Retratos Contados

A mãe dos cinco

Claro que as gerações mais novas vão dizer que J. K. Rowling é que é detentora do título de ‘Escritora inglesa com mais livros vendidos’. É verdade que a ‘mãe do Harry Potter’ vende milhões de cópias, e os seus livros tornaram-se a série literária mais vendida da história. No entanto, os livros de Enid Blyton encontram-se entre os mais vendidos do mundo desde a década de 1930, com mais de 600 milhões de cópias.


por Nélson Mateus e Alive Vieira 

Querida avó,

Se a vacinação tivesse acontecido quando eu era jovem, certamente iria estar a ler um livro da coleção Os Cinco, no tempo de espera antes da vacinação e durante o recobro.

Claro que as gerações mais novas vão dizer que J. K. Rowling é que é detentora do título de ‘Escritora inglesa com mais livros vendidos’. É verdade que a ‘mãe do Harry Potter’ vende milhões de cópias, e os seus livros tornaram-se a série literária mais vendida da história. No entanto, os livros de Enid Blyton encontram-se entre os mais vendidos do mundo desde a década de 1930, com mais de 600 milhões de cópias.

Todo este sucesso, transversal a várias gerações, começou numa época em que poucos tinham televisão, não existia internet, nem redes sociais. 

Existiram anos em que conseguiu publicar 50 livros. Já para não falar do que escrevia para revistas e jornais. 

Muitos não sabem, mas Enid Blyton, para além da coleção Os Cinco, ainda escreveu as coleções Os Sete; As Gémeas; Noddy; O Colégio das Quatro Torres; Mistério, etc 

De todos estes títulos apenas li a coleção Os Cinco. Confesso-te, querida avó, que perdi a conta à quantidade de vezes que li os 21 livros da coleção. Todos os anos, nas férias de verão, lá lia eu a coleção completa. Começava no livro Os Cinco na Ilha do Tesouro e só terminava quando chegava à última página do livro Os Cinco e a Torre do Sábio.

Os meus serões de verão, depois dos Jogos sem Fronteiras eram passados na companhia do Júlio, da Ana, do David, da Zé e, claro, do Tim, o cão. Não esquecendo o distraído ‘Tio Alberto’ e a bondosa ‘Tia Clara’.

Os livros de Enid Blyton ainda hoje continuam a fazer muito sucesso.

Ninguém melhor do que tu para falares desta escritora. Tu que escreveste o livro O Mundo de Enid Blyton e que para isso fizeste muita pesquisa. 

Bjs e tem cuidado com o calor.

 

Querido neto,

Também eu li todos os “Cinco”, “Sete”, “Mistérios”, “Aventuras” e mais que fossem. Tinha uma inveja danada do cão, porque estava sempre a comer gelados, e lá em minha casa eu só podia comer gelados muito, muito de vez em quando (e quando fui operada à garganta…).

Já adulta, entrevistei a primeira tradutora portuguesa dos “Cinco”, porque achava qualquer coisa de estranha naquelas traduções. E a senhora confirmou-me, com grande alegria, que sim senhora, tinha juntado ao texto original uma frase ou outra da sua autoria.

Temos de fazer uma separação entre a escritora e a pessoa. Não têm rigorosamente nada a ver uma com a outra. Da escritora disseste quase tudo. Deixa-me só acrescentar que ela escrevia sentada numa cadeira no jardim com a máquina de escrever sobre os joelhos. Horas e horas a fio. 

Comecei a investigar a sua vida na altura em que morreu. 

Tive um trabalhão danado, li tudo o que havia sobre ela até que me decidi recorrer diretamente às fontes. A filha mais nova ainda era viva e foi quem me orientou nesta pesquisa complicada. Dizia-me ela que a mãe odiava crianças. As duas filhas eram tratadas pela empregada, e nunca podiam fazer barulho senão a mãe chamava e dava-lhes uma tareia por terem perturbado o seu trabalho. 

Lembro-me de essa filha me dizer: «Só percebi que tinha mãe aos 10 anos».

Nenhuma criança se podia abeirar dela. 

A mãe morava praticamente ao lado e ela saiu de casa para ir viver com uma família rica, e nunca a quis ver, nem mesmo quando a senhora estava a morrer.

Durante a guerra, o marido foi ferido, estava muito mal e chamou-a. E ela mandou dizer que tinha um livro para acabar e não podia perder tempo.

E tanta, tanta coisa que teria agora para te contar. Mas acho que já chega…

A escritora é uma coisa, a pessoa é outra. Pode parecer estranho, pois pode. Mas era assim.

E já falei da senhora o suficiente.

Bjs e cuidado com o calor.