Carta de Wall Street

Tecnologia e arquitetura de vida

A arquitetura de vida que me foi proposta já não funciona. Quem mais nada aprende desde que queima as fitas ficará obsoleto em 10 a 15 anos. Temos que atualizar as nossas capacidades todos os anos. 


por Pedro Ramos

Nova Iorque, agosto de 2021

«Twenty years from now you will be more disappointed by the things you didn’t do than by the ones you did do. So throw off the bowlines. Sail away from the safe harbor. Catch the trade winds in your sails. Explore. Dream. Discover».
Mark Twain

Queridas Filhas,

Quando tinha a vossa idade o conselho que as gerações mais velhas me davam para uma boa vida era: estuda, tira um curso superior e terás uma ótima vida relaxada até à reforma. Nessa altura, não era incomum haver pessoas que não sabiam ler. 

Penso que essa atitude ainda está presente na nossa sociedade. Acredita-se que com o canudo se obtém um passaporte para a classe média com um emprego que financiará carro, casa, educação privada para os filhos e despesas de férias até à reforma. 

Pondo de lado, o facto de que desistir de ambições de crescimento profissional aos 22 anos é uma escolha no mínimo deprimente, este conselho é errado. A vida não funciona assim. Não faltam casos de amigos e colegas que depois de 10 a 20 anos de carreira na mesma empresa se vêm dispensados de funções pois as suas tarefas não são agora necessárias ou são feitas por jovens a um custo bem menor. Não faltam noticias de empresas a fechar, funções a serem deslocalizadas para outros países ou mesmo a serem substituídas por novas tecnologias. 

Isso pode levar à conclusão de que progresso e inovação devem ser evitados ou regulados para não nos afetar no nosso cantinho. Diz-se mesmo: Tecnologia destrói empregos. Esta narrativa de os nossos empregos serem substituídos por robots ou outras tecnologias já tem mais de um século. Sempre que novas tecnologias surgem teme-se que os empregos perdidos levem a um aumento substancial do desemprego. Mas tal não acontece. Sim, temos menos condutores de coches, mas temos mais taxistas e condutores de Uber. A diferença? Os condutores de coche que investiram em si e tiraram carta de condução passaram a conduzir um veículo motorizado. Os condutores de coche que se recusaram, perderam. 

Subjacente ao conselho de emprego para a vida é a crença que o progresso tecnológico se move de forma lenta, de tal forma que não teria impacto substancial nos cerca de 40 anos de vida ativa do graduado. A aceleração do progresso tecnológico torna esta premissa cada vez mais errada. 

A arquitetura de vida que me foi proposta já não funciona. Quem mais nada aprende desde que queima as fitas ficará obsoleto em 10 a 15 anos. Temos que atualizar as nossas capacidades todos os anos. Podemos até mudar de área após alguns anos de aprendizagem de nova área emergente. Pessoas que se recusaram a aprender e-mail, telefones moveis, vendas por internet, entrega ao domicílio, ficaram mais obsoletas nos últimos anos.

Por outro lado, quem abraça a tecnologia e progresso tem resultados acima da média. E não falo aqui de empreendedores como Jeff Bezos, Bill Gates, Elon Musk ou mesmo do nosso José Neves. Claramente estes pioneiros da tecnologia construíram empresas únicas e que lideram as respetivas indústrias. A um nível abaixo, temos ainda resultados bem acima da média. Por exemplo, no turismo, famílias e empreendedores que renovaram as suas casas ou quintas, tiraram boas fotos e puseram nos motores de busca internacionais como AirBnB ou Booking.com, atraem mercados de turistas que antes eram inalcançáveis. E isto reflete-se em mais noites vendidas por ano e em preços mais altos praticados. Nada mau, para quem abraçou uma nova tecnologia.

O vosso avô, médico, não só estudou seis anos de licenciatura mais três de especialidade como também todas as semanas, ao fim de semana, se sentava a ler as revistas médicas para estar a par de avanços no seu campo. Muitos viam esta dedicação a aprendizagem constante como uma desvantagem da carreira médica. Agora todos somos médicos. Todos temos que nos atualizar constantemente. Para evitar que a maré do progresso suba rapidamente ao nosso nível e nos transforme em trabalhadores indiferenciados. Uma licenciatura, não garante um futuro confortável se não continuarmos a aprender.

Em Silicon Valley, e nos capitalistas de risco por esse mundo fora, há a crença que o progresso tecnológico vai acelerar materialmente nos próximos anos. Isso fará com que este conselho de atualização seja bem mais relevante para os próximos 20 anos do que foi nos últimos 20. O escritor Tim Urban tem uma boa ilustração desta crença no seu blog.