Economia

Central. Pego abre guerra entre acionistas

Central detida pela Tejo Energia vai terminar operação a 30 de novembro. Acionistas não se entendem e Governo optou por lançar concurso público. Endesa critica projeto da TrustEnergy e avança com modelo semelhante ao que anunciou em Espanha, que deixa milhares no desemprego. 

DR  


A guerra entre acionistas da Central do Pego, em Abrantes, levou o Governo a avançar com um concurso público já em setembro para a exploração de produção de energia nesta unidade.

«O Ministério do Ambiente e da Ação Climática irá lançar, já este mês de setembro, um procedimento concursal com vista à atribuição do ponto de injeção na Rede Elétrica de Serviço Público (RESP) atualmente ocupado pela Central Termoelétrica a carvão do Pego», anunciou o Ministério de Matos Fernandes.

A ideia, segundo o Governo, é que esta central represente «um projeto exclusivamente focado na produção de energia de fontes renováveis», estando prevista a produção de eletricidade renovável, de gases renováveis, de combustíveis avançados e/ou sintéticos, ou uma mistura destes, «sendo ainda valorizada a inclusão de soluções de armazenamento de energia».

Outro dos critérios é o «nível da criação de valor económico para a região», nomeadamente a criação de novos postos de trabalho no médio-longo prazo ao mesmo tempo que se mantêm os atuais e a obrigação de que a sede do adjudicatário se situe em Abrantes. 

Uma solução encontrada pelo Governo depois de os acionistas da central – que apresenta uma potência instalada de 628 MW, atualmente detida pela Tejo Energia (56,3% da TrustEnergy e a restante posição pela Endesa) e que conta com cerca de 300 postos de trabalho diretos e indiretos e até 500 postos suplementares durante as paragens, cujo fim da operação está marcado para 30 de novembro, não terem chegado a acordo em relação ao seu futuro.

Ao que o Nascer do SOL apurou, a TrustEnergy defende o desenvolvimento de um projeto de transição, criando um centro renovável de produção de energia verde em várias modalidades: eletricidade, hidrogénio e outros gases renováveis, a partir de diversas fontes primárias de energia local, como solar, eólica e resíduos florestais.

Um dos objetivos passa por utilizar matéria-prima dos resíduos florestais, disponíveis na região – como cascas, cepos, toiças, raízes e ramos, resultantes das atividades de gestão florestal na região.

Uma solução que, poderá ajudar a mitigar os riscos fitossanitários e os riscos de incêndio, nomeadamente através da preparação e manutenção de faixas primárias, o corte de madeira queimada, a limpeza de infestantes e a redução da densidade em zonas críticas.

Os resíduos florestais torrefeitos serão armazenados no Pego para que possam ser processados na central térmica quando for necessário produzir energia para apoiar o sistema de alimentação elétrica ao país. Isto significa que, apesar da potência total da central ser de 600MW, a sua utilização recorrendo aos resíduos de biomassa florestal deverá ser baixa, dependendo da disponibilidade de matéria-prima, e utilizada de forma intermitente em períodos em que as outras energias não estejam disponíveis, isto é, quando não há sol e/ou quando os recursos eólicos ou hídricos sejam mais baixos, permitindo deste modo garantir uma maior segurança de abastecimento.

Apostas em cima da mesa

A TrustEnergy acredita que com esta solução de médio-longo prazo para a produção de energia através de fontes renováveis permitem que a região continue a desempenhar um papel fulcral na produção energética nacional para que a região continue a desempenhar um papel importante nesta matéria e, ao mesmo tempo, manter os postos de trabalho na central, apostando na sua reconversão e requalificação. 

Um projeto que não convence o outro acionista. O Nascer do SOL sabe que a Endesa afasta a ideia de avançar com uma central assente em biomassa. Em cima da mesa, segundo informação disponibilizada pela elétrica, está um projeto de substituição da central elétrica a carvão que «inclui a construção de uma central solar fotovoltaica de 650 megawatts (MW), o desenvolvimento de 100 megawatts (MW) de capacidade de armazenamento com baterias e a instalação de um eletrolisador com capacidade de produção de 1.500 toneladas/ano de hidrogénio verde».

Para Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa Portugal, o projeto assenta em três pilares: «Geração renovável com base em fotovoltaica, acumulação de energia com base em séries de baterias e hidrogénio verde que não só está na linha dos objetivos das políticas energéticas, como é um valor acrescentado para a região». E acrescenta: «Estamos cientes é que este conceito foi adotado pelo nosso sócio com um investimento de centenas de milhões de euros [900 milhões de euros] e nós prevemos que o nosso sejam 600 milhões de euros».

Contactada pelo Nascer do SOL, a Endesa «lamenta a insistência do seus sócios num projeto de conversão a biomassa que se veio a comprovar que não tinha futuro, tenha impedido a realização de um trabalho de preparação junto dos trabalhadores similar ao que a Endesa implementou em Espanha», acrescentando que «tem total confiança em que o seu projeto de futuro para a região será capaz de criar as oportunidades necessárias para não só manter o nível de emprego atual na região, como para aumentá-lo no futuro, dando início a uma nova etapa, com as tecnologias do futuro, para os próximos 30 anos».

Mas o Nascer do SOL apurou que, tal como em Portugal – com a Central Termoelétrica alimentada a carvão do Pego –, também em Espanha a Endesa está a levar a cabo o encerramento de várias centrais termoelétricas alimentadas a carvão e anunciou para essas centrais espanholas uma série de medidas de reconversão, cujas promessas não estão a ser cumpridas.

Essas alterações estão a ter impacto no mercado laboral, provocando uma forte contestação junto das populações, uma vez que os trabalhadores não estão a beneficiar das medidas e as regiões estão a ser penalizadas do ponto de vista económico pelo encerramento dos projetos. O nosso jornal sabe que há o receio que isso possa acontecer também em Abrantes. 
 
Os ‘ventos’ de Espanha

Um desses casos é em León, com a central termoeléctrica de Cubillos del Sil. O pedido de autorização para o fecho por parte da Endesa foi feito em dezembro de 2018. De acordo com a elétrica, os trabalhos de desmantelamento teriam a duração de quatro anos e previa a criação de 130 postos de trabalho. Mas, ao que o Nascer do SOL apurou, desde o início que o fecho da central esteve envolvido em conflitos entre os trabalhadores das empresas auxiliares e a elétrica.

O secretário geral da UGT na comarca de El Bierzo já veio revelar que os trabalhadores não estão a ser chamados, tal como tinha sido prometido, e que quando questionou a Endesa sobre esta situação foi-lhe comunicado que a responsabilidade era das empresas vencedoras dos concursos e, como tal, não poderia forçar essa contratação.

Isto significa que a continuidade laboral prometida pela elétrica não está a ser cumprida e, como a desmontagem está a cargo de várias empresas, muitos dos trabalhadores contratados não são da central e quando o serviço fica concluído vão-se embora. Uma decisão que também tem impacto nos cofres municipais, já que esta central representava cerca de 60% das suas receitas. 

O mesmo cenário repete-se em Andorra. O pedido de encerramento da central termoelétrica Teruel, que foi inaugurada em 1981, também foi feito em dezembro de 2018. Para o seu desmantelamento, a Endesa anunciou que contaria com 100 pessoas, sendo que no pico chegaria a 140 postos de trabalho de mão de obra direta e que 70% dos trabalhadores seriam locais ou procedentes de empresas auxiliares.

A desmontagem tem uma duração prevista de quatro anos, contando ainda com a instalação dos parques eólicos e solares previstos no plano Futur-e, o que representaria um investimento de 1.500 milhões de euros e a criação de 600 postos de trabalho.

Mas o Nascer do SOL sabe que, mais uma vez, a contratação de pessoas para a desmontagem da central foi decisão das empresas contratadas, logo não respondeu às expectativas. Também o número de postos de trabalho que vão trazer os novos projetos de energias renováveis irá ficar aquém do prometido. E os efeitos já são visíveis: no último ano, Andorra perdeu 15% da sua população, a par do impacto para a região, uma vez que esta central representava 25% do PIB da província de Teruel. 

No ano seguinte, a elétrica solicitou o encerramento da central de As Pontes, na Corunha, com a expectativa de fechar definitivamente as portas no dia 1 de julho de 2021. Ao que o nosso jornal apurou, esta decisão apanhou todos de surpresa, uma vez que a Endesa tinha investido neste espaço cerca de 300 milhões, três anos antes com vista a prolongar o seu funcionamento até 2045. Acabaria por antecipar o seu encerramento para 2030 e depois para 2021. 

No entanto, antes do encerramento foi avaliada a possibilidade técnica e económica de dar continuidade à central com o uso de biocombustíveis. Mas meses mais tarde, essa solução foi afastada pela Endesa que apresentou um novo cenário com um projeto de uma instalação para produção de hidrogénio e uma pequena instalação para substituir a central de 1.400 megawatts para 50 megawatts de coincineração com biocombustíveis e uma instalação de 20 megawatts de biogás.

Ao que Nascer do SOL apurou, a Endesa apresentou outras propostas para manter o emprego na localidade, mas estão pendentes de fundos europeus e autorizações e é apontada uma espera mínima de cinco anos até que possa ser avançado algum desses projetos.

De acordo com a informação avançada pela UGT, dos 182 funcionários da Endesa 40% assinaram o acordo voluntário de saída com a pré-reforma e 60% foram recolocados. As recolocações foram na sua maioria nas zonas de La Corunha, cidade que está próxima de As pontes, mas cerca de 40 trabalhadores foram obrigados a deslocar-se para outras localidades como os Pirenéus, Canárias ou Ceuta e Melilha. 

Também em Almería, a elétrica anunciou para este ano o encerramento da central termoelétrica de Carboneras e já se sente o impacto com a redução do número de trabalhadores para o mínimo legal para poder trabalhar. O nosso jornal sabe que, para já, os efeitos são reduzidos mas já há uma estimativa para as perdas: uma redução de 500 postos de trabalho diretos e indiretos e uma perda de 30% de receitas diretas, o que representa uma redução de três milhões de euros para a localidade. 

Um cenário afastado pela elétrica: «É público que a Endesa irá investir 4.500 milhões de euros em novos projetos de futuro nas zonas onde está a encerrar as suas centrais térmicas a carvão em Espanha. Estes projetos de futuro centram-se essencialmente na produção de energia renovável, na produção de hidrogénio verde, e no desenvolvimento de soluções de armazenamento com baterias. No seu conjunto, ao longo dos próximos seis anos, este projetos vão criar mais de 3 mil novos postos de trabalho fixos diretos nestas regiões. Em todos estes casos, a Endesa vem a desenvolver, com grande antecedência, um trabalho de formação e apoio aos trabalhadores cuja atividade cessou ou irá cessar no carvão, preparando a sua reconversão profissional».