À esquerda e à direita

Lambuzelas e caniches

Há uns anos, nomeadamente durante a troika, a esquerda europeia, com a portuguesa à cabeça, dizia da chanceler alemã o que Maomé não dizia do toucinho. É espantoso como tantos mudaram de opinião sobre uma política que não mudou o seu rumo


O mundo está mesmo estranho e de difícil compreensão. Angela Merkel, que deixará o Governo alemão e a política, transformou-se em pouco tempo de uma nazi em farol da democracia. Há uns anos, nomeadamente durante a troika, a esquerda europeia, com a portuguesa à cabeça, dizia da chanceler alemã o que Maomé não dizia do toucinho. É espantoso como tantos mudaram de opinião sobre uma política que não mudou o seu rumo, defendendo a criação de riqueza como a melhor forma de melhorar a vida de todos. Deixando a simplificação para trás, Merkel vai deixar saudades e vai fazer falta a uma Europa um pouco perdida no seu rumo, com uma população envelhecida e nas mãos, em muitos casos, de máfias de migrantes.

Ainda esta semana, António Barreto explicava na TVI que Portugal devia seguir o exemplo da Suíça e que deveria ter uma política de imigração bem definida, onde só entrava quem tinha contrato de trabalho ou pelo menos perspetivas de o ter. Quem abrir as portas a todos sem saber se os pode receber e integrar bem só vai caminhar para o caos, deixando os populistas de esquerda ou de direita conquistarem espaço e provocarem a desordem.

Continuando no mundo estranho, como vai ficar o Afeganistão? Será possível que os americanos façam uma aliança com os talibãs para escorraçarem os fanáticos do Estado Islâmico, como dizem muitos especialistas? Se assim for, qual o preço a pagar por essa aliança? Calculo que os afegãos terão a resposta e que as mulheres saberão ainda melhor o seu futuro.

Ainda mais histórias insólitas no mundo árabe. Numa entrevista ao Expresso, Robert O’Neil, o soldado que matou Bin Laden, explica o que poderia ter corrido mal se Bin Laden tivesse feito o que incentivou tantos a fazer: detonando um colete com bombas, suicidando-se e levando para o paraíso ou inferno os soldados americanos que o foram matar.

Curiosamente, Robert O’Neil conta o que encontraram na casa do terrorista mais procurado do planeta: «Havia tanto ópio que julguei que se tratava de bifes congelados, uma reserva alimentar para alguém que se teria mentalizado que viveria ali durante muito tempo. As caixas e caixas de Viagra também davam a entender isso!».

O mundo é um pouco isso. Citando um clássico, «Bem prega Frei Tomás, olha para o que ele diz, não olhes para o que ele faz». 

Nas surpresas da semana não posso deixar de recordar uma entrevista que Francisco Assis deu ao Observador. Quando questionado sobre a mudança de pensamento sobre o futuro do PS, o agora presidente do Conselho Económico e Social não se perdeu. A pergunta foi muito clara: ‘No início deste ano, falava, apostava até, em entrevista ao Público e à Renascença, numa crise política em outubro deste ano. Continua a pensar assim?’. A resposta revela bem como António Costa é um génio a acabar com os seus opositores. «Certamente exprimi-me mal, porque isso deu origem à ideia de que eu defendia uma crise política e não me compete a mim fazer essa análise». Questionado se se tinha arrependido, Assis - não o santo italiano, mas o político socialista - deu uma resposta ainda mais hilariante: «Procurei pôr-me na cabeça do primeiro-ministro, admitindo que ele podia querer esclarecer algumas coisas e iniciar uma nova fase no período pós pandemia. Mas isso gerou uma reação negativa e eu percebi - também aprendemos com as coisas que vamos dizendo ao longo dos tempos - que estando a desempenhar esta função tenho de ter algum dever de reserva, que é coisa que por vezes na vida política portuguesa falta». Genial. Se a oposição ao PS é a desgraça que é e se a oposição interna a António Costa desaparece com uns cargos, calculo que bem remunerados, o que podemos esperar deste país? Pior que isto tudo só o que vi ontem no maior frete ao líder, mas que a criatura, por ser tão sabuja, nem merece que escreva o seu nome. Que limpe a baba ao seu longo avental.

vitor.rainho@sol.pt