Economia

André Jordan: "Os Descobrimentos portugueses são matéria escolar em todo mundo"

Quando se fala em turismo em Portugal logo um nome de destaca: André Jordan. O empresário acredita que os projetos de luxo é que criam emprego verdadeiro.


À beira de completar 88 anos, André Jordan mantém-se atento à sua área de eleição, o turismo, e continua com a sua visão para o setor. Por email, respondeu a várias perguntas, mostrando sempre a sua preocupação por não ferir suscetibilidades, mas sem deixar de dizer o que pensa.

Apesar da pandemia parece que em Portugal os índices de ocupação em agosto são altíssimos. Os hotéis de quatro e cinco estrelas no Algarve ou o turismo do Douro estão praticamente esgotados. Seria de esperar que os portugueses optassem por fazer férias cá dentro?

O desejo reprimido de férias e a dificuldade em viajar para o exterior provocou uma explosão de ocupação no Algarve e no Douro por turistas nacionais. Trata-se de um mês, vamos ver em que medida pode gerar mais ocupação no resto do ano.

Sem os estrangeiros, em grande número, o turismo de verão no futuro pode ser salvo pelos portugueses? No inverno parece óbvio que sem estrangeiros tudo ficará mais difícil.

O turismo de inverno precisa de atrações tais como o golfe. Há muitos anos, a pedido do Eng. Faria de Oliveira, que era ministro do Comércio e Turismo, propus para o Algarve, que destituído de atrações ou museus de nível internacional, a realização de um ‘Festival das Nações’, que concentraria em cada ano em um país. Seria o tema deste festival – arte, música, desporto, moda, gastronomia, cinema, teatro e uma feira comercial. Este Festival seria realizado ao longo ano, em eventos relativamente pequenos e terminaria com uma grande festa de angariação de fundos para caridade. Na altura, o ministro ficou entusiasmado, mas não foi possível conseguirmos alguém que se ocupasse desse evento. Penso que hoje, como há muitos promotores competentes de festivais, seria possível. Os participantes seriam responsáveis pelos custos da sua participação. Este seria feito com a colaboração da representação diplomática do país representado. O Festival ocorreria durante o ano e teria a vantagem adicional de que todos os participantes fariam a divulgação da sua presença no país de origem. Os países seriam convidados pela ordem indicada pelo número dos seus turistas habituais em Portugal.

Algum dia imaginou que este cenário podia ser possível?

Portugal tem todas as condições básicas para ser um destino atraente para o turismo e para a habitação temporária ou permanente. A partir daí, depende do tipo e qualidade da oferta e da capacidade de promoção e marketing do destino e dos seus componentes.

Acha que este turismo é rentável?

Existem muitas razões pelas quais o destino fica atrativo, a começar pelas condições naturais do clima, da segurança, da paisagem e do custo. É claro que no mais importante é identificar o tipo do turista para cada tipo de oferta.

Muitas Câmaras apostam em passadiços e pontes pedonais alterando a vida das cidades. O que pensa deste tipo de turismo?

Como sou claustrofóbico e tenho vertigens de alturas, não sou motivado por essa oferta, mas me parece simpática e atraente. O Turismo de Portugal, já há algum tempo, faz campanhas muito bem sucedidas de promoção do destino. No entanto, acho que a promoção comercial deve ser feita pelo setor empresarial. Venho sugerindo que se possa utilizar parte do IVA para financiar estas campanhas, que seriam, para o efeito, aprovadas pelo Turismo de Portugal.

Não acha que a compra de prémios de melhor destino, melhor cidade, etc., só chama turismo mais barato?

Os prémios, como tenho observado, não têm impacto visível nas ocupações, só são divulgadas no site da empresa que outorga os prémios e pelos premiados no seu próprio país.

Sempre defendeu que o futuro do turismo passa pela oferta premium. Isto é: destinado a um público mais endinheirado que tanto pode vir passar férias como comprar casa para segunda habitação.

A presente crise gerada pela pandemia é o melhor exemplo de que o turismo residencial é, a longo prazo, o melhor negócio. Os resorts, como a Quinta do Lago e outros, têm as casas dos estrangeiros ocupadas durante a crise. O investimento estrangeiro, na compra de uma habitação, não é especulativo, têm repercussão em todos os setores da economia, transforma um turista em cliente permanente com a sua família e é gerador de emprego. Os hotéis de qualidade de Portugal são competitivos com os hotéis em suas categorias em outras zonas turísticas e podem ser rentáveis para o investimento, o que não acontece com o Alojamento Local e outras formas de turismo barato e o mesmo se aplica para a restauração. A Hotelaria de Luxo é geradora de clientes para a compra de imobiliário, que é uma maneira muito atraente e uma forma muito conveniente de investimento estrangeiro porque não procura lucros e paga impostos.

O que falta para Portugal se tornar a Califórnia da Europa?

Pela sua dimensão e pela estrutura da sua economia, Portugal é um caso especial da Europa. Temos muitos atrativos para a fixação de turistas como também para atrair indústria de ponta, como já se verifica na área da energia e na área financeira.

Em termos de vendas de casas de luxo, é inquestionável que a pandemia não ‘arrefeceu’ a procura. Admite apostar em mais projetos à semelhança do Belas Clube?

Na minha família de filhos e filha, netos e netas, há muitos talentos e criatividade. Eu completo 88 anos dentro de um mês.

Como encara a vandalização de símbolos nacionais como o Padrão dos Descobrimentos?

A vandalização assim como o terrorismo pode ser praticada por um agente solitário. Um fenómeno novo contra o qual não há, aparentemente, defesa. Verifico que a pessoa que vandalizou o Padrão dos Descobrimentos divulgou a sua obra nas redes sociais.

Sei que nunca esteve ligado à restauração, mas o que acha desta moda das pessoas marcarem mesa em vários restaurantes e depois não aparecerem? Pensa que se deve começar a pagar uma caução para fazer a marcação?

Em 1972, abri a Casa Velha, na Quinta do Lago, que foi o primeiro restaurante de qualidade no Algarve e, pelo enorme sucesso que teve, representou o início de uma nova restauração em Portugal.

Nos Estados Unidos não se pode fazer uma reserva sem deixar o número de cartão de crédito, se não cancelar e não aparecer a refeição é cobrada na mesma.

Também sempre defendeu que devia haver um grande centro comercial de Portugal, onde se vendesse tudo o que é nacional. Acha que ainda é possível caminhar nesse sentido, com todas as críticas ao mundo português?

O que eu proponho é um Centro Comercial para produtos portugueses de qualidade com o nome ‘The Best of Portugal’, cobrindo prataria, louça, joalharia, arte, moda feminina e masculina, tapeçaria, vinho, artesanato de qualidade e restauração regional. O local ideal seria obviamente o Parque Mayer pela sua localização no coração turístico de Lisboa. Também falta um espetáculo à noite para grupos. Os grupos que vêm a Lisboa e ao Porto para reuniões, etc., não têm o que fazer depois de um jantar em restaurante. Sugiro um espetáculo musical, chamado ‘A Viagem’, apresentando a dança e música dos países descobertos ou visitados por Portugal no passado – na Ásia, África, e obviamente Brasil. Os cenários seriam imagens projetadas dos países e locais visitados. Não há outro país que possa apresentar uma história assim.

Continua a achar que um Museu dos Descobrimentos faz muita falta?

Em grande parte dos países importantes, há museus que refletem através da arte a história do seu passado. Há poucos anos fui com a minha família à Polónia, o meu país de origem, e visitámos, entre outros, um museu da história da comunidade judaica na Polónia, o que incluía o Holocausto. Em Berlim também existe um museu do Holocausto. Ambos são amplamente visitados. Os Descobrimentos portugueses são matéria escolar em todo mundo. Não há ninguém cuja imaginação não tenha sido estimulada nas aulas de história pelos feitos de Vasco da Gama, Fernão de Magalhães e de Álvares Cabral.

Viveu realidades bem distintas no Brasil e numa fase da Quinta do Lago. O que nos falta para atrair as estrelas que vão para Ibiza ou Sardenha?

Desejo-lhes uma boa viagem e uma feliz estadia. Ibiza vive da vida noturna desregrada e a Sardenha dos grandes milionários com os seus iates, principalmente da Alemanha.

É por nos faltar qualidade no serviços?

Portugal tem muito bom serviço, mas se entrarmos numa espiral das baixas de preços e despedir pessoal, vamos perder os clientes de qualidade.

Acha que Portugal melhorou a sua oferta cultural?

Hoje em Portugal, impulsionado pelo Museu de Serralves, há uma dinamização de museus em todo país. Penso que valia a pena fazer uma pesquisa de opinião junto aos vários segmentos dos turistas quanto à visão que tem da nossa oferta cultural.

Em 2017 dizia que Portugal vivia um momento único para atrair as elites internacionais. Acha que ainda estamos nessa situação?

Para minha surpresa, existe uma forte procura por parte da verdadeira elite internacional para a compra de habitação em Portugal. Como já disse acima, isto é desejável porque representa investimentos de uma elite de pessoas que sentem afinidade com o estilo e o ambiente português.

Como constatamos em Portugal, os milionários exibicionistas têm curto prazo de validade.

O que pensa da presidência de Bolsonaro?

No comments.

Também disse que a Europa vive do supérfluo. Onde encaixa o turismo?

Sim, as principais indústrias de exportações são a moda e arte. Os dois homens mais ricos são os donos da Louis Vuitton e da Zara. Ambas têm o grosso das suas vendas no Oriente. Os turistas e a oferta cultural são instrumentos importantes para a economia e o emprego dos países europeus.

O Governo prepara-se para proibir de se fumar em todos os restaurantes, bares e discotecas com menos de 100m2. Acha que isso irá prejudicar o turismo nacional?

Esta regra já existe para os restaurantes e bares de qualquer tamanho na maioria dos países civilizados.

O PRR quase esquece o turismo. O que acha disso, vendo agora as notícias do destino do dinheiro da bazuca?

Esse esquecimento, que foi corrigido à última hora, é ilustrativo de um velho complexo de inteligência académica em relação ao turismo, o que não acontece em países altamente desenvolvidos como a França, a Espanha, a Inglaterra e a Itália.

Continua isolado do mundo com receio da covid?

Não estou isolado do mundo, tenho visitas da minha adorável família e de amigas e amigos encantadores. Além disso, estou acompanhado pela música, pelos livros, apesar de ser vítima do vício da informação.

Como viveu as medalhas portuguesas nos Jogos Olímpicos e como viu a polémica relacionada com Pedro Pichardo e Jorge Fonseca? O que acha da polémica do racismo?

Felizmente, apesar da resistência de alguns setores mais retrógradas, o racismo, que é um sentimento irracional e lamentável, está desaparecendo em toda a parte. A única intolerância que eu tenho é com a intolerância.

Tem acompanhado a administração Biden, o que pensa da secretária de Estado do Tesouro querer taxar as grandes multinacionais?

Não há dúvida que quem trabalha empregado paga os seus impostos, mas multinacionais têm um departamento prestidigitador que faz os lucros desaparecerem nas declarações dos impostos. O mundo está diante de enormes desafios em relação aos efeitos do clima e em relação ao impacto das tecnologias inteligentes. Ambas vão gerar grande quantidade de desemprego e é preciso encontrar fórmulas de apoiar as pessoas e famílias que vão ficar supérfluas em consequência dessa evolução.

Já recebeu a Ordem do Império Britânico. O que sente que lhe falta conquistar no mundo do turismo?

Tenho uma grande honra em receber a Ordem do Império Britânico, mas não tem nada a ver com o turismo e sim com a minha atividade de 30 anos no Duke of Edingburg’s International Award, uma organização para o desenvolvimento dos talentos e qualidades dos jovens em época de férias. O Award já processou mais de 5 milhões de jovens em 140 países. Fui presidente da versão portuguesa, introduzida pelo Dom Duarte, Duque de Bragança, e também colaborei com diversas iniciativas internacionais desta virtuosa associação, criada e dirigida por SAR o Duque de Edimburgo, que morreu pouco antes de completar 100 anos e é sucedido com muito mérito pelo seu filho SAR Príncipe Eduardo.