Opiniao

Turismo: de aquém a mais além?

Esta proeza ocorre, paradoxalmente, no exato momento em que o turismo, na terra, constata a sua maior, grave e imponderável crise. 


O mundo assistiu recentemente, num curto espaço de uma semana, à realização extraordinária de duas viagens suborbital, de iniciativa privada, no que será o embrião do turismo espacial. Parafraseando Neil Armstrong, cinquenta e dois anos depois, uma pequena viagem, um grande passo para o turismo.

Esta proeza ocorre, paradoxalmente, no exato momento em que o turismo, na terra, constata a sua maior, grave e imponderável crise. 

O terramoto pandémico que se abateu sobre o nosso planeta e cujas ondas sísmicas, passados dezoito meses, ainda perduram, continuará por mais uns anos a refletir-se no turismo. Voltar, por próximo que seja, aos valores de turistas e dormidas do ano de 2019, quando a quebra em 2020 foi de 73% e no primeiro semestre de 2021 de cerca de 80%, somente virá a ser possível, segundo a Organização Mundial do Turismo, pelos anos de 2024-2025. Em Portugal a razão dos números e o horizonte de recuperação é idêntico.

Dir-se-á que ‘cá em baixo’ a cor é de cinzento, como se fosse giz, ‘lá de cima’ é azul, como se fosse esperança. Esta dimensão da perda é idêntica à proeza alcançada: gigantesca!

Se num futuro próximo seremos turisnautas, hoje estamos todos turisconfinados. Entre uma e outra condição há que começar por recuperar o turista.

Mas para tal haverá que entender a complexidade do contexto em que ela ocorreu para melhor reposicionar a atividade turística. Pior que esta crise global, que não se circunscreve somente à pandemia da SARS-CoV-2, mas nela tem a principal aceleração, sendo resultado de desmandos vários, descuidos muitos, desigualdades imensas, é o drama de a podermos desperdiçar nos seus ensinamentos e na incompreensão das suas consequências socioeconómicas. 

Neste exercício de recomeço do caminho, para além das lições duras, haverá que transformar as bases nas quais o turismo assentará o seu desenvolvimento próximo. É uma factualidade impositiva que levará o turismo a evoluir com e pela integração de novas dimensões e preocupações.

Começar aquém. Atuando com convicção, ímpeto e urgência extrema no apoio ao tecido empresarial. Compreender-se-á, neste contexto, o apoio financeiro às empresas de natureza de fundo perdido, numa atividade que sempre, com particular ênfase na última década, tem dinamizado a economia, beneficiado a imagem externa de Portugal, financiado os saldos deficitários da balança comercial e promovido a criação de emprego.

Ir mais além. Levando o turismo à sua transformação com o propósito de o integrar na dianteira da proteção desta nossa casa comum, da preservação do ambiente, da distribuição de riqueza, no estreitamento das desigualdades. 

Reagir, ousar, empreender, acrescer valor à atividade turística, dar um novo sentido ao turismo. Em suma, transformar a viagem num ato maior, com reconhecimento pela sociedade e pelas populações autóctones.

*Universidade Lusófona /Turismo