No Meio de Nós

Uma questão de tempo!

Nestes dias ouvi dezenas de peritos para explicar o que se estava a passar no Afeganistão, mas não ouvi nenhum líder religioso muçulmano a distanciar-se do que está a acontecer. Importa responder à pergunta: é o Islão a favor do estabelecimento de uma cultura hegemónica num país que obriga os cidadãos a cumprirem as leis de Deus?


A questão do Afeganistão não é uma questão simples para podermos compreender. Não é simples, em primeiro lugar, porque estamos a falar de duas culturas completamente diferentes – a europeia e a árabe – e, em segundo lugar, porque a organização política é muito distinta da nossa.

Nós não conseguimos compreender, por exemplo, que alguém queira impor uma cultura, uma religião, um pensamento aos demais, porque temos a nossa política organizada de forma muito distinta. O aparecimento do Estado moderno começou na Europa há quase cinco décadas e foi-se formando a pouco e pouco. Uma das características do Estados modernos é a separação de poderes, o que implica, necessariamente, a separação entre a religião e o Estado. 
Mesmo nos países europeus em que ainda existe uma religião oficial, a democracia equilibra uma certa tensão existentes em regimes dogmáticos. Eu não tinha a noção, mas há poucos anos disseram-me que o Luxemburgo começou há poucos anos a fazer a separação entre a Igreja e o Estado. 

Os regimes totalitários onde não existiu uma separação entre a Igreja e o Estado funcionam de forma bem distinta. O poder supremo legislador é o próprio Deus e a nação deve aplicar a Lei de Deus. Assim, estando convencidos de que estão a realizar a vontade de Deus para os homens, a religião deixa de ser uma ato de fé, ou seja, um ato livre de adesão a Deus e passar a ser uma obrigação que nos é imposta. 

A lógica funciona da seguinte forma: Deus quer que eu faça isto, legislo conforme a vontade de Deus, cumpro a vontade de Deus num estado. Se não cumprir essa vontade deverei ser erradicado da terra, porque não existe outra forma de pensamento.

Ora, é isto que vai ser aplicado no Afeganistão e os talibans foram claros: será uma sociedade plural dentro dos limites da lei de Deus.

E os que não cumprirem a lei de Deus? O que lhes vai acontecer?

Ninguém sabe!

Isto é estranho para a nossa maneira de pensar, porque foi daqui que nós saímos há quinhentos anos atrás, onde o poder religioso e o poder coercivo eram coincidentes. 

Mas poderá a religião ser um ato imposto? Quererá Deus que eu venha a ser obrigado a executar as suas ordens?

Há um conceito no cristianismo que não existe propriamente nas outras formas de pensamento religioso: o conceito de liberdade. Esse conceito de liberdade com que o homem foi criado deixa-o livre para aceitar ou recusar a vontade de Deus. Por isso, ao criar Adão, Deus criou também a liberdade. 

Se Adão não fosse livre para rejeitar Deus, se o homem não pudesse ser livre para o rejeitar, não seria um  homem, mas um robot. Isto é, o homem não amaria a Deus, mas seria obrigado a amá-Lo. Isto, na realidade, não é uma religião, mas um domínio. 

É desta forma que nós temos de pensar que mesmo a separação entre a Igreja e o Estado que aconteceu na Europa é, também ela, um benefício recebido da própria conceção de liberdade gerada dentro da cultura judeo-cristã. Ao homem, a

Lei de Deus não deve ser importa, mas apenas deve ser acolhida livremente por cada homem.

Nestes dias ouvi dezenas de peritos para explicar o que se estava a passar no Afeganistão, mas não ouvi nenhum líder religioso muçulmano a distanciar-se do que está a acontecer. Importa responder à pergunta: é o Islão a favor do estabelecimento de uma cultura hegemónica num país que obriga os cidadãos a cumprirem as leis de Deus?

Eu penso que é necessário que, mais do que explicação estratégicas, de generais, de académicos, possamos ter a explicação de um muçulmano, porque só dentro da própria religião se conseguirá desmontar este pensamento único que se irá gerar naquela terra.