Mas acabou em abraços e beijos. O que é que ele ia fazer? Estava a lutar pelo seu país. Se há boa amizade é entre antigos inimigos militares. E curiosidade.

E respeito?

Estivemos lá e demos o pelo. Mas se for aos almoços, aos encontros, vê saudades da tropa. Ao contrário do que anda aí pelos jornais… Aliás aquilo não era bem uma guerra, era uma coisa caseirinha. Você tinha gente da mesma família a lutar de um lado e doutro, gente das bolsas mestiças do litoral. Nesse sentido foi uma guerra caseira. E romântica, porque você ainda via o inimigo. Não tem nada a ver com o Vietname. E agora então com os drones, um gajo está em Kansas City a matar um tipo a milhares de quilómetros de distância.

Mas fale-me um pouco mais do regresso. Como é que alguém que testemunha aquilo tudo segue em frente?

Se não fosse a minha mulher tinha morrido há muito tempo, tinha-me metido aí em trapalhadas que nem queira saber. Vim da tropa avariado e conheci-a logo dois anos depois. A vida segue por caminhos insondáveis.

Não estou a imaginá-lo a ir ao psicólogo ou a tomar comprimidos.

Nada, nada disso. Copos sim, mas isso há pessoas que foram sempre civis e também bebem. E conversas com gente da tropa e com gente da universidade. Há coisa de um ano descobri uma coisa interessante com o meu neurocirurgião. Há uma glândula deste lado que, se não estiver a funcionar, o tipo não tem medo. Nunca ouviu isso pois não? Se estiver desativado, um tipo não tem medo. Julgo que é o caso do Marcelino da Mata. O que ele faz é impossível, nem nos filmes. O Rambo não é nada comparado com ele. Na Mar Verde, um dos objetivos era a GNR lá do sítio, com os portões fechados. O Marcelino da Mata entra em voo por uma janela de sentinela, depois vai à caserna… Se calhar é isso dessa glândula estar desativada. Interessante, não é?

Sendo escritor e professor de literatura nunca se movimentou nesse meio?

Andei pelo mundinho literário durante uns tempos. Não tenho nada a ver com isso. O Hemingway dizia: ‘Os escritores em Nova Iorque fazem-me lembrar minhocas dentro de uma garrafa. Alimentam-se uns dos outros e o mundo está cá fora’. O Régio falava sobre os ‘chiadistas’. Cheirei, não gostei, afastei-me. O Vasco Graça Moura falava disso no Meu Amor, Era de Noite, um romancezinho muito sofisticado. A certa altura diz «o namorado dela era um típico intelectual português, um sorumbático de caca»! [risos] É bem apanhado.

É por isso que vai para a Alemanha?

Queria fazer um doutoramento, mas não queria fazer aqui. A minha mulher estava na Alemanha como leitora de Camões. Pedi-lhe que visse se havia lá professores que me aceitassem. Lá fui e fiquei durante três anos. Na terceira reescrita da tese descobri que tinha um estilo literário. O que é uma epifania. Andava há não sei quantos anos a imitar autores. E foi na tese de doutoramento, aos 40 e picos, que descobri que tinha um estilo. E veja bem a ironia da coisa: num trabalho científico.

Que supostamente não devia ter estilo.

Uma epifania. Era meia noite e picos. E aí lembrei-me logo do Sinais de Fogo, um grande romance. Há um momento em que o protagonista conta esta epifania, não em termos de prosa, mas de poesia. ‘Mas de onde é que me vêm estas palavras?’. É um dos momentos marcantes da minha vida.

Consegue definir esse estilo?

Basicamente busco a clareza. Uma das coisas que aprendi com o Hemingway é que tem de ser claro. Não acredito numa escrita confusa. Não quer dizer que não se consiga grandes coisas. Gostei muito da Sibila, é um grande romance. Aliás conheci a Agustina, foi uma das convidadas do leitorado da minha mulher na Alemanha. Passei meia tarde a acompanhá-la pelas sapatarias, eu que não vou a sapatarias! [risos] Pondo a Sibila de lado, aquilo é uma lava com pepitas de ouro, e a mim interessam-me as pepitas, a lava não me interessa. Há muita energia de escrita e por outro lado há muito preguiça. [Puxa uma fotografia para junto de si]. Este é um célebre comando, Isaías Pires, alentejano de Arraiolos, que passou de cabo a tenente-coronel, Torre e Espada, valente até dizer chega. É um verdadeiro Soldado Milhões. Esteve sempre em Angola, desde o princípio até ao fim, sempre como operacional. E o curioso é que nunca foi ferido e nos grupos de combate dele não teve um ferido. Incrível.

Deve ser caso único.

Acho que sim. Aqui há uns anos, a Agustina fazia parte de um conselho das condecorações. E sabe quem é que estava sentado ao lado dela nesse conselho? Este tipo com a quarta classe. O que tem a Agustina a ver com o Isaías Pires? Acho um momento… nem sei o que diga.

Ainda em relação ao seu estilo, e além da clareza?

É preciso fazer uma distinção: uma coisa é a complexidade, outra é a complicação, o complicado. Acima de tudo, acho que o fundamental é pensar, usar esta maquineta que temos acima do pescoço. A melhor história sobre pensar que eu conheço é do Heidegger.

Quer contá-la?

O Heidegger já era o Heidegger e o Rudolf Augstein, fundador e diretor da Spiegel, pediu-lhe uma entrevista. O Heidegger disse que sim, e na data combinada o Augstein apareceu à porta da cabana na montanha onde ele estava. Veio a mulher do Heidegger. ‘Quem é?’. ‘Sou Rudolf Augstein, tenho uma entrevista marcada’. ‘Um momento, vou perguntar ao meu marido’. Regressou e disse assim ao Augstein – e isto é verdade, foi contado pelo Augstein: ‘O meu marido disse que vai ter de esperar porque ele está a pensar’. [risos] Se conhecer uma melhor diga-me.