Internacional

Cabul. Crónica de um atentado anunciado

As ameaças eram reais mas ninguém tinha solução para evitar os atentados. Teme-se agora que muitos afegãos e não só fiquem à sua sorte no país.


O bombardeio de ontem no aeroporto de Cabul, que nas últimas duas semanas tem sido palco de “um filme de terror”, com milhares de pessoas a tentarem entrar a bordo de aviões enviados para retirar cidadãos do país na sequência da tomada do poder pelos talibã, veio após inúmeros avisos de vários países de que a área poderia ser um alvo.

OS VÁRIOS AVISOS Tanto o gabinete dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido como da Austrália alertaram para o “risco elevado” de um ataque terrorista no aeroporto onde mais de 10 mil afegãos esperam para serem retirados do país e as atenções estão todas voltadas para o grupo ISIS-K, um braço do Estado Islâmico inimigo dos talibãs.

Face ao aviso dos aliados emitidos esta quarta e quinta-feira, as forças norte-americanas pediram que a população afegã evitasse dirigir-se até ao aeroporto. Contudo, isso não aconteceu. “Aqueles que se encontram no Abbey Gate, East Gate, ou North Gate devem partir imediatamente”, alertou o Departamento de Estado norte-americano numa nota , falando de “ameaças à segurança”, num momento em que as as tropas ocidentais tentam ser rápidas para retirar o maior número possível de estrangeiros e afegãos antes de 31 de agosto (data oficial para a saída dos EUA).

O Ministério dos Negócios Estrangeiros australiano bem alertou da parte da manhã que existia uma “ameaça contínua e muito alta de ataque terrorista”, pedindo às pessoas para não viajarem até ao aeroporto, reproduzindo o apelo do gabinete britânico: “Se conseguirem sair do Afeganistão por outros meios, devem fazê-lo imediatamente. Não viajem para o aeroporto internacional de Kabul Hamid Karzai. Se estiver na área do aeroporto, mude-se para um local seguro e aguarde mais conselhos”.

Na manhã de ontem, também o secretário de Estado das Forças Armadas britânico, James Heappey, veio reforçar o pedido, afirmando que havia uma ameaça real e “iminente” no aeroporto de Cabul, numa altura em que as pessoas estão desesperadas e “há um apetite de muitos na fila para se arriscarem”. “Há agora um relato muito, muito credível de um ataque iminente e por isso o conselho do Ministério dos Negócios Estrangeiros foi alterado ontem à noite”, referiu Heappey, em entrevista à BBC Radio 4, acrescentando que as tropas do Reino Unido estavam a “fazer o possível para fornecer segurança para aqueles que se encontram na fila”.

Mais tarde, em entrevista à BBC Breakfast, o secretário de Estado das Forças Armadas britânico alertou que “a credibilidade dos avisos atingiu um estágio em que acreditamos que há um ataque muito iminente e altamente letal possível dentro de Cabul”. Questionado pela Sky News se o ataque poderia ocorrer nas próximas horas, Heappey respondeu que sim.

Também o coronel Richard Kemp, ex-chefe das forças britânicas no Afeganistão, já havia falado ao programa de televisão dizendo que o risco de um ataque terrorista “esteve presente desde o início dos esforços de evacuação”: “Não tenho dúvidas de que as nossas forças estão totalmente cientes da ameaça e já, há dias, têm vindo a tomar medidas para tentar mitigá-la, para evitar que algo assim aconteça”, revelou.

OS PAÍSES QUE NÃO PODEM AJUDAR MAIS Os governos do Canadá, Dinamarca e Bélgica informaram ontem que encerraram as operações no Afeganistão para a retirada do seus cidadãos e de afegãos de Cabul. “Ficámos no Afeganistão o máximo que pudemos. Gostaríamos de poder ter ficado mais tempo e resgatado todos”, lamentou chefe interino da Defesa do Canadá, General Wayne Eyreem. “O facto de não termos podido é verdadeiramente doloroso, mas as circunstâncias no terreno deterioraram-se rapidamente.”

A Noruega afirma também não poder continuar a evacuar os cidadãos restantes de Cabul, de acordo com o ministro das Relações Exteriores do país. “As portas do aeroporto estão fechadas, já não é possível receber as pessoas”, disse a chanceler Ine Eriksen Soereide à emissora TV2.

Já o fim das operações dinamarquesas no aeroporto de Cabul foi confirmado à CNN pelo Ministério da Defesa do país. O último voo de um avião Hércules do país, com destino a Islamabad, no Paquistão, partiu na noite de quarta-feira.

O processo de retirada de civis do Afeganistão atravessa uma fase mais conturbada à medida que se aproxima o prazo dado pelos talibãs para que os militares estrangeiros abandonem em definitivo o país, fixado em 31 de Agosto. Fontes da Casa Branca indicam que o Presidente Joe Biden não contempla alterações a este calendário, apesar do ataque.

Enquanto isso, o Major General do Exército dos EUA William Taylor anunciou numa conferência de imprensa, esta quarta-feira, que estavam presentes no aeroporto de Cabul mais de 10 mil pessoas à espera de serem evacuadas pelas forças norte-americanas ou pelos aliados.

O aeroporto de Cabul está atualmente defendido e administrado pelos EUA , que têm 5.800 soldados no terreno - com a ajuda de mais de 1.000 soldados do Reino Unido.