À esquerda e à direita

Mundo cão

Como é possível haver dinheiro para salvar os animais de estimação e não haver para salvar as pessoas?

 


Ponto prévio. Nunca fui a uma tourada, nunca cacei um pardal, nunca assisti a uma matança de porco, nunca pesquei, nunca tive um animal doméstico, apesar de ter convivido com muitos e de os ter tratado com todo o respeito. Senti, como é óbvio, muita tristeza quando morreram os cães e gatos da família ou dos amigos. Apesar deste historial, nunca pensei assistir ao que vemos hoje em dia e nem nos piores pesadelos sonhei que cães e gatos pudessem ter prioridade em relação às pessoas. O que se passou no Afeganistão ultrapassou tudo o que é aceitável numa sociedade digna desse nome - deixar as pessoas para trás para salvar os ditos animais é assustador. E é mais assustador pois foi com dinheiro de beneméritos que se conseguiu pagar um voo comercial para repatriar o ex-fuzileiro britânico com os seus 200 cães e gatos de Cabul. Os colaboradores do ex-militar ficaram entregues aos talibãs, mas o britânico Paul Farthing sentiu mais pena dos seus amigos de quatro patas do que dos colaboradores afegãos que o ajudaram a manter vivo o canil e o gatil durante anos. Como é possível haver dinheiro para salvar animais de estimação antes de livrar da morte pessoas?

É este mundo sinistro que está a ser construído nas redes sociais, onde as prioridades estão todas ao contrário: onde as aparências e ilusões são mais importantes que a vida real.

E é por isso que Inês Sousa Real, a porta-voz do PAN - que raio de denominação para um líder partidário - se atreve a querer destruir formas de vida seculares embora fosse difícil alguém imaginar que os talibãs da soja algum dia fossem defender a proibição de se fazer pesca desportiva. Por acaso a deputada alguma vez pensou que muitas famílias vivem do que pescam e vendem nos restaurantes das proximidades? Ou que muitos têm refeições dos deuses depois de pescarem um belo robalo ou apanharem um polvo fantástico?

Como é que estes talibãs querem obrigar-nos a viver como eles? Não faltará muito para proibirem a criação de galinhas, patos, coelhos e afins. Destruindo a vida de pessoas que há séculos vivem assim e querem estar e longe desses urbano-depressivos, que sonham com um país totalitário, onde todos vamos comer relva e teremos de fugir dos milhões de patos, galinhas, vacas, touros, cabras e bodes que ocuparão o nosso espaço.

Tudo isto é triste, mas ainda é pior, porque esta minoria só consegue levar avante as suas ideias porque um primeiro-ministro ávido de poder precisa dos seus três votos para aprovação de orçamentos do Estado. E é a esta bicharada que estamos entregues. Em nome do poder, vale tudo.

Mas os 51,43% de abstenção das últimas legislativas assim o determinaram. Eu, por mim, hei de lutar contra estes novos ditadores que querem impor a sua vontade à força. 

Já agora, qual a razão para o PAN não defender e o PS aceitar que se faça uma ação de sensibilização para que as orcas ou os tubarões deixem de comer toneladas de peixe? 

Deixando estes talibãs para trás, o que dizer dos membros do Estado Islâmico das redes sociais tão rápidos a fazer julgamentos populares? As meninas até usam as costas para escreverem as suas fatwas, em vez de verem o filme Ligações Perigosas, onde John Malkovich fazia as suas declarações nas costas das amadas.

Terem culpado, sem direito a defesa, o jogador Rúben Semedo de violação é inacreditável. O crime é nojento e todos os violadores devem ser castigados exemplarmente. E os difamadores? É que o jogador diz-se vítima de extorsão e o tribunal parece dar-lhe razão...

vitor.rainho@sol.pt