Biblioteca Pessoal

O número proibido

Numa biblioteca – como em tudo – os silêncios podem ser eloquentes.


Num recanto discreto da estante da minha sala, vinte e uma lombadas idênticas formam uma mancha uniforme. Trata-se da coleção completa da Ficções, a extinta revista de contos dirigida por Luísa Costa Gomes.

Embora se autointitulasse ‘revista’, cada número da Ficções (que foi buscar o seu nome ao mundo de Jorge Luís Borges, um magistral contista) é um pequeno livro – e por isso não destoa numa estante ao lado de outros livros. Sempre me agradou o bom gosto da capa branca muito simples, com as letras bem desenhadas e apenas um apontamento de cor que ia variando. Mas o ‘prato forte’, claro, era a seleção criteriosa de contos e as traduções primorosas. Um outro aspeto importante era a inclusão, a fechar, de contos de autores portugueses, por vezes jovens, que assim podiam medir-se com os gigantes.

Já não recordo qual o primeiro número que me veio parar às mãos, nem em que circunstâncias, mas tenho uma forte suspeita de que o adquiri numa livraria perto de casa que já fechou as portas, a Obras Completas.

Foi através da Ficções que descobri Machado de Assis (‘Ideias de Canário’) ou Marcel Schwob (‘OConto dos Ovos’), ficando espantado como nunca tinha ouvido falar daqueles prosadores prodigiosos.

Passei a comprar os exemplares que ia encontrando na tal livraria, fossem eles antigos ou novos números acabados de sair. Quando a revista deixou de ser publicada, faltavam-me apenas quatro ou cinco. Aí, como um miúdo que quer acabar a caderneta, pus-me em busca dos cromos em falta.

Disse que se tratava da coleção completa. Não fui rigoroso. Na verdade, ficou sempre a faltar-me um número.

Numa biblioteca, como em tudo, os silêncios podem ser eloquentes. Neste caso, a ausência devia-se ao facto de o número em causa estar associado a uma figura com quem eu embirrava.

Bem forte devia ser essa embirração para que eu preferisse deixar a coleção incompleta... e convivesse bem com isso.

Até que um dia destes, numa feira de rua, tropecei no dito número ‘proibido’. E, depois de alguma hesitação, a ideia de completar a coleção prevaleceu.

Chegado a casa, peguei no exemplar. Há muito tempo que não abria um número da Ficções. Já nem me lembrava que cada conto era acompanhado por uma útil biografia do autor.

Conferi os nomes na capa – nada. Li o índice e o texto da contracapa. Nada. Desconfiado, esquadrinhei a ficha técnica de uma ponta à outra. Nem sombra de referência à tal personagem embirrante! A conclusão era óbvia: andei estes anos todos equivocado.

E pensar que, por causa dessa teimosia estúpida e infundada, quase me tinha condenado a ficar com a coleção incompleta! Por isso vos digo: oamor pode ser cego, mas a aversão não lhe fica atrás.