Viver para Contar

Seleções internacionais

Uma seleção nacional é um espelho do desporto no seu país. E, por isso, os portugueses se identificam com a sua seleção. Ora, se esta começar a incluir atletas nascidos no estrangeiro, formados no estrangeiro e só tornados portugueses na secretaria, essa razão de ‘orgulho nacional’ desaparece.


Um português, de nome Pedro Pablo Pichardo, ganhou nos Jogos Olímpicos a medalha de ouro do triplo salto e o país exultou. Só que o atleta não é bem português. Nasceu em Cuba, cresceu em Cuba, tornou-se campeão em Cuba. Naturalizou-se português em 2017, mas só vestiu a camisola das quinas em 2019. 

Um jornalista da RTP que noticiou este facto objetivo viu-se coberto de impropérios. Mas porquê? Passou a ser proibido dizer a verdade? Recordo que um famoso líder, por sinal também cubano, de nome Fidel Castro, dizia que «só a verdade é revolucionária». Quem tem medo da verdade é porque quer esconder alguma coisa. 

Passando à questão central, é muito discutível as seleções nacionais incluírem atletas nascidos e formados noutros países.

Noutro tempo, até algumas equipas de clube resistiam à admissão de estrangeiros. Lembro-me bem da polémica que se gerou quando, em julho de 1978, o Benfica decidiu passar a contratar jogadores de outras nacionalidades. O ex-líbris do clube era só ter jogadores portugueses – e assim fora campeão europeu de futebol. O primeiro ‘verdadeiro’ estrangeiro a jogar no Benfica foi o então jugoslavo Filipovic, em 1981. Antes dele já tinha havido outro, o brasileiro Jorge Gomes, mas este estava há muito tempo em Portugal… e os brasileiros, para nós, não são bem estrangeiros. 

De qualquer modo, os clubes são entidades privadas e o futebol deixou de ser um desporto para ser uma indústria. Ou um negócio. Ora, num negócio, cada um procura safar-se o melhor que pode; não entram considerações ‘nacionalistas’.

O espírito das seleções, porém, é outro. Uma seleção nacional é um espelho do desporto no seu país. É uma montra da nação, mostrando o que de melhor ela tem em cada modalidade desportiva. E, por isso, os portugueses, independentemente do seu clube, se identificam com a seleção. Com ‘a nossa Seleção’. Ora, se a seleção começar a incluir atletas naturalizados – nascidos no estrangeiro, formados no estrangeiro e só tornados portugueses na secretaria – essa razão de ‘orgulho nacional’ desaparece. Não há motivo para estarmos a aplaudir um cubano, ou um camaronês, ou um moçambicano. Até os podemos aplaudir – mas com um espírito internacionalista. Como podemos aplaudir qualquer outro grande atleta de outro país. 

Poderão, por exemplo, os russos identificar-se com uma ‘seleção nacional’ de futebol de praia constituída por cinco jogadores brasileiros? 

De resto, há uma evidente contradição entre constituir-se uma ‘seleção nacional’ e depois incluir nela atletas nascidos e formados no estrangeiro. Se não se quer fomentar o nacionalismo, então acabe-se com as competições entre seleções nacionais. 

Se se considerar que os países já não interessam, que os nacionalismos são uma aberração, que os atletas são cidadãos do mundo e poderão concorrer por qualquer país independentemente do local onde nasceram, então as ‘seleções nacionais’ passarão a ser, de facto, ‘seleções internacionais’ – e não fará sentido orgulharmo-nos com as conquistas de medalhas da ‘seleção portuguesa’. 

Como dizia uma leitora deste jornal, Alda Vasco, «ao ouvir nomes como Pablo Pichardo, Auriol Dongmo, Evelise Veiga, Fu Yu, Jeni Shao, Lorene Bazolo, Rochelle Nunes e Anri Egutidze, entre outros, eu levava sempre algum tempo até perceber que estavam a falar de atletas... portugueses (!!!)».

E há outra coisa em que convém pensar: ao naturalizarem-se portugueses, esses atletas renegaram os seus países. Pichardo, em vez de conquistar uma medalha de ouro para Cuba, que o viu nascer e crescer, conquistou-a para Portugal. Ora, o que pensarão disto os cubanos? Será que nós gostaríamos que Carlos Lopes, quando se tornou um grande campeão, dissesse «Ciao, agora vou concorrer pelos Estados Unidos, que me dá melhores condições»? O que diríamos se ele o tivesse feito e a medalha olímpica da maratona tivesse ido parar aos EUA? 

A inclusão de atletas naturalizados em equipas nacionais levará a que, tal como os clubes mais poderosos contratam os melhores jogadores, os países mais poderosos comecem a contratar os melhores atletas. A pouco e pouco, os atletas tornar-se-ão mercenários – representando o país que melhor lhes pagar. 

É isso que queremos?

E será esse o espírito olímpico?