Carta de Wall Street

Teoria e prática

por Pedro Ramos


Nova Iorque, agosto de 2021

«Actions speak louder than words»
Mark Twain

 

Queridas Filhas,

Quando Warren Buffett procurou investidores com talento para o ajudar a investir o capital da Berkshire Hathaway, um dos pontos do perfil requerido chamou-me a atenção: «Ser capaz de identificar todos os riscos de um investimento, incluindo aqueles que nunca aconteceram antes».

Nunca tinha visto esta requisição, e ainda não a vi desde então. Mas a sua importância para um grande investidor nunca foi mais clara para mim: covid, ciberataques a fechar pipelines durante dias, lucros de uma indústria banidos por decreto e sem aviso. Tudo isto ocorreu nos últimos meses, e não tinha acontecido antes. Muitos outros riscos ‘novos’ vão surpreender investidores (e governantes) nos próximos meses e anos.

Saber a teoria é uma condição necessária, mas não suficiente para ser um bom investidor. Isto porque a realidade está repleta de exceções à regra. Assunções que deixam de ser válidas. Atores que abusam ou furam as regras. Circunstâncias que alteram os incentivos das partes.

Não há ciência que consiga fazer a previsão de todas estas possibilidades e incidências. Nos Estados Unidos, chamamos ‘street smarts’ à capacidade de se manter ligado à evolução das circunstâncias e das intenções de todas as partes para se perceber de alturas em que os ventos mudam sem precedente e o que as teorias acham impossível, acontece.

Alguns exemplos de diferentes setores da sociedade ilustram este fenómeno.

A União Europeia (UE) na teoria participa abertamente na globalização e no sistema global de regras. Na prática, contudo, a UE usa a regulação e barreiras técnicas para alterar a competição a favor dos seus Estados-membros. Mais recentemente, vários governos europeus, e a própria UE têm passado multas muito avultadas (algumas acima de um bilião de dólares) a empresas americanas, em particular, empresas tecnológicas. Uma forma fácil, popular e politicamente expediente de levantar fundos para orçamentos deficitários, mas que põe em causa a confiança transatlântica nas bases de um sistema internacional de regras. Felizmente, muitas destas multas têm sido revertidas e consideradas ilegais pelos tribunais europeus, mostrando que a separação de poderes ainda funciona no espaço europeu. Os investidores em empresas inovadoras com ambições internacionais têm sido penalizados. Investidores sensatos e avisados têm que ter em consideração riscos desta índole quando avaliando oportunidades das suas empresas.

Ironicamente, os ‘street smarts’ são muito necessários no sítio onde se esperava que a teoria tivesse reino absoluto: Academia. Nas universidades americanas, principalmente nas mais elitistas, temos assistido a um proliferar de uma ideologia de centro-esquerda muito intolerante de opiniões divergentes. Isto tem-se manifestado em dificuldade em publicar em revistas científicas de topo por cientistas cujos resultados não apoiam ou contradizem a ideologia maioritária. Aliado à política das administrações das universidades, isto tem levado ao limite das oportunidades de carreira de académicos que estejam mais a direita do centro-esquerda no espetro ideológico. O debate de ideias e a inovação ressentem-se desta perda de talento e da liberdade de explorar novas soluções.

Infelizmente esta tendência está a espalhar-se pela sociedade. Em campus universitários tem-se impedido pessoas com opiniões divergentes de discursar. Passando pelo cancelamento de contas de social media de pessoas com opiniões com as quais discordamos. Recentemente até contas de governantes têm sido banidas, pelo menos temporariamente. Desde o iluminismo que a crença na ciência e no debate de ideias tem sido uma pedra basilar das democracias ocidentais. Esta praxis tem sido erodida nos últimos meses.

O movimento de globalização das últimas décadas procura criar ganhos de eficiência económica que são gerados pela localização de cada etapa de produção no local mais económico. Assim etapas de produção de menor valor acrescentados são deslocalizadas para países com baixo custo de mão de obra. Isto abre capacidade para novos empregos de alto valor acrescentado no país. Todos ganham. Recentemente, vimos que a geopolítica altera este cálculo 100% económico. Durante a pandemia, os países produtores de máscaras, vacinas e mesmo de semicondutores, deparam-se com mais procura que oferta e puderam explorar a sua posição de produtor para benefícios geopolíticos. Os países importadores desses produtos perceberam a fragilidade da sua situação e estão agora em processo de criar indústrias domésticas produtores para produção desses produtos estratégicos.

A teoria oferece um bom mapa para navegar a nossa realidade. Mas esse mapa não é a realidade. Muitos aproveitam isso para obterem proveitos de quem ingenuamente segue princípios gerais. Muitos lobos vestem-se com pele de cordeiro e enganam pessoas e sociedades ingénuas. Como investidores, a nossa missão é proteger o património dos nossos investidores desses lobos.