Opiniao

2021 – Um verão impossível de esquecer

Em Castro Marim, a Proteção Civil, os bombeiros e os populares bem mereciam todos palavras de conforto ditas no local. Estes, pela desgraça pessoal e económica que se abateu sobre eles, como vimos nas reportagens televisivas. Aqueles, os que combateram mais esta desgraça, o reconhecimento e o agradecimento público. Mas os políticos estão de férias!!!


1. Mais depressa eu elogiasse o PS pelo cuidado que teve em fazer uma escala de férias cumprindo Costa o dever de estar presente na primeira quinzena de agosto, mais depressa o PS me surpreendia (e ao país) ao nomear como primeira-ministra em exercício Mariana Vieira da Silva, apenas a quarta figura no Governo e por razões muito simples de explicar: Costa + Siza Vieira + Santos Silva estão todos simultaneamente de férias!

Até parece que todos combinaram tirar férias ao mesmo tempo, Governo e oposição, reservando-se para as autárquicas, acreditando que nada se passaria neste interregno. Costa até fez um solene aviso às populações para aquilo que seria o maior risco da época – os fogos. Infelizmente foi premonitório e eles aí estão, em força, primeiro Castro Marim, recentemente Odemira. 

O surpreendente surge a seguir, dado que nos fogos de Castro Marim, em que se destruíram cerca de 9 mil hectares, não apareceu nenhum membro do Governo. Ninguém se dignou interromper as férias e aparecer no local, nem sequer o ministro da Administração Interna Eduardo Cabrita. Alguém se insurgiu? Um silêncio generalizado, cúmplice mesmo.
Em Castro Marim, a Proteção Civil, os bombeiros e os populares bem mereciam todos palavras de conforto ditas no local. Estes, pela desgraça pessoal e económica que se abateu sobre eles, como vimos nas reportagens televisivas.

Aqueles, os que combateram mais esta desgraça, o reconhecimento e o agradecimento público. Mas os políticos estão de férias!!!

Entretanto, Gouveia e Melo não foi de férias. Tem uma missão a cumprir: assegurar a vacinação dos portugueses. Como todos os militares, o dever está primeiro, o folgar pode esperar. Trazendo a ‘expertise’ militar dos conhecimentos de logística e planeamento, o vice-almirante, calculista e sereno, trouxe a tranquilidade a Portugal (e ao Governo) que mais do que confia na sua liderança de um processo que começou francamente mal com Francisco Ramos, mas que hoje já tem cerca de 70% de pessoas totalmente vacinadas.

Um contraste doloroso entre os diferentes exemplos que vamos recebendo. Por isso, enquanto uns cada vez mais se vão dando ao respeito, outros são apenas tolerados.

2. A função pública, entretanto, também vai ‘engordando’ no verão, atingindo 731 mil funcionários em 30 de junho de 2021. Sem a troika à perna, o PS lá vai aumentando os quadros, em particular na educação e, de forma até compreensiva, na saúde. Só por curiosidade refiro que, em finais de 2011, existiam cerca de 727 mil funcionários públicos e em setembro de 2015, sensivelmente o último trimestre do Governo de Passos Coelho, cerca de 650 mil.
Hoje, o funcionalismo público representa cerca de 7,1% da população ou 14,2% da população ativa. Aguardo para ver como se compatibiliza este incremento com a necessidade da digitalização (ou desmaterialização) da função pública, tão bem identificada no PRR e onde se reservaram cerca de Eur 579 M? 

Reparem que há tempos, em Bruxelas, Costa referiu que os fundos do PRR para a transição digital se iriam centrar «na modernização do trabalho e dos processos de produção, na mitigação do défice de competências em tecnologias digitais, … e na adoção de uma cultura de inovação e experimentação». Ora, para mim, é claro que daqui irão resultar novos métodos de trabalho e consequentes redundâncias que terão de ser solucionadas.

Para já, uma coisa creio ser certa: as contratações estarão a ser feitas com critérios de necessidade de pessoal estabelecidos ad hoc. Gerir recursos humanos é mais que isso, inclui também alocar recursos de acordo com as necessidades identificadas em cada circunstância. Nas melhores práticas, a análise inicia-se pela definição ou redesenho de processos e de seguida é analisada a necessidade dos recursos. 

Não creio que isso tenha sido feito na maior parte dos casos até porque os governantes não sentem no seu bolso individual o desperdício dos recursos financeiros. Mas aqui deixo uma sugestão: por exemplo, nas câmaras municipais: não se conseguiria um padrão que identificasse os recursos necessários proporcionais à dimensão das mesmas? Ou nas escolas? Ou nos hospitais e em cada serviço? 

Eu chamo a isso «racionalização de recursos», certamente os beneficiários consideram «raciocínios capitalistas!». Apenas um detalhe: são os nossos impostos que pagam essas contratações e todos os excessos. 

3. Alguém acredita que para Biden e para o ‘intelligence’ americano foi uma surpresa o controlo tão rápido do território afegão por parte dos talibãs? Foram 20 anos, não 20 dias que lá estiveram, pelo que não acredito no desconhecimento da realidade. Aliás, penso que foi exatamente por saberem que o prolongamento da estadia americana no Afeganistão estava apenas a adiar o inevitável que optaram por saltar fora, atirando aparentemente o país para os braços da Rússia e/ou China, sempre pressurosos a acorrer a novos países carentes de apoio.

Mas há outra realidade no Afeganistão: as riquezas do subsolo, com grandes veios de minério de ferro, cobalto, cobre, ouro e metais críticos para a indústria, como o lítio. Em junho de 2020, no Pentágono, até se falava na ‘Arábia Saudita do lítio’. Ou seja, não há apenas o ópio de que tantos falam. Sendo ainda demasiado cedo para fazer projeções, será que esta realidade incontornável teve também algo a ver com a saída dos americanos, por exemplo reservando direitos futuros?